{"id":4891,"date":"2024-07-16T11:27:51","date_gmt":"2024-07-16T14:27:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/?p=4891"},"modified":"2024-07-30T11:09:30","modified_gmt":"2024-07-30T14:09:30","slug":"o-poder-da-escrita-em-momentos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/com-a-palavra\/o-poder-da-escrita-em-momentos-de-crise\/","title":{"rendered":"O poder da escrita em momentos de crise"},"content":{"rendered":"\n<p>O romance <em>Ela se chama Rodolfo<\/em>, lan\u00e7ado em 2022 pela DBA Literatura, colocou o nome da escritora <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/julia.y.rodolfo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Julia Dantas<\/a> no radar de quem gosta de boas hist\u00f3rias. Ambientado em Porto Alegre e segunda publica\u00e7\u00e3o da autora, a trama acompanha a rotina de Murilo, que encontra uma tartaruga no apartamento que acaba de alugar e passa por uma transforma\u00e7\u00e3o. Premiado pela Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Escritores e pela Academia Rio-Grandense de Letras, o livro conquistou leitores ap\u00f3s o seu lan\u00e7amento. Por\u00e9m, o nome de Julia passou a circular novamente, na internet, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/juliaydantas.substack.com\/p\/a-casa-alagada\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>A Casa Alagada<\/em><\/a>, texto em que ela compartilha o reencontro com sua casa ap\u00f3s as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em maio deste ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que seu blog <a href=\"https:\/\/juliaydantas.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Passagem Dois<\/em><\/a> ganhou novos leitores, a maioria deles tamb\u00e9m atingidos pelas chuvas e identificados com a descri\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o trazido por ela. Doutora em escrita criativa, Julia conversou com o Educa\u00e7\u00e3o em Pauta sobre o sucesso de seu texto nas redes sociais, o poder da escrita diante da trag\u00e9dia e projetos futuros. Confira:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Voc\u00ea comentou, em outras entrevistas, que n\u00e3o imaginava que a m\u00e1xima \u201ca literatura salva\u201d iria ser vivenciada de forma t\u00e3o objetiva. Como foi o processo de colocar em palavras o que tu estavas sentindo ao entrar no teu apartamento ap\u00f3s as enchentes? Houve algum acontecimento em espec\u00edfico que te motivou a transformar em texto o que tu estavas vivendo?<\/strong><br><strong>Julia Dantas \u2013 <\/strong><mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Escrever me ajuda a organizar os sentimentos e pensamento,<\/mark> ent\u00e3o foi muito natural o processo de escrita. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">N\u00e3o foi algo que eu planejei e nem passei muito tempo pensando a respeito. Comecei escrevendo para mim, apenas como uma forma de assimilar o que estava acontecendo e talvez tamb\u00e9m como um modo de criar um registro desse acontecimento hist\u00f3rico que acabou nos atingindo diretamente.<\/mark><br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Como surgiu o blog Passagem Dois, onde voc\u00ea publicou <em>A Casa Alagada?<br><\/em>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Uma vez que eu estava escrevendo, me pareceu que faria sentido compartilhar os textos com outras pessoas. Foi uma decis\u00e3o um pouco intuitiva, eu n\u00e3o sabia como seria a recep\u00e7\u00e3o, mas sentia que outras pessoas que atravessaram a mesma coisa \u2013 ou coisas parecidas \u2013 poderiam se sentir acolhidas e compreendidas ao lerem um relato similar \u00e0s suas experi\u00eancias. Ent\u00e3o me perguntando qual seria a forma mais simples de publicar, me pareceu que o blog era r\u00e1pido de criar, de f\u00e1cil acesso por todo mundo e, ao contr\u00e1rio das redes sociais, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">um &#8220;lugar&#8221; em que os textos ficariam guardados para consulta futura,<\/mark> ou seja, eles n\u00e3o sumiriam nos feeds em pouco tempo.<br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 O texto A Casa Alagada foi muito compartilhado nas redes sociais e muitas pessoas afirmam que ele conseguiu descrever o que muitas delas sentiram em situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Tu acreditas que a literatura pode ser uma forma de entender ou vivenciar de forma mais leve o luto pela perda de um lar?<\/strong><br><strong>Julia Dantas \u2013<\/strong> <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Com certeza pode ser uma forma de entender e processar o luto.<\/mark> Eu tenho d\u00favidas se pode ajudar a deixar mais leve: me pergunto se \u00e9 poss\u00edvel ver com leveza uma perda assim e, mais que isso, me pergunto se faz sentido buscar leveza. E n\u00e3o quero de modo algum soar dram\u00e1tica, at\u00e9 porque a minha situa\u00e7\u00e3o pessoal j\u00e1 est\u00e1 infinitamente melhor do que um m\u00eas atr\u00e1s, e eu j\u00e1 posso dizer com seguran\u00e7a que vamos ter uma casa para voltar em breve. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso de todo mundo. H\u00e1 pessoas que n\u00e3o voltar\u00e3o para as suas casas, h\u00e1 outras que voltar\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, h\u00e1 muitas que voltar\u00e3o afundadas em d\u00edvidas. Nada disso \u00e9 leve, e essas pessoas merecem que a gente olhe para a gravidade da situa\u00e7\u00e3o delas, assim como merecem que os governos pensem em pol\u00edticas p\u00fablicas que possam, da\u00ed sim de modo muito objetivo, tornar mais leve a reconstru\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">A literatura ajuda, organiza, acalenta e at\u00e9 tranquiliza,<\/mark> mas (exceto no meu caso que fui apoiada materialmente por leitores e editoras) a literatura n\u00e3o vai fornecer m\u00f3veis, n\u00e3o compra um colch\u00e3o, n\u00e3o paga pelas portas, n\u00e3o vai lixar a madeira das janelas de ningu\u00e9m. Eu dedico grande parte do meu tempo e da minha energia \u00e0 literatura, mas quando algu\u00e9m perde uma casa, essa pessoa precisa que necessidades muito mais b\u00e1sicas sejam atendidas antes de poder chegar ao ponto de sentar, ler um livro ou um blog e, finalmente, passar da fase de reconstruir uma casa para recriar um lar.<br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Tu \u00e9s uma escritora premiada e, obviamente, uma leitora. Como foi encontrar teus livros e tentar salv\u00e1-los? Sabemos que, para al\u00e9m do valor monet\u00e1rio, estes objetos t\u00eam valor sentimental. Que mem\u00f3rias essa situa\u00e7\u00e3o te trouxe?<br>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Bah, foi duro. Eu provavelmente perdi um ter\u00e7o do que eu tinha. A gente tinha erguido os livros das prateleiras mais de baixo, ent\u00e3o perdemos os das intermedi\u00e1rias. O papel incha quando absorve \u00e1gua, chegou a quebrar as estantes. Lembro de, num dia que os amigos foram nos ajudar no mutir\u00e3o de limpeza, umas quatros pessoas se aproximarem de mim dizendo que eu precisava ir at\u00e9 o escrit\u00f3rio. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Quando cheguei l\u00e1, entendi que elas estavam dizendo que eu precisava ir l\u00e1 me despedir de fileiras de livros encharcados. N\u00e3o quiseram colocar no lixo antes que eu visse, o que \u00e9 uma delicadeza de quem entende que livros s\u00e3o mais do que objetos.<\/mark> Pude pegar neles uma \u00faltima vez, alguns livros escritos por amigos, v\u00e1rios com dedicat\u00f3rias, outros j\u00e1 esgotados nas livrarias. Perdas que n\u00e3o podem ser reparadas.<br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Muitas escolas est\u00e3o acolhendo alunos que perderam suas casas e agora retornam \u00e0 rotina das aulas. Na tua opini\u00e3o, a escrita pode ser um caminho para ajudar os estudantes a trabalharem suas emo\u00e7\u00f5es diante de uma situa\u00e7\u00e3o complicada como essa? Como professores podem incentivar o uso da literatura para tratar de assuntos complexos como o luto, por exemplo?<br>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Sem d\u00favida. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Eu recebi mensagens de pelo menos duas professoras que levaram meus textos sobre a enchente para a sala de aula. Uma delas ressaltou que alguns alunos revisaram sua opini\u00e3o de que a arte n\u00e3o \u00e9 capaz de mudar a realidade concreta, acho isso muito valioso.<\/mark> E, embora eu n\u00e3o trabalhe com adolescentes, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">acredito que a melhor forma de demonstrar o poder da escrita \u00e9 abrir espa\u00e7o para que os alunos escrevam.<\/mark> Por mais jovem que algu\u00e9m seja, todo mundo j\u00e1 atravessou processos de luto. Um jeito de movimentar essas emo\u00e7\u00f5es pode ser pedir aos alunos que escrevam tudo que eles lembram sobre algo que perderam: pode ser uma pessoa, um endere\u00e7o, uma pe\u00e7a de roupa, um brinquedo. Mesmo que pare\u00e7a algo insignificante a princ\u00edpio, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">a escrita por si abre os caminhos para reflex\u00f5es mais profundas.<\/mark><br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Tu \u00e9s doutora em escrita criativa. Como estimular a escrita entre estudantes? Que orienta\u00e7\u00f5es podem ser importantes para incentivar o h\u00e1bito da escrita entre crian\u00e7as e adolescentes?<br>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Acho que o principal, como em tantos processos criativos, \u00e9 n\u00e3o atrapalhar. Quando algu\u00e9m est\u00e1 come\u00e7ando a escrever, esse n\u00e3o \u00e9 o momento de exagerar nas corre\u00e7\u00f5es ou nas instru\u00e7\u00f5es. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Escrever significa encontrar sua voz pr\u00f3pria, e isso n\u00e3o acontece dentro das regras da gram\u00e1tica.<\/mark> O que eu gosto de fazer \u00e9, a partir do que meus alunos escrevem, indicar livros que se relacionem com o que eles trazem em termos de estilo, de tem\u00e1tica, de estrutura. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">Acho que o papel do professor \u00e9 mostrar alguns dos caminhos poss\u00edveis da escrita e da leitura, mas n\u00e3o tem como saber com anteced\u00eancia qual o caminho de cada aluno.<\/mark> Em termos muito objetivos de incentivar a escrita, me parece que os exerc\u00edcios r\u00e1pidos com proposta objetiva e tempo cronometrado funcionam mais do que sugest\u00f5es gen\u00e9ricas. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">&#8220;Escreva tudo que voc\u00ea acha que acontece na cozinha da sua casa durante um dia&#8221; \u00e9 um exerc\u00edcio que funciona melhor do que aquela cl\u00e1ssica reda\u00e7\u00e3o da minha \u00e9poca sobre como foram as f\u00e9rias.<\/mark><br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Teu romance <em>Ela se chama Rodolfo<\/em> aborda a amizade. Qual a import\u00e2ncia dos teus amigos para seguires produzindo literatura?<br>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Absoluta, n\u00e3o apenas porque os amigos d\u00e3o sentido \u00e0 vida, mas porque s\u00e3o meus primeiros leitores, meus maiores incentivadores, e as pessoas que ajudam a sustentar essa escolha de um trabalho art\u00edstico num pa\u00eds que n\u00e3o valoriza os criadores de cultura.<br><br><strong>Educa\u00e7\u00e3o em Pauta \u2013 Fale um pouco sobre os teus projetos liter\u00e1rios. H\u00e1 possibilidade de os escritos sobre a enchente se transformarem em livro?<br>Julia Dantas \u2013 <\/strong>Ainda n\u00e3o sei, acho que \u00e9 cedo para entender qual a dimens\u00e3o desse projeto. Ainda nem entendemos a dimens\u00e3o da enchente, n\u00e3o sei qual vai ser a resposta liter\u00e1ria a tudo isso. Percebo, nos meus alunos de oficina, que a enchente j\u00e1 come\u00e7a a aparecer em contos e cr\u00f4nicas, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color has-white-color\">ent\u00e3o me parece que haver\u00e1 muita gente transformando esse trauma coletivo em literatura.<\/mark> Da minha parte, o tempo vai dizer. Esse ano vou focar em recriar minha casa e no lan\u00e7amento do meu novo romance que est\u00e1 prestes a sair pela editora Dublinense. Depois disso, acho que vou conseguir entender melhor o que quero fazer com esses escritos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritora ga\u00facha Julia Dantas, que teve apartamento invadido pelas \u00e1guas nas enchentes de maio e publicou o texto A Casa Alagada, fala sobre como a escrita abre caminhos para reflex\u00f5es mais profundas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4892,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[663,637,666,664,665,43],"class_list":["post-4891","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-com-a-palavra","tag-casa-alagada","tag-enchentes","tag-escrita","tag-escritora-gaucha","tag-julia-dantas","tag-sinepe-rs-2"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O poder da escrita em 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