{"id":8908,"date":"2026-08-18T07:04:00","date_gmt":"2026-08-18T10:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/?p=8908"},"modified":"2026-08-18T12:12:57","modified_gmt":"2026-08-18T15:12:57","slug":"desafios-das-inteligencias-artificiais-no-ensino-da-autoria-a-producao-textual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/tendencias\/desafios-das-inteligencias-artificiais-no-ensino-da-autoria-a-producao-textual\/","title":{"rendered":"Desafios das IAs no ensino: da autoria \u00e0 produ\u00e7\u00e3o textual"},"content":{"rendered":"\n<p>Os usos das Intelig\u00eancias Artificiais (IAs) como ferramenta de pesquisa, desenvolvimento tecnol\u00f3gico, suporte \u00e0 programa\u00e7\u00e3o e outras vastas aplica\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez mais percept\u00edveis em diferentes ambientes. Algumas discuss\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas no presente cen\u00e1rio come\u00e7am a ser pauta recorrente no tratamento dos limites que a tecnologia emergente deve atender.<br><br>Uma dessas inquieta\u00e7\u00f5es diz respeito \u00e0 autoria no processo de produ\u00e7\u00e3o de enunciados por meio de IAs generativas. Em que lugar se coloca a tecnologia, enquanto criadora de material, que necessita de uma base que n\u00e3o adv\u00e9m dela mesma para tal \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d? A IA de fato cria esses enunciados ou somente compila o que os outros j\u00e1 fizeram? Nesse sentido, ela seria \u201cautora\u201d? Qual seria o papel do humano nesse processo? Qual seria o status do texto criado por IA?<br><br>Tais perguntas podem n\u00e3o ser t\u00e3o simples de responder, ou mesmo nem terem uma resposta adequada para o presente sem que haja necessidade de revis\u00e3o em um futuro pr\u00f3ximo. Para que n\u00e3o seja preciso o abandono prematuro de nossas considera\u00e7\u00f5es sobre o tema, iniciemos assentando aquilo que consideramos ser fundamental ao debate. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">N\u00e3o temos pretens\u00e3o de orientar, de fechar respostas, mas de suscitar inspira\u00e7\u00f5es.<\/mark><br><br>As perguntas acima feitas podem nos fazer, \u00e0 primeira vista, dada a complexidade do assunto, perder de vista a quest\u00e3o fundamental a ser respondida antes de todas as demais. O centro de nossa discuss\u00e3o parte do seguinte: como se constitui a autoria?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A constitui\u00e7\u00e3o da autoria&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, a atribui\u00e7\u00e3o de autoria a algu\u00e9m (ou a algo, nesse caso) perpassa condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que n\u00e3o disp\u00f5em de igual atribui\u00e7\u00e3o ao longo do tempo e nas diferentes sociedades. A palavra \u201catribui\u00e7\u00e3o\u201d muito nos diz das condi\u00e7\u00f5es sob as quais a ideia de autoria \u00e9 constru\u00edda. Quando pensamos em \u201catribui\u00e7\u00e3o\u201d, consideramos que a autodeclara\u00e7\u00e3o de autoria pode n\u00e3o ser o suficiente para o reconhecimento de que determinada fonte de fato \u00e9 aquela que originou um enunciado. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">Aquilo que \u00e9 atribu\u00eddo precisa necessariamente de aceita\u00e7\u00e3o dos pares, reconhecimento desses para que a parte naquilo que se apresenta seja dada ao sujeito.<\/mark><br><br>Os interlocutores s\u00e3o pe\u00e7a indispens\u00e1vel na atribui\u00e7\u00e3o da autoria, pois, se essa n\u00e3o \u00e9 reconhecida, o autor n\u00e3o \u00e9 reconhecido como tal. N\u00e3o fosse a exist\u00eancia do outro, qual haveria de ser a necessidade da autodeclara\u00e7\u00e3o da autoria? O locutor declara, enuncia aquilo que deseja que seja de sua perten\u00e7a somente por conta do outro. A alteridade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da humanidade, e esta s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela linguagem. \u00c9 por meio dela que o sujeito se constitui como tal. Se considerarmos as contribui\u00e7\u00f5es da Teoria da Enuncia\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias da linguagem, a pr\u00f3pria exist\u00eancia do \u201ceu\u201d e do \u201ctu\u201d precisa ser ponderada dentro de sua dimens\u00e3o discursiva, assim analisada enquanto inst\u00e2ncia de discurso.<br><br>Na produ\u00e7\u00e3o de linguagem, o escritor ou o falante produz um texto orientado duplamente: ao outro, seu interlocutor, e ao objeto. O texto n\u00e3o somente traduz um conte\u00fado a outro, como tamb\u00e9m mostra um posicionamento axiol\u00f3gico em rela\u00e7\u00e3o ao objeto, ao tema da enuncia\u00e7\u00e3o.<br><br>Nesta valora\u00e7\u00e3o do objeto no enunciado, \u00e9 imposs\u00edvel ao seu criador esconder-se, fugir de sua responsabilidade enunciativa, ou, conforme nos revela o fil\u00f3sofo russo Mikhail Bakhtin (2017), n\u00e3o h\u00e1 \u00e1libi do criador em seu enunciado. Dada a sua singularidade espa\u00e7o-temporal e hist\u00f3rica, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">o texto sempre ir\u00e1 revelar uma fonte autoral que o organizou e, al\u00e9m disso, evidencia um posicionamento frente ao mundo. <\/mark>O ser humano constitui-se pelo texto, e esse atende \u00e0s din\u00e2micas sociais e hist\u00f3ricas que lhe s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o para elabora\u00e7\u00e3o do discurso sobre o qual \u00e9 respons\u00e1vel e responsabilizado, visto que somente aquele falante, naquele contexto, com tais condi\u00e7\u00f5es, poderia produzir tal objeto singular do discurso que \u00e9, por conta de tudo isso, irrepet\u00edvel.<br><br>Sobre nosso agir, possu\u00edmos responsabilidade. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel furtar-se dos pr\u00f3prios atos, pois, enquanto sujeitos sociais circunscritos em nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, n\u00e3o existe outro que possa tornar intercambi\u00e1vel a exist\u00eancia do ser ou mesmo do agir. A a\u00e7\u00e3o possui efeito real dentro do contexto no qual se est\u00e1 inserido. Considerando isso, tomamos ci\u00eancia de que o falante n\u00e3o comunica aquilo sobre o qual seria ele isento de avalia\u00e7\u00e3o dos pares. N\u00e3o existe possibilidade de enunciado concreto que n\u00e3o seja pass\u00edvel de valora\u00e7\u00e3o. Aquele que enuncia estabelece rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica indissoci\u00e1vel do projeto do dizer transformado em enunciado, condi\u00e7\u00e3o natural da linguagem: discurso \u00e9 dial\u00f3gico por natureza (Bakhtin, 2016). Quando discursa, o sujeito alinha-se, aproxima-se a discursos, da mesma forma, afasta-se de outros, jamais rompendo o elo na cadeia dos discursos que lhe s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia e desse como condi\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia de outros que surgir\u00e3o. Tudo isso \u00e9 pr\u00f3prio do acontecimento da linguagem. \u00c9 por meio dessa que nos fazemos percebidos, que nos fazemos ouvidos, lidos, constitu\u00eddos.<br><br>Somos seres de linguagem por ess\u00eancia. Sem d\u00favida, temos um nascimento fisiol\u00f3gico que nos individualiza, mas o nascimento \u00e0 sociedade se d\u00e1 quando adentramos o mundo da linguagem: recebemos um nome e um texto que atesta nossa exist\u00eancia. Logo, desde o nascimento, estamos ligados \u00e0 linguagem. \u00c9 assim que nosso contato com o externo, e mesmo com o outro, sempre se d\u00e1 mediado pela linguagem materializada sob a forma de textos. Quando produzimos linguagem real, produzimos textos, somos autores de textos, e com isso voltamos ao nosso tema. N\u00e3o temos um consenso do que \u00e9 autoria nas teorias da linguagem, portanto lidamos com conceitos de autoria. Nossa perspectiva, no entanto, est\u00e1 alinhada \u00e0 explica\u00e7\u00e3o dos conceitos no movimento real do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><mark style=\"background-color:#fcb900\" class=\"has-inline-color\">Leia tamb\u00e9m:<br>>> <a href=\"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/tendencias\/ia-na-educacao-potencializando-o-ensino-sem-perder-o-olhar-humano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">IA na Educa\u00e7\u00e3o: potencializando o ensino sem perder o olhar humano<\/a><br>>> <a href=\"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/gestao\/como-a-ia-otimiza-tarefas-operacionais-e-apoia-o-trabalho-docente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Como a IA otimiza tarefas operacionais e apoia o trabalho docente<\/a><br>>> <a href=\"https:\/\/sinepe-rs.org.br\/educacaoempauta\/gestao\/a-maior-tecnologia-ainda-e-o-professor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A maior tecnologia ainda \u00e9 o professor<\/a><\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Autoria em perspectiva hist\u00f3rica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A ideia de autoria, em momentos pregressos ao advento das IAs, perpassou um percurso sinuoso, com o conceito sendo mobilizado de formas distintas. No contexto da Gr\u00e9cia antiga, obras consagradas da literatura universal atribu\u00eddas a Homero, a <em>Il\u00edada <\/em>e <em>Odisseia<\/em>, possuem discuss\u00e3o sobre a exist\u00eancia de um autor uno. A possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o de obras tal qual se constituem demandaria a cria\u00e7\u00e3o de material liter\u00e1rio, esfor\u00e7os que poderiam n\u00e3o ser poss\u00edveis a apenas uma pessoa. No entanto, mesmo em tempos atuais, ainda que saibamos da possibilidade de o trabalho da obra ser proveniente de v\u00e1rias m\u00e3os, ainda assim reconhecemos a obra ser de Homero.<br><br>Em tempos posteriores, em Roma antiga, por exemplo, a imita\u00e7\u00e3o (<em>imitatio<\/em>) de obras consagradas na cultura encontrava aprova\u00e7\u00e3o e prossecu\u00e7\u00e3o nos diversos ambientes em que a literatura se fazia presente. Os grandes autores de Roma foram n\u00e3o s\u00f3 influenciados, como tamb\u00e9m possu\u00edam parte de tamanha rever\u00eancia que encontraram por fazerem interpreta\u00e7\u00f5es e imita\u00e7\u00f5es de obras gregas de grande prest\u00edgio \u00e0 \u00e9poca (Citroni <em>et al<\/em>., 2006). N\u00e3o h\u00e1 hoje, entre os afeitos \u00e0 literatura cl\u00e1ssica, quem n\u00e3o reconhe\u00e7a a grandeza de Verg\u00edlio, de Catulo, de Fedro, ou mesmo de Ov\u00eddio, cuja import\u00e2ncia reverbera at\u00e9 nossos tempos, influenciando o surgimento de tantas outras obras.<br><br>A forma como os romanos compreendiam a propriedade intelectual, embora tenham encontrado em Marcial certo tratamento que poderia antecipar o que entendemos hoje como aquilo que pertence ao autor, e que por isso deve ser resguardada de alguma forma, ainda tratava de forma abstrata os limites dessa atribui\u00e7\u00e3o. Ao analisarmos os aspectos sociais envolvidos no cen\u00e1rio exposto, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">\u00e9 poss\u00edvel dizer que parte do valor que se dava ao autor da obra era, sim, o de prest\u00edgio pelo feito da autoria daquele de quem advinha o texto, mesmo considerando as fortes influ\u00eancias e eventualmente a clara imita\u00e7\u00e3o que qualquer obra poderia fazer a outras.&nbsp;<\/mark><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A complexidade da autoria<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Logo, reivindicar propriedade intelectual faz sentido por conta da din\u00e2mica social de produ\u00e7\u00e3o do ato de enunciar a perten\u00e7a de tal propriedade. Al\u00e9m desse valor, havia tamb\u00e9m quest\u00f5es financeiras sob as quais se envolvia a produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era raro acontecer de textos serem escritos sob a encomenda de terceiros para diversas finalidades, como os poemas laudativos, os quais tinham como prop\u00f3sito a exalta\u00e7\u00e3o da figura de uma pessoa que morresse e tivesse familiares com recursos financeiros para que lhe fosse prestado momento digno de mem\u00f3ria por meio de versos po\u00e9ticos. Esse contexto peculiar de elabora\u00e7\u00e3o dos textos \u00e9 o que torna igualmente particular os limites do entendimento do que era pertencente a um autor e n\u00e3o a todos os demais, ou a quem quer que desejasse reivindicar autoria de material elaborado por outrem.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos Tempos Cl\u00e1ssicos \u00e0 contemporaneidade, seguimos discutindo a complexidade da autoria, que recai sobre a concretude textual, o produto acabado. Por\u00e9m, diferente do ambiente em que se originou a discuss\u00e3o acerca da identidade autoral, <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">num tempo em que quase tudo \u00e9 obtido em segundos via internet, despertar o prazer pelo processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio.<\/mark>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Concretamente, um estudante pode gerar uma reda\u00e7\u00e3o em menos de 30 segundos por um comando dado \u00e0 IA. Sem instru\u00e7\u00e3o expl\u00edcita pr\u00e9via, pode, quando muito, dar uma passada de olhos no texto antes de entregar ao professor; ou, confiando na tecnologia, envia diretamente, certo de que seus comandos foram obedecidos pela m\u00e1quina. Por\u00e9m, a partir do que expusemos acima, a quem pertence a autoria do texto? Ou, que texto foi esse, criado pela IA?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desafios do ensino atual<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e a responsividade s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o do discurso. Quando produzimos enunciados, produzimos rela\u00e7\u00f5es, criamos elo na cadeia dos discursos. O uso irrestrito das ferramentas de IA generativa no plano do enunciado encerra qualquer possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de saber que o exerc\u00edcio poderia causar. Isso visto que \u00e0 IA fica encarregada a miss\u00e3o de reunir os textos cuja autoria \u00e9 de outros e agrup\u00e1-los de modo que o solicitante, escritor do <em>prompt<\/em>, n\u00e3o consiga sequer perceber os limites que circunscrevem o que um ou outro diz. O processo resultante da cria\u00e7\u00e3o de novos sentidos pela tarefa de agrupar conhecimentos \u00e9 esvaziado.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionamos se o estudante se implica no texto criado por IA, j\u00e1 que n\u00e3o fez parte do processo (ou muito pouco, sendo apenas o que define o <em>prompt<\/em>). <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">A cria\u00e7\u00e3o textual, principalmente a escrita, envolve uma s\u00e9rie de atitudes concernentes ao pr\u00f3prio ato, como a orienta\u00e7\u00e3o ao interlocutor, a escolha lexical adequada, o tom da escrita, a refer\u00eancia a outros textos.&nbsp;<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favidas, a IA pode dar conta de tudo isso com um <em>prompt<\/em> bem feito, mas ainda assim o texto ao solicitante carecer\u00e1 n\u00e3o somente de autoria, mas tamb\u00e9m ser\u00e1 esvaziado. Sem o exerc\u00edcio dial\u00f3gico de sua parte, condi\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do saber, n\u00e3o h\u00e1 igualmente constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. A m\u00e1quina produz, mas faltou o elemento humano que ressignifica. O texto criado artificialmente \u00e9 um artefato lingu\u00edstico, sem d\u00favidas, em termos de regras gramaticais, ret\u00f3ricas, de g\u00eanero discursivo, de finalidade. \u00c9 uma estrutura significante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de um sujeito que mobilize os discursos de modo a criar um enunciado com sentido que lhe seja pr\u00f3prio \u00e9 o que torna o autor ausente (embora, pela heterogeneidade do discurso, tantos outros indetect\u00e1veis ali habitem). Como diz-nos Roland Barthes, \u201c[&#8230;] joga-se com um objeto excepcional, cujo paradoxo foi bem sublinhado pela lingu\u00edstica: imutavelmente estruturado e, no entanto, infinitamente renov\u00e1vel: algo como o jogo de xadrez.\u201d (Barthes, 1987, p. 85), no qual os jogadores usam as mesmas pe\u00e7as, no mesmo tabuleiro, mas em praticamente infinitas combina\u00e7\u00f5es. Ora, a IA tamb\u00e9m \u201cjoga\u201d o xadrez. Mas onde est\u00e1 a marca singular do jogador, seu estilo? No texto escrito, o humano \u00e9 insepar\u00e1vel de uma viv\u00eancia social, pois escreve a partir de leituras pr\u00e9vias, a partir do que experienciou enquanto sujeito. Sua escrita ser\u00e1 uma resposta a tudo isso. Mesmo a IA necessita das rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e da responsividade dos sujeitos para compor o enunciado que prov\u00e9m de sua base de dados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">O escritor \u00e9 aquele que d\u00e1 acabamento est\u00e9tico \u00e0 sua experi\u00eancia concretizada em um texto \u00fanico, singular, que somente aquele autor poderia escrever, pois \u00e9 resultado de viv\u00eancias axiol\u00f3gicas tamb\u00e9m \u00fanicas e singulares.<\/mark> Este texto, portanto, tem um respaldo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A ordem executada do <em>prompt<\/em> evidencia processo de despersonaliza\u00e7\u00e3o, pois o sujeito se torna ausente, e os demais sujeitos, reais autores dos textos amalgamados provenientes da base de dados, tornam-se indetect\u00e1veis. O processo da escrita n\u00e3o \u00e9 linear. O autor, em busca de aperfei\u00e7oamento, exclui passagens, troca uma palavra, altera a ordem de par\u00e1grafos, adiciona trechos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O processo da escrita&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A arte de escrever e reescrever acaba por formar um corpo de texto marcado pela m\u00e3o do seu autor. S\u00e3o a\u00e7\u00f5es que, embora inexistentes no texto final, acabam evidenciando a autoria do texto, aquela voz que decide. Esse processo \u00e9 apagado na ordem dada \u00e0 IA, visto que essa, dada a aus\u00eancia de personalidade, ou melhor, a terceiriza\u00e7\u00e3o de responsabilidade, exime-se do <em>n\u00e3o-\u00e1libi<\/em> (diz-se \u201c\u00e9 s\u00f3 a m\u00e1quina\u201d, \u201c\u00e9 a IA\u201d), ignorando o fato de que ela mesma tamb\u00e9m possui somente como dados ativos e gerativos aqueles que s\u00e3o permitidos por humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A IA \u00e9 uma realidade inquestion\u00e1vel e incontorn\u00e1vel. O perigo (se \u00e9 que, para al\u00e9m dos apresentados, ele existe) est\u00e1 em o ser humano passar a ela a responsabilidade criativa, ou mesmo \u00e9tica. Ao deixar de contemplar o salutar exerc\u00edcio da escrita, que por si s\u00f3 demanda uma leitura de mundo, a apreens\u00e3o dos discursos precedentes, das rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e responsabilidade condicionais ao enunciado, o sujeito deixa de acessar um c\u00f3digo de comunica\u00e7\u00e3o fundamental \u00e0 sua constitui\u00e7\u00e3o enquanto sujeito de linguagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia desse conhecimento de escrita dificulta possibilidades de ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que deveriam ser ocupados pelo estudante. <mark style=\"background-color:#ff6900\" class=\"has-inline-color\">\u00c9 necess\u00e1rio avaliar quais s\u00e3o os efeitos do uso impensado da IA e demais ferramentas que possam surgir, para que possam ser aproveitados como recursos aliados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/mark><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Profissionais das Ci\u00eancias da Linguagem analisam sobre como a tecnologia generativa redefine os conceitos de responsabilidade, escrita e cria\u00e7\u00e3o nas salas de aula<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":8911,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[907,962,43],"class_list":["post-8908","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-tendencias","tag-ia-no-ensino","tag-inteligencia-artificial-no-ensino","tag-sinepe-rs-2"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Desafios das IAs no ensino: da autoria \u00e0 produ\u00e7\u00e3o textual - Educa\u00e7\u00e3o em Pauta: Portal de reportagens de Educa\u00e7\u00e3o<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Profissionais das Ci\u00eancias da Linguagem analisam sobre como a tecnologia generativa redefine os conceitos de responsabilidade, escrita e cria\u00e7\u00e3o nas 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