“É preciso estar atento e forte”
Precisamos refletir profundamente sobre o que realmente importa na formação das nossas crianças
Valesca Karsten
Educadora, colunista da Revista Pais & Filhos, curadora de arte para a infância e idealizadora do podcast PodeMãe
Trecho da música Divino Maravilhoso, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, eternizada na voz de Gal Costa. Ainda estamos no início do ano, por isso, começo com uma história. No primeiro dia de aula, um pai de uma aluna me abraçou após as férias. Disse que sentiu falta da escola e que estavam contando os dias para o retorno. Em seguida, me perguntou como eu achava que seria o clima deste ano.
Uma pergunta difícil — respondi — e devolvi com outra: “A que clima te referes?” Fiquei mais tranquila quando ele esclareceu: “Esse ano estamos com o El Niño ou a La Niña?”
Respondi que não sabia ao certo, mas que havia lido que seria um ano mais seco. Ele sorriu, aliviado: “Ainda bem, ano passado choveu por anos por aqui, né?”
(Em 2024, tivemos a enchente que assolou nosso Estado e nossa cidade.)
Seguimos caminhando, e ele me perguntou: “Vavá, como tu pensas o futuro climático para as crianças?” Sou uma pessoa otimista. Tenho esperança. Aliás, preciso ter esperança — trabalho com crianças todos os dias.
O meu estado de espírito, o meu olhar, as inspira e impacta diretamente nelas. Como uma criança poderá se desenvolver e ter vontade de estar neste mundo se os adultos ao seu redor perderam a esperança?
Ailton Krenak, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, nos lembra que, neste mundo acelerado em que vivemos, existe uma espécie de pregação do apocalipse, que funciona como uma maneira de nos fazer desistir dos nossos próprios sonhos. E ele afirma:
“A minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.”
Ainda mais nós — profissionais das infâncias — sabemos o papel fundamental que o olhar dos adultos tem nos primeiros dias, meses e anos da vida de uma criança. Muitas vezes, é na escola que se revela a ausência desse olhar. E, também muitas vezes, é em escolas sensíveis, com professores que carregam um bom repertório afetivo, que as crianças pouco olhadas buscam reparação.
Dia desses, li numa publicação algo que me fez lembrar de nós, educadores: “Você nunca saberá quantas vidas transformou, mas elas saberão.”
Recentemente, assisti à série Adolescência, da Netflix. Algumas famílias vieram conversar comigo, assustadas, com medo do que pode vir para os filhos que, em breve, deixarão a infância. Sim, precisamos estar atentos, vigilantes.
Mas, mais do que isso, precisamos refletir profundamente sobre o que realmente importa na formação das nossas crianças. Acredito que o essencial está no miudinho do dia a dia — no ordinário, nas pequenas coisas.
São essas pequenas experiências que, no fim da vida, permanecem conosco como memórias afetivas. Também acredito que o futuro das crianças passa pelo que fazemos com elas hoje: em casa, na escola, na vida. E nós, que ocupamos um papel tão essencial na vida das crianças durante esse tempo irrecuperável — a infância — temos a responsabilidade de enriquecer as subjetividades desses sujeitos, e também as nossas, para transmitir-lhes esperança e o gosto pela vida.
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