A música e a formação integral na Educação Básica
Professor e regente da Orquestra Rosariense, Estevão Grezeli comenta a presença da educação musical no ensino privado da capital gaúcha

Estevão Grezeli é mestre em Educação pela UERGS, especialista em Gestão Escolar pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) e graduado em Licenciatura em Música pelo Instituto Porto Alegre (IPA). É professor de música do Colégio Marista Rosário, onde também é regente da Orquestra Rosariense, projeto desenvolvido desde 2013 com enfoque socioeducacional
O conceito de educação básica pressupõe uma formação mínima e essencial que o estudante deve adquirir ao longo de sua jornada escolar. Mas o que, exatamente, configura esse “básico” nas dimensões científicas, esportivas e culturais?
Desde os primórdios da humanidade, a produção artística, comprovada pela arte rupestre e por artefatos arqueológicos, demonstra que a expressão e a sensibilidade cultural são intrínsecas ao desenvolvimento neural humano. No cenário educacional atual, focado nas competências do século 21, a educação musical no contexto escolar é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento cognitivo, socioafetivo, emocional e cultural do sujeito. Dessa forma, o papel das instituições de educação básica vai muito além da simples preparação para exames. A escola é responsável pela formação integral dos estudantes.
Desde 2016, a legislação brasileira regulamenta a inserção da música no contexto escolar (Resolução CNE/CEB nº 2/2016), da Educação Infantil ao Ensino Médio, um grande avanço após um longo período de ausência na legislação (de 1972 a 2008). Muitos acadêmicos têm conduzido pesquisas para mapear a presença do ensino de música nas escolas de educação básica. Porém, o foco tem sido a rede pública municipal e estadual.
Ao constatar essa lacuna, percebi a possibilidade de fazer uma investigação inédita no país, sobre o ensino de música nas escolas particulares – especificamente na cidade de Porto Alegre (RS).
Da minha dissertação de mestrado nasceu o livro “A música nas escolas da rede particular de ensino de Porto Alegre/RS”, escrito em parceria com minha orientadora, Cristina Rolim Wolffenbuttel. A versão on-line da publicação está disponível no site da Editora Atena, de forma gratuita. Na pesquisa, foram coletados dados como formação dos profissionais que lecionam, faixa etária dos alunos em relação ao contato com a disciplina e infraestrutura oferecida pelas instituições para o aprendizado.
Os resultados revelaram que 84% das escolas privadas de Porto Alegre já incluem a música em sua grade curricular. Nestas instituições, a música como componente curricular está presente em 100% das instituições que ofertam educação infantil. Entretanto, esse número diminui drasticamente ao longo das etapas, chegando a apenas 18,5% no Ensino Médio.
Ao não ofertar o componente curricular música nesta etapa de formação dos adolescentes, as instituições perdem um campo rico de possibilidades, como, por exemplo, a compreensão das formações históricas e sociais a partir das vozes artísticas de cada época, além da possibilidade de vincular a música a outras áreas do conhecimento, ampliando os significados das aprendizagens de formação cultural.
Além de discutir currículo, formação docente e atividades extracurriculares, o livro apresenta produtos educacionais valiosos, como um website de legislação, colóquios e um curso de formação continuada. Entender como a música está inserida nas escolas privadas é fundamental para identificar modelos de sucesso e realizar novos apontamentos. Os gestores escolares e os profissionais de educação musical devem dialogar para, juntos, criarem matrizes curriculares propositivas e significativas as suas realidades, fortalecendo o componente curricular e democratizando o acesso à educação musical de qualidade aos estudantes.
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