Projeto reconhecido pelo Prêmio Inovação atrai interesse do mercado

Desafiados, estudantes da Escola Técnica Cristo Redentor criaram uma solução para tratar efluentes

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Marne Andriotti

O ditado popular diz que a necessidade é a mãe das grandes invenções. Às vezes, não precisa tanto: o fato de ser provocado a uma mudança pode levar a soluções inovadoras. Foi assim que surgiu o projeto “Transformação de Resíduos Pesqueiros em Soluções Sustentáveis”, da Escola Técnica Cristo Redentor, de Porto Alegre. O trabalho levou o ouro na categoria Responsabilidade Social e a prata na de Estudante Protagonista. Além disso, já desperta interesse do mercado.

Em um momento de mudanças provocadas pela reformulação do catálogo nacional de cursos técnicos, a instituição precisava encontrar uma forma de adequar o trabalho de conclusão de curso.

A coordenadora pedagógica da escola, Jéssica Antunes, conta que o projeto premiado foi resultado de um trabalho desenvolvido no componente curricular de Processos Industriais, do curso técnico em Química. “Nele, é preciso compreender um produto em toda a sua extensão: origem, matéria-prima, público-alvo, mercado etc”, explica.

O grupo contou com o auxílio da professora Letícia Zanchet, responsável pela disciplina e com bastante experiência na área de pesquisa. O que antes ficava restrito a replicar produtos e processos existentes no mercado, ganhou novo contorno ao levar para o laboratório a ideia de desenvolvimento, desde a estaca zero.

Equipe recebeu prêmio pela escola | Crédito: Marne Andriotti

O projeto

O desafio proposto era criar processos químicos sustentáveis baseados na reutilização de resíduos. O foco consistia em encontrar soluções concretas para problemas ambientais locais. Durante a pesquisa, as estudantes Ingrid Gomes e Gabriele Rodrigues, que estavam prestes a concluir o curso de um ano e meio, identificaram o potencial da quitosana – um biopolímero obtido a partir da quitina presente em resíduos pesqueiros – como material adsorvente no tratamento de efluentes. Ou seja: ela é capaz de atrair e reter partículas.

Em busca de matéria-prima, elas entraram em contato com uma sociedade feminina pesqueira de Tramandaí, no litoral norte gaúcho, que doou carapaças de crustáceos para o projeto. A extração da quitosana ficou a cargo de uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que também doou para as meninas o material já processado para uso científico.

Com o conhecimento adquirido em sala de aula, as estudantes criaram membranas adsorventes de quitosana. Adsorvente é um material sólido que atrai e retém moléculas ou íons em sua superfície, por meio de um processo chamado adsorção. É diferente da absorção, que ocorre em maior volume.

Era chegada a hora de fazer testes, realizados no laboratório da própria escola. Corantes sintéticos foram utilizados para simular o tratamento de efluentes industriais e os resultados foram muito interessantes. Em menos de 30 minutos, o que se viu foi a completa descoloração das amostras. Pronto: o sistema era comprovadamente eficaz.

A validação quantitativa dos resultados ficará a cargo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que o fará utilizando o método conhecido como espectrofotometria. Isso vai permitir uma medição precisa da capacidade de adsorção.

Além disso, uma segunda etapa foi desenvolvida no componente curricular de Empreendedorismo, agregando uma faceta multidisciplinar à iniciativa. As estudantes pesquisaram sobre possíveis aplicações industriais, identificaram potenciais clientes no setor de tratamento de efluentes e estimaram os custos iniciais de formulação das membranas em escala reduzida.

Leia também:
>> Escola capacita professores para lidar com temas controversos em aula
>> Escola Santa Mônica une tendências digitais e ações presenciais
>
> Estudantes desenvolvem soluções sustentáveis em incubadora escolar

Futuro

Jéssica destaca que esse tipo de iniciativa ajuda a colocar em evidência não apenas a qualidade, mas também a importância do ensino técnico para a carreira e para a sociedade. “A ideia da escola é mostrar esse produto para o mundo, para que as pessoas vejam o potencial do curso técnico. O mercado busca os técnicos, temos hospitais e muitas empresas que nos procuram, fazemos parcerias, levamos estagiários que são efetivados. Nada melhor do que esse espaço que o Sinepe/RS abre para isso”, observa.

Além da pujança do ensino técnico, o projeto mostra aos estudantes que outros caminhos são possíveis a partir da formação. Tanto que chamou atenção da iniciativa privada. A empresa Attend Ambiental, que trabalha com tratamento de efluentes, reconheceu a relevância do projeto, oferecendo uma carta oficial de apoio. 

O documento reconhece a relevância da proposta e manifesta interesse em acompanhar seus desdobramentos. “Comprometemo-nos a fornecer efluentes reais necessários para os testes experimentais do projeto, de forma a possibilitar a validação prática e científica das membranas de quitosana desenvolvidas”, diz a carta.

Na noite que coroou os vencedores do Prêmio Inovação SINEPE/RS 2026, uma outra empresa conversou com as estudantes e já marcou uma reunião. “Nossa ideia nunca foi que elas criassem um projeto da escola. Ele é delas, queremos que desenvolvam os produtos, criem patentes, precifiquem. Acompanhamos se vai para o mercado, se vão aprofundar a pesquisa ou transferir a tecnologia”, explica Jéssica.

Participar do Prêmio Inovação já é um ganho para os concorrentes. A escola já recebeu um dos feedbacks e, a partir do documento, consegue ter uma noção mais precisa do que é levado em consideração pelos jurados. Tudo para continuar competindo no mais alto nível.

Ganhar este prêmio, para toda a nossa base de professores, também abre um leque de possibilidades que antes não era visto. Os professores veem prêmios de inovação, pesquisa, ciência e querem participar. Já surgiram ideias de outros projetos, em outros cursos”, antecipa a coordenadora. 

Seja qual for o destino do projeto, o fato é que uma semente foi plantada. Agora, a régua está ficando mais alta e a Escola Técnica Cristo Redentor vai seguir dedicando-se para que novas iniciativas conquistem o mercado. 

TAGS





Assine nossa newsletter

E fique por dentro das novidades