Contato com outras culturas forma o cidadão e o profissional do futuro
Currículo Bilíngue Integrado e ferramentas de intercâmbio estão entre as possibilidades para integrar saberes plurais
A multiculturalidade do mundo requer um olhar atento para os vizinhos – e também um pouco mais longe. Na formação humana e profissional, ter contato com outras culturas e idiomas faz muita diferença, por isso muitos colégios oferecem ensino de idiomas estrangeiros e programas de intercâmbio.
“Não somos mais um profissional da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país. Somos um profissional global e as empresas estão com essa visão de um mercado global, onde elas têm que interagir”, observa a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento. No contexto corporativo, ela explica que os mercados mais lógicos para o Brasil são os Estados Unidos e a América Latina. Por isso, inglês e espanhol estão entre os idiomas mais requisitados.
O mandarim, que até pouco tempo era apontado como tendência, teve queda na demanda. Não que o mercado chinês tenha perdido protagonismo. Pelo contrário, ele segue em evidência. Mas o fato de os chineses fecharem negócios em inglês mantém indispensável o idioma praticado nos Estados Unidos, especialmente nas empresas de tecnologia.
Dados do mercado ajudam a entender o cenário. Segundo o Guia Salarial 2025 do Mercado de Trabalho Brasileiro, da empresa de consultoria Robert Half, a fluência em inglês é uma das quatro competências mais buscadas pelas empresas. Um ano antes, a Pesquisa de Tendências RH 2024, da plataforma Catho, especializada na oferta de vagas de emprego, já apontava o idioma entre as cinco habilidades mais desejadas pelas companhias.
O Colégio Anchieta, de Porto Alegre, optou pelo Currículo Bilíngue Integrado (CBI) para oferecer, de forma estruturada, o ensino de um idioma estrangeiro aos estudantes. A instituição considera que, quando se fala de educação bilíngue, não se está falando apenas “da língua pela língua”.
Segundo a orientadora pedagógica e representante da área de línguas adicionais do Anchieta, Adriane Caldas, é muito mais do que isso. “Falamos de crianças e adolescentes preparados para a relação com o outro, exercendo a empatia. Buscamos muito a cidadania global e a interculturalidade”, explica. Os processos de internacionalização são importantes nesse trabalho, mas ela ressalta que tudo começa pela relação com quem está ao lado – em qualquer idioma.
Na prática, o CBI se dá pela integração de uma língua adicional em diferentes componentes curriculares, imbricada nas práticas pedagógicas. Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, a dinâmica acontece em dois momentos: nas aulas de inglês e em algumas das demais, quando professores especializados em codocência são acompanhados por um professor de inglês durante as atividades.
No Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, o Anchieta aplica a metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL), que incorpora habilidades linguísticas e elementos que refletem a sociedade. “Trabalhamos a interculturalidade e a cidadania global. Na terceira série, por exemplo, em 2025 foi abordada a questão do etarismo”, conta a coordenadora.
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Os conteúdos são apresentados de diversas formas, como palestras, filmes e dinâmicas que envolvem as famílias. No caso do preconceito etário, a produção Um Senhor Estagiário (Warner Bros., 2015) foi usada como exemplo da capacidade de trabalho das pessoas com idade considerada avançada. Além disso, os estudantes foram estimulados a conversar com os próprios avós sobre o assunto.
No Colégio Franciscano Sant’Anna, de Santa Maria, o CBI é trabalhado com o suporte do Systemic Bilingual. A plataforma, de uma empresa de Alagoas, foi apresentada à direção da instituição ainda em 2019. A equipe esteve em Maceió para conhecer a escola onde todas as metodologias são testadas e aprimoradas, depois optou por fechar o negócio.
O passo seguinte foi receber assessores da plataforma para apresentar as soluções a professores, funcionários, técnicos administrativos, coordenadores e até mesmo às famílias dos estudantes. “Toda a comunidade escolar se envolveu no conhecimento da proposta. Fizemos desse programa um diferencial nosso”, lembra a coordenadora da Educação Bilíngue na instituição, Irmã Célia de Fátima Rosa da Veiga. “Nem sonhávamos com a pandemia”, completa, em tom de alívio, como quem lembra, em uma fração de segundo, tudo que aquele período representou.
Mas o período de preparação surtiu efeito. Depois das aulas presenciais em fevereiro e março, as atividades do Systemic Bilingual tiveram continuidade de forma remota. Diariamente, por uma hora, estudantes do berçário ao terceiro ano tinham contato com o inglês. A abrangência avançou a cada ano e, em 2026, a escola inicia seu nono ano com a metodologia.
A ideia é que os estudantes vivenciem o idioma junto com os conteúdos trabalhados à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e dos projetos propostos na língua materna. “O interessante da integração é que temos jornadas pedagógicas e, dentro delas, as aulas de ciências, geografia, matemática, artes, educação física… Quando os professores regentes estão trabalhando sobre solo, por exemplo, a gente traz para integrar com a língua inglesa, de forma que seja uma coisa só”, explica Irmã Célia.
Desta forma, a língua é um meio de instrução – para além do estudo da gramática do idioma, que já tem seu momento reservado na carga horária do Ensino Médio. Dentro da metodologia escolhida pela instituição, o estudo da sintaxe também está presente, mas de forma diferenciada. Irmã Célia diz que ninguém fica decorando lista de verbos, tipos de frases. Do quinto ano em diante a gramática se faz mais presente, mas de uma forma em que se estuda e vai se dando conta do que está usando na fala. É como no Português, em que se aprende a falar o idioma para só depois, anos mais tarde, compreender que existe uma teoria para cada estrutura.
Por falar nisso, com os pequenos, o trabalho inclui muita fala e atividades no pátio, a partir de vivências cotidianas, como cozinhar. “O programa tem metodologia própria, que implica perguntar aos estudantes, fazê-los falar. Por isso precisa escutar todo dia em inglês. Eles já falam em inglês com a gente no corredor, desenvolvem naturalmente, começam a falar no carro com os pais também”, comenta a coordenadora.

Temas pertinentes ao dia a dia e ao futuro da sociedade servem como importante pano de fundo para o aprendizado de outras línguas, mas também para despertar a consciência cidadã. A forma de potencializar tudo isso é colocar os alunos em contato direto com outras culturas – e o intercâmbio é capaz de fazer isso.
O Colégio Anchieta trabalha com a ideia de “cidadãos globais”. Segundo o professor e orientador Silvio Júnior, responsável pelo programa de intercâmbio da instituição, tratam-se de pessoas que têm uma mente aberta para a diversidade, que entendem a multiculturalidade do mundo como algo valioso, que deve ser defendido e valorizado.
Foi com base nessa premissa que surgiu o programa de internacionalização do colégio. Em 2017, a primeira experiência levou três estudantes ao Chile. No ano seguinte, foram cinco. Em 2019, nove alunos, divididos em dois grupos, estiveram no Chile e no México. Com a pandemia, a atividade foi suspensa temporariamente. Retomada em 2022, a iniciativa já contemplou 95 anchietanos.
Para retribuir o acolhimento, o Anchieta recebe jovens dos países visitados por seus estudantes, em períodos que variam de 15 a 90 dias. Ao todo, 87 estrangeiros já frequentaram as salas de aula do colégio de Porto Alegre. Na estadia, os visitantes conhecem lugares históricos e turísticos, museus e outras atrações culturais. A grande diferença, destaca Silvio, consiste no convívio familiar nas casas que acolhem os grupos de fora. É claro que, do solo gaúcho, ninguém vai embora sem provar um saboroso churrasco.
“Por todo o momento social que a gente vive, as famílias querem fazer o melhor pelos seus filhos, mas eu vejo que os jovens às vezes vivem em um mundo muito protegido e essa saída é importantíssima por fazê-los desenvolver autonomia, enfrentar conflitos da vida cotidiana, questões inerentes a estarem inseridos em um lugar diferente, em uma cultura diversa, outra língua”, comenta Silvio.
Para o orientador, o mundo precisa de pessoas com pensamento crítico e capacidade para resolução de problemas complexos, que olhem para a diversidade cultural e entendam a riqueza da humanidade.
Antes de embarcarem, os alunos do Anchieta preparam uma ou duas aulas em que apresentam o Brasil e a nossa cultura local. O mesmo é feito pelos intercambistas chilenos, colombianos, mexicanos e espanhóis quando chegam aqui. É uma fala de estudante para estudante.
Outra atividade que ganhou corpo em 2025 e deve ser ampliada é a troca de cartas entre estudantes da rede jesuíta. Alunos do colégio de Porto Alegre escreveram relatos baseados na leitura da obra O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (conhecida popularmente apenas pelo nome de seu protagonista) e enviaram a estudantes da Espanha, que responderam sob a mesma inspiração.
Além da vivência ser um grande diferencial na formação desses futuros profissionais, o pleno domínio de um segundo idioma (ou mais) eleva o nível de competitividade no mercado de trabalho. Leyla Nascimento observa que ter essa competência leva à disputa por vagas mais qualificadas e, consequentemente, com maiores salários.
A carreira que mais dialoga com essa realidade é a de Tecnologia da Informação, por ser toda formatada com base no inglês. “As principais empresas nessa área são americanas”, lembra a presidente da ABRH. Outra área com bastante absorção é a de finanças, com cada vez mais interação para contratos e negociações fora do Brasil. Por causa do Mercosul, o espanhol também aparece com força.
Por fim, a área de marketing e comercial é outra que exige, cada vez mais, um idioma estrangeiro. Esse pode ser um fator preponderante na hora de abrir um novo mercado. Além, obviamente, de carreiras como a de Relações Exteriores. O fato é que olhar apenas para a aldeia já não basta e as instituições da rede de ensino privado do Rio Grande do Sul estão atentas a esse fenômeno.
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