“O erro, quando bem acolhido, vira aprendizado”, defende educador
Em entrevista, Eduardo Zugaib destaca a importância do protagonismo e da humanidade nos ambientes educacionais
“Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude a sua atitude”. A frase da escritora e poeta Maya Angelou, conhecida por histórias que refletem as lutas das mulheres negras norte-americanas, ajuda a entender o pensamento de Eduardo Zugaib, educador, professor e escritor. Para ele, só o protagonismo humano pode transformar vidas e carreiras, seja no ambiente corporativo seja no educacional.
Antes de se tornar um palestrante de renome e autor best-seller, Zugaib construiu uma carreira sólida como redator publicitário. A atuação no mercado da comunicação capacitou o professor para traduzir conceitos complexos em uma linguagem acessível. Com obras como Filosofia Bruta e A Revolução do Pouquinho, ele colabora com gestores, educadores, empreendedores e famílias na construção de uma vida com mais propósito. Nesta entrevista exclusiva para o Educação em Pauta, Zugaib compartilha reflexões para profissionais que buscam manter a eficiência e a humanidade em tempos de transformações aceleradas.
Em suas palestras, você costuma dizer que a atitude é um fator decisivo para o sucesso de um empreendimento. Existe uma fórmula ou uma mentalidade para transformar escolhas cotidianas em alta performance?
A fórmula não é secreta, muito menos nova, mas é pouco valorizada: o poder da repetição consciente. Aristóteles já colocava isso com outras palavras ajustadas à sua época. Pequenas atitudes feitas com intenção e constância geram grandes transformações, resultados mais sustentáveis e isso vale para um projeto, para uma escola, para a vida. A tal da “alta performance” não aparece de repente, ela é construída. E o ponto de partida está no que a gente escolhe fazer, mesmo quando ninguém está olhando. Aquele “pouquinho” de hoje, que parece não ter valor quando observado isolado, é o que constrói o trampolim seguro para saltos mais robustos conforme avançamos no tempo.
Como ensinar as pessoas a lidarem com o medo de errar ao fazerem escolhas? De que forma o erro se integra à jornada do sucesso?
É preciso tratar o erro como elemento criativo de qualquer processo. Errar não é o oposto de acertar e sim parte do caminho. Enquanto a gente continuar tratando o erro como uma falha definitiva, como “juízo final”, as pessoas vão continuar paralisadas e mediocrizando-se para adaptar-se ao ambiente hostil, ou simplesmente vão embora. O erro, quando bem acolhido, vira aprendizado. Quando punido com dureza, vira trauma. O que ajuda é criar um ambiente e uma cultura onde errar seja possível, sem vergonha, ainda mais quando o que está em jogo é a inovação. Especialmente na educação, precisamos ensinar que aprender envolve risco, tentativa, vulnerabilidade. O sucesso, na maioria das vezes, passa por muitos erros ajustados diariamente com clareza e com coragem.
Como criar, dentro de uma instituição de ensino, uma cultura de responsabilidade sem que ela seja confundida com pressão excessiva ou sobrecarga?
Responsabilidade não é peso, é clareza acima de tudo. Quando todos sabem por que fazem o que fazem, e como seu trabalho se conecta com o todo, o compromisso surge de dentro, não precisa ser imposto. O nome disso é pertencimento. O problema surge quando a responsabilidade vira cobrança sem propósito e se manifesta na forma de microgerenciamento. Em uma escola, quando o educador (e entendo como educador todos que trabalham nela) se sente parte de algo maior, com autonomia e reconhecimento, assume a responsabilidade de forma natural. A chave está na cultura: comunicar com clareza, valorizar as conquistas e construir juntos o senso de pertencimento. Isso é liderança com coração e coerência.
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As soft skills ganharam um peso enorme dentro de empresas e escolas. Como a sua filosofia de vida se conecta com a necessidade de lifelong learning e o desenvolvimento de habilidades comportamentais?
Elas se conectam diretamente. A Revolução do Pouquinho propõe justamente isso: desenvolver atitudes como parte da rotina, e não discuti-las apenas na semana de planejamento, convenção ou jornadas pedagógicas, sem clareza e pacto do que precisa ser feito. Não basta saber algo, é preciso praticar. Resiliência, empatia, foco, ética, adaptabilidade… Nada disso nasce pronto. É cultivado, aos pouquinhos, todos os dias. E quando deixados soltos, criam terreno muito subjetivo. O tal do “lifelong learning” é uma jornada e, a cada etapa, as atitudes é que nos sustentam. Conhecimento técnico muda, tecnologia muda. Mas as atitudes corretas tornam a gente capaz de aprender, desaprender e reaprender com mais leveza.
A Inteligência Artificial está cada vez mais presente nas corporações e nas escolas, com estudantes e professores utilizando plataformas para pesquisa e elaboração de materiais. Para você, o que permanece essencialmente humano e insubstituível na atitude de um educador e gestor de destaque?
O que permanece é a capacidade de criar conexão genuína. A IA pode organizar conteúdos, automatizar processos, até gerar boas respostas, mas ela não escuta com empatia, não percebe um olhar triste ou perdido, não é inspirada pelo exemplo. O que diferencia um educador ou gestor de verdade é a presença consciente, o acolhimento, a sensibilidade de olhar para o outro como único. Isso não se programa, se vive. E prova que o “algoritmo” humano será cada vez mais valorizado em meio a tantos prompts e respostas prontas. Os índices relacionados à saúde mental jogam isso na nossa cara a todo instante.
Vivemos um momento de transformações aceleradas, especialmente pela tecnologia. Se você tivesse que resumir a mensagem mais urgente para as empresas e instituições de ensino hoje, qual seria o ponto central para manter a eficiência em meio a tantas incertezas?
A mensagem é: cresça aos pouquinhos, todos os dias, mas sem perder o sentido do que te move. A velocidade das mudanças é real, mas não adianta correr de forma afobada e sem direção. O segredo está em manter a capacidade de aprender, errar, adaptar e agir com propósito. Isso vale para escolas, empresas, famílias. O desafio não é prever tudo, mas estar preparado para se ajustar com agilidade e coerência, sem perder de vista aquilo que é essencialmente humano. Quando usamos a tecnologia não como nossa substituta, mas como nossa potencializadora, o jogo começa a fazer mais sentido.
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