Desafio é trazer o aluno do virtual para o presencial, diz Professor Noslen
Com mais de 5 milhões de inscritos, educador faz sucesso no Youtube falando de Língua Portuguesa
Mais de 1,2 mil vídeos ensinam pessoas de todas as idades a entender a Língua de Camões. Conhecido como Professor Noslen por milhões de pessoas na internet, Noslen Borges destrincha as regras do Português com fluidez há mais de dez anos no Youtube – onde tem mais de 5 milhões de inscritos – e em outras redes sociais, como Instagram e Tiktok.
Longe das tradicionais salas de aula há quase cinco anos, Noslen hoje ensina pela mediação das telas, sejam de computadores ou celulares. Se por um lado esses dispositivos motivaram leis que restringem seu uso nas escolas, por outro, revolucionaram a educação, oferecendo alternativas pedagógicas. Em 10 anos de trabalho online, o professor e palestrante aprendeu que é preciso equilibrar-se entre os mundos virtual e presencial.
Ao portal Educação em Pauta, o Professor Noslen comenta como foi a transição para o ensino online e os desafios de educadores para ter a tecnologia como aliada e não como inimiga do processo de aprendizado. Confira a entrevista completa:
Como era a realidade da sala de aula quando você começou a gravar os conteúdos?
Em 2015, foi quando eu comecei, foi bem o boom dos smartphones, que começaram a ficar acessíveis. Veja só, em 2015, já se falava sobre celular em sala de aula. E as instituições não sabiam muito o que fazer. E eu pensei: “vou usar o celular como ferramenta de ensino”.
Sempre enxerguei na tecnologia uma ferramenta a mais de educação. Consegui usar o celular em sala de aula para fazer aula de Língua Portuguesa, usando vídeos da internet para fazer compreensão e interpretação de texto sem ouvir a música, só com as imagens dos clipes, por exemplo, ou usando dicionário online, entre várias outras coisas.
Fui percebendo que o aluno estava, cada vez mais, dentro do celular, dentro da internet. E decidi não só usar o celular em sala, mas levar a Língua Portuguesa para dentro do celular. O jeito mais fácil, naquela época, era criar um canal no YouTube.
Qual era a ideia inicial?
Na minha cabeça, o canal do YouTube seria como mais um colégio dentre tantos que eu trabalhava. A diferença só seria a minha didática, o meu jeito, fazer a educação de forma mais livre. Eu criei o canal e divulguei em sala de aula. Para minha surpresa, meu primeiro vídeo atingiu mais de 1,4 mil pessoas. Eu não tinha 1,4 mil alunos. Pensei: “Acho que eu cheguei em pessoas que eu não conheço”.
Não entendia direito o YouTube, só sabia que dava para fazer vídeo lá. Abri o canal no dia 18 de outubro de 2015, e dia 23, postei o primeiro vídeo. Me organizei para postar mais recorrentemente. Toda segunda-feira, às 16h, entrava um vídeo novo. Desde então, nunca mais soube o que é ficar sem postar um vídeo por semana.
Me comprometi com aquilo. Desde 2016 todas as semanas da minha vida, seja Natal, Ano Novo, férias, não importa, tem vídeo novo entrando no canal. Isso eu cumpri à risca desde aquela época. De 2016 pra 2017, o canal atingiu 100 mil inscritos. De 2017 pra 2018, eu já atingi 1 milhão. E de 2019 pra 2020, 3 milhões. Foi tudo muito rápido. Aí veio a pandemia, deu aquela queda geral, porque canal de educação é assim, as pessoas consomem quando precisam. Não gostam daquilo. A gente tem que tentar deixar atrativo. É o que eu faço o tempo todo.
Em 2020, tive que me reinventar, fazer um “educatenemento”, misturar entretenimento com educação, para resgatar um pouco do público na pandemia. Deu certo.
Hoje a gente já bateu mais de 5,5 milhões de inscritos. É o maior canal de ensino de Língua Portuguesa do mundo. É bizarro pensar nisso.
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E como é sua rotina?
Fui largando a escola e hoje eu trabalho 100% online. Se o meu estudante está na internet, eu preciso estar lá. Tenho também meu curso online no professornoslen.com.br, em que entrego aprofundamento da Língua Portuguesa, já que, no canal, eu trago conteúdos básicos.
Também tem o movimento presencial, que é de palestras e aulas pelo Brasil. Em 10 anos, fiz uma migração 100% do presencial para o online. Tenho o curso, as redes sociais, as palestras, tenho os alunos, sou conselheiro consultivo, um monte de coisa. Hoje eu sou um microempresário da educação.
Quando você ainda estava na sala de aula, o que percebeu de mudanças no comportamento dos jovens?
Toda a vez que chega uma tecnologia nova, existe um estranhamento e um encantamento. Vivenciei exatamente isso quando chegou o smartphone, aquela coisa toda de ter internet na palma da mão.
E a gente ainda está nessa lida de canalizar o uso da internet. Hoje tem IA, um monte de coisa acontecendo. Lá atrás, eu falei: “vamos aproveitar aqui esse gancho de acesso fácil para entregar acesso fácil também à educação”. E eu percebia o aluno curioso.
Fiquei com um pé no presencial e outro no online, por pelo menos uns cinco, seis anos. A minha última escola presencial foi em 2021. De certa forma, é recente.
Fui percebendo que, lá atrás, a gente ainda conseguia falar para o aluno: “Presta atenção em mim, depois a gente vai para a internet”. Mas, com o passar do tempo, ele foi ficando cada vez mais dependente do mundo virtual.
E a separação desse mundo virtual foi ficando cada vez mais difícil. Não só para o estudante, para todo mundo. A ponto de nós termos uma geração que vive em um mundo quase 100% virtual. Para você tirar o estudante desse mundo e trazê-lo para o real, para o presencial, é sempre um desafio.
Tem muito professor amigo meu, que está em sala, comentando a dificuldade que é segurar a atenção do aluno para ele entender essa dinâmica.
E como isso reflete no online?
Lá atrás, eu fazia uma videoaula de 20 minutos, que era ok, era uma videoaula curta. Por quê? Porque quando eu entrei na internet, tinha videoaulas de 45, 60 minutos. Era a duração de videoaulas para concurso. Uma videoaula de 20 minutos em que você dá o mesmo conteúdo de 50 era uma didática, havia uma metodologia para fazer isso. Hoje já não funciona mais. Já escutei de alunos que videoaulas de 15, 20 minutos são enormes.
Essa transição de velocidade eu peguei já trabalhando na internet, tive que me adaptar para conversar com essa nova geração, que quer as coisas em três segundos – o que é impossível de entregar na educação. Entender a dinâmica geracional é um desafio.
Que dicas você dá para os educadores lidarem com uma geração que usa o celular sem ter o cérebro completamente formado?
Primeira coisa: não dá para colocar na conta só do professor. Se as famílias não trabalharem juntas com os professores, será muito difícil de lidar.
A escola precisa cumprir o seu papel. Mas a educação como ser humano, não a formação educacional, a educação vem de casa. Essa educação está sendo delegada para a escola, e não pode. Quando o aluno chega na sala de aula super ansioso, com zilhões de déficits pelo uso de tela exagerado, essa tela vem de casa. Enquanto isso estiver acontecendo, a gente vai ter essa briga. Não tem jeito.
E aí, escola e professor, especialmente o professor que está lá na ponta, vai ser o mais afetado. O professor tem que lidar com 40 alunos, e dos 40, 38 estão ansiosos por todas essas demandas. Como é que faz? O professor tem que rebolar e se virar em 50, estudar mil coisas para tentar prender a atenção do aluno? É quase uma covardia psicoprofissional da educação.
Enquanto as famílias não abraçarem a educação de casa para as crianças não terem essa quantidade de tela que elas têm, vai ficar quase impossível o professor de sala de aula fazer o trabalho dele.
Como se comunicar com esses jovens imersos na linguagem da internet?
Uma coisa que eu sempre falo para todos os meus colegas que estão em sala de aula: você precisa ter um pé no digital, não tem jeito. Não precisa trabalhar no digital, mas precisa ter uma marca digital, ou seja, precisa estar lá, de alguma forma.
As pessoas gostam disso. Antes da internet, a gente tinha a interação em sala de aula, como quando a gente voltava das férias e contava “ah, eu fui em tal lugar”, e o aluno contava também.
A diferença agora é que essa interação é real time. Tempo real. Inclusive coisas que, muitas vezes, não fazem parte do seu mundo, como já existia antigamente. Quantos alunos eu via conversando com gírias que eu não entendia e eu ia perguntar “o que é isso?” E eles me explicavam, e eu começava a usar essa gíria em sala de aula. Hoje acontece a mesma coisa na internet, tem um monte de gírias, de linguagens próprias de cada grupo social de alunos.
Você precisa entender isso para criar conexão e depois levar para a sala de aula presencial. Hoje nenhuma profissão, não só o professor, nenhuma profissão pode não estar na internet. A gente precisa entender esse mundo para fazer uma conexão melhor com o mundo presencial. Não é nem com o mundo real, é com o mundo presencial. Porque o virtual não deixa de ser real em certo aspecto.
Quanto mais você está por dentro do que está acontecendo na internet, você consegue entender melhor o seu aluno, como abordá-lo. Eu cansei de fazer coisas assim quando eu estava no presencial ainda. Levar coisas que eles estavam brincando na internet para dentro de sala de aula, fazer a conexão do conteúdo de Língua Portuguesa com um meme ou com a linguagem deles. Isso cria conexão, porque o aluno sente que você faz parte do mundo dele.
Quais lições você aprendeu nesses mais de dez anos de educação online?
Preocupar-se com quem está ali. Isso faz com que as pessoas, primeiro, acreditem em você. Depois, aprendam de verdade o conteúdo.
Já houve situações em que eu encontrei uma família no shopping, e a mãe e o pai estudavam comigo para concurso, e os filhos, para o colégio. A família toda me acolhia dentro da casa deles. É bizarro, é surreal. Nunca imaginei viver isso. Caramba, é uma família inteira que eu estou impactando de alguma forma com a educação.
A gente trabalha com coisas muito vitais, como acesso a uma vida melhor através de um concurso, ou até mesmo passar de ano para um estudante de 11 anos, é a vida dele. Você impacta a vida das pessoas. É preciso ter compromisso com aquilo que você está produzindo. Não dá para entregar qualquer coisa. Desde sempre me preocupei em entregar o melhor que eu posso, no tempo que eu me propus a entregar. E não falhar nessa entrega também.
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