Reflexões de um pai atípico
Neste artigo, o consultor empresarial Juliano Colombo relata como a inclusão real une o afeto familiar à transformação das escolas

Juliano Colombo, consultor empresarial
Passei quase 15 anos imerso na complexidade de fazer educação. Como executivo à frente da implantação de redes escolares no Rio Grande do Sul, vi de perto o desafio de transformar modelos e conectar jovens ao futuro. A partir dessa experiência, posso afirmar: o maior teste de qualquer modelo educacional hoje não é a tecnologia, mas sim a inclusão.
No campo pessoal, o nascimento do meu filho, em 2019, e o posterior diagnóstico de autismo trouxeram uma lição que nenhuma faculdade de gestão e cargo de direção poderia ter me ensinado.
O autismo, como tantas outras neurodivergências, é invisível para quem não vive o dia a dia. É um cotidiano de rotinas rígidas, hiperfocos, restrições e o medo constante do imprevisível. Essa vivência ressignificou muitas coisas para mim, entre elas o que chamamos de sucesso e produtividade, além do conceito de estar na “média” historicamente desenhada para os modelos escolares, que uniformizam condutas para atingir bons resultados em processos seletivos.
Hoje, concluo que o neurodivergente nunca estará na média. Imagine o desafio: uma criança que lê e escreve antes dos três anos e faz contas de matemática sem precisar de papel, mas que enfrenta barreiras imensas para socializar ou permanecer focada em uma sala de aula. É uma conta que, muitas vezes, não fecha nem para a família, nem para a escola.
Quando o bullying chegou para o meu filho aos 6 anos, percebi que a inclusão plena ainda é uma utopia enquanto não olharmos para dentro de nossos lares. O comportamento das crianças na escola é, muitas vezes, o reflexo de uma “sociedade do desempenho”, em que adultos terceirizam a educação e o afeto, como bem retrata Byung-Chul Han, no livro “Sociedade do Cansaço”.
Fato é que a realidade das salas de aula mudou. Segundo o Censo Escolar 2024, as matrículas de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aumentaram 44,4% entre 2023 e 2024. Esse salto estatístico nos coloca diante de uma pergunta honesta: nossas comunidades estão preparadas para lidar com episódios e comportamentos atípicos?
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O papel das instituições de ensino, especialmente as que buscam a excelência, não é apenas cumprir uma lei de inclusão, mas liderar uma evolução para um ensino mais diverso e personalizado, algo que, inclusive, beneficiaria todos os alunos, típicos ou não. A escola tem a função fundamental de promover mudanças, mas não substitui a presença efetiva dos pais. Inclusão se ensina com exemplo, com tempo e com a aceitação de que a vida não é linear.
Como pai, aprendi que o cuidado não é um fardo, mas um investimento no capital humano da nossa sociedade. Como pai atípico, entendi que a jornada da inclusão dura a vida inteira. Precisamos de escolas capacitadas e métodos comprovados, sim, mas precisamos, acima de tudo, de famílias que não terceirizem o essencial. Afinal, a inclusão só acontece de verdade quando transborda da sala de aula para a mesa de jantar de cada um de nós.
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