Cinema brasileiro vai do Oscar às salas de aula do país

Com sucessos internacionais e o respaldo da BNCC, a cinematografia nacional vira peça-chave na formação crítica e na identidade cultural dos estudantes

por: Bianca Zasso  | bianca@padrinhoconteudo.com
imagem: Crédito: Divulgação Clube do Filme

Literalmente, “coisa de cinema” é o que o Brasil vive no momento. Após a vitória do filme Ainda Estou Aqui no Oscar de 2025 e a atual expectativa em torno das quatro indicações de O Agente Secreto para a cerimônia do dia 15 de março deste ano, a produção audiovisual nacional se firma como um pilar da identidade do país no exterior. 

Todo esse prestígio internacional reacende a questão da consolidação da cinematografia brasileira como componente essencial do currículo escolar. Dentro das salas de aula, filmes e documentários deixam de ser entretenimento para se tornarem janelas de reflexão sobre costumes e sotaques, cumprindo o papel de aproximar as novas gerações da complexa realidade social e histórica do Brasil.

Aliada a esse movimento, a inclusão da Lei 13.006 na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em 2014, tornou obrigatória a exibição de duas horas mensais de cinema brasileiro nas escolas. Mais do que um cumprimento legal, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) posiciona esse conteúdo como peça fundamental para formar o repertório crítico, estético e tecnológico dos alunos, integrando o audiovisual de forma estratégica à proposta pedagógica.

Para a jornalista, professora e crítica de cinema Fatimarlei Lunardelli, o cinema é, antes de tudo, um espelho humano que reflete a cultura, os hábitos e os valores de um país. No entanto, para que haja uma conexão genuína dos estudantes com os filmes, os educadores precisam atuar como um ativador de experiências que vão além do simples ato de assistir a produções nacionais. Ter êxito neste sentido com uma geração que cresceu com acesso ao streaming e às redes sociais pode parecer um desafio, mas Fatimarlei acredita que esse cenário pode ser um aliado. 

“O professor pode começar uma abordagem em sala de aula escutando como os alunos acompanham e o que sabem sobre o cinema, inclusive sobre produções feitas no Brasil. É essa abertura que pode apontar o caminho a ser seguido para trazer o cinema para a sala de aula”, afirma a jornalista. 

Embora a internet ofereça vasto material para pesquisa, Fatimarlei alerta para o risco de abordagens excessivamente publicitárias sobre o cinema brasileiro. Ter uma base formada por fontes acadêmicas e bibliográficas sólidas, como o Dicionário do Cinema Brasileiro e a coleção de artigos em dois volumes A Nova História do Cinema Brasileiro. “Esses materiais são essenciais para compreender desde fases históricas até verbetes específicos, como a chanchada”, explica. 

O papel do professor, portanto, ganha uma dimensão social. Após um período de isolamento e confinamento digital devido à pandemia, a ida ao cinema pode ser uma resposta ao cansaço das telas individuais. Incentivar a experiência coletiva de ir ao cinema também é função do educador, que deve valorizar a experiência da sala escura. “Criar o hábito de ver filmes no cinema deve ser algo alimentado pelos educadores. Porto Alegre possui várias salas públicas, como a Cinemateca Capitólio e o Cine Bancários, que conta inclusive com sessões gratuitas”, aponta Fatimarlei. 

Presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), o jornalista Daniel Rodrigues acredita que os professores devem aproveitar o momento de grande visibilidade do cinema brasileiro na mídia para expandir o repertório dos alunos. “O sucesso de O Agente Secreto pode ser o momento de apresentar outras vertentes do nosso cinema. Para isso, o professor precisa ir em busca de alguns clássicos, algo que se tornou um pouco mais fácil com a internet”, orienta.

Entre os filmes destacados por ele, estão Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, e Batismo de Sangue, do diretor mineiro Helvécio Ratton. A tradição do cinema brasileiro dentro do gênero documentário pode ser muito bem aproveitada em sala de aula, pois muitas produções fazem um retrato da sociedade do país com diferentes propostas visuais. “Cabra Marcado para Morrer, do Eduardo Coutinho, é um filme capaz de criar múltiplas camadas de significado a partir da reconstrução de um processo histórico. Mais do que refletir sobre a história, a sala de aula pode ser um espaço para apresentar diferentes estéticas, ainda mais num momento em que tudo parece pasteurizado e voltado para o público do streaming”, ressalta Daniel. 

Formação em cartaz

Tornar a ida ao cinema um hábito não apenas voltado ao entretenimento, mas também à educação é parte do objetivo do Programa de Alfabetização Audiovisual, uma iniciativa que existe há 18 anos e é fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Porto Alegre, por meio da Coordenação de Cinema e Audiovisual, e a faculdade de educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Antes realizado na Sala P.F. Gastal, localizada na Usina do Gasômetro e que hoje encontra-se fechada, o programa agora ocupa a Cinemateca Capitólio e conta com três projetos permanentes, todos abertos para as escolas e o público interessado. O primeiro deles é a Sessão Vagalume, que conta com a exibição mensal de filmes infanto-juvenis, o Vagalume na Escola, que realiza sessões nas instituições e o Clube do Filme, voltado para jovens entre 15 e 21 anos, focado na formação de público para salas de cinema. As escolas que quiserem participar podem acompanhar o perfil do Instagram

“O cinema precisa ser parte da formação docente e o projeto tenta colaborar com isso. É preciso abordar a análise da linguagem cinematográfica e ampliar o repertório dos professores. Nossas sessões colaboram para a abertura do olhar dos educadores e também dos estudantes”, avalia Juliana Costa, coordenadora do programa e doutora em comunicação social. 

Luz, câmera e educação

No Colégio Marista Rosário, em Porto Alegre, o cinema é o eixo central de um projeto que une técnica, reflexão e sensibilidade. O Clube do Filme, idealizado em 2023 por professores de Ensino Religioso e Produção Textual, propõe aos estudantes dos oitavo e nono ano do Ensino Fundamental uma imersão que vai além da tela, com encontros semanais de duas horas. O diferencial da iniciativa reside no equilíbrio entre a teoria e a prática. Após realizarem um debate e uma pesquisa sobre o tema proposto, os alunos assumem o papel de realizadores

Estudantes do Marista Rosário debatem a teoria e a prática do cinema por meio do Clube do Filme e suas obras selecionadas | Créditos: Divulgação Clube do Filme

“Eles são convidados a conhecer as diferentes etapas da criação cinematográfica e, a partir desse processo, produzirem o seu próprio curta-metragem, vivenciando na prática elementos como roteiro, atuação, filmagem e edição”, explica o professor Douglas Justen, que esteve à frente do projeto em 2025. 

O cinema brasileiro ocupa um espaço estratégico no cronograma do projeto. O estudante do nono ano Murilo Zanella Hommerding tem entre seus filmes prediletos uma produção brasileira filmada no Rio Grande do Sul: o longa-metragem Saneamento Básico, O Filme, que conta com direção e roteiro do gaúcho Jorge Furtado. 

“Além de ampliar meu repertório, o clube me ajudou a argumentar melhor e a ter aprendizados importantes, além de enxergar os filmes de outras formas. O objetivo não é só assistir e discutir, é desenvolver um novo olhar e aprender a enxergar o mundo com olhos mais crescidos e maduros”, ressalta o estudante. 

Em 2026, um dos objetivos do Clube do Filme é ampliar a presença de filmes nacionais nas propostas do projeto. Para Justen, o valor pedagógico da cinematografia local é insubstituível para a construção da cidadania. “Os filmes nacionais permitem que os estudantes se reconheçam nas histórias, nos cenários e nas múltiplas realidades do país, sendo convidados a refletir sobre identidade, ética, diversidade cultural e realidade social brasileira”, afirma o professor. 

Confira cinco dicas de filmes brasileiros disponíveis no YouTube:

Limite (1931)
Direção: Mário Peixoto
Assista aqui.


Cabra Marcado para Morrer
Direção: Eduardo Coutinho
Assista aqui.


Pra Frente, Brasil
Direção: Roberto Farias
Assista aqui.


Vinil Verde
Direção: Kléber Mendonça Filho
Assista aqui.


Inocência
Direção: Walter Lima Jr.
Assista aqui.


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