Após um ano sem celular, escolas registram maior interação entre estudantes

Levantamento do SINEPE/RS mostra que 91% das instituições observaram melhoria no aprendizado após a restrição

por: Geovana Benites e Vitória Leitzke | geovana@padrinhoconteudo.com
imagem: Crédito: Verônica Streliaev

Nos intervalos da escola, a conversa voltou a ocupar o espaço que antes estava dominado pelas telas. A cena, cada vez mais rara nos últimos anos, voltou a ser comum após um ano da implementação das regras que restringiram o uso de celulares nas escolas brasileiras. Com o início do ano letivo em 2026, a mudança completa seu primeiro ano e já registra impactos na convivência entre os alunos, na aprendizagem e no clima escolar.

A Lei nº 15.100/2025, sancionada em 13 de janeiro de 2025, foi instituída em um contexto de crescente preocupação com os efeitos do uso excessivo e desregulado de celulares no ambiente escolar. O objetivo foi restringir o uso dos aparelhos eletrônicos pelos estudantes nas aulas, no recreio e nos corredores a fim de preservar a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes. Entre os educadores, e até estudantes, a percepção é, em geral, positiva. 

No Rio Grande do Sul, a restrição ao uso de celulares já apresenta resultados concretos. Um levantamento do SINEPE/RS revelou que 91% das instituições consultadas perceberam melhoras no aprendizado após a implementação da norma. No geral, a maioria das escolas avalia o impacto como positivo, tanto para o ambiente de convivência quanto para o desempenho acadêmico. Realizada em fevereiro de 2026, a pesquisa contou com 139 respostas de 121 escolas.

Início dos trabalhos

Como qualquer adaptação a novos costumes, o começo foi desafiador, tanto para as instituições controlarem o uso e explicarem as medidas, quanto para os estudantes assimilarem a ausência do aparelho. No Colégio Salesiano Dom Bosco Porto Alegre, restrições quanto aos dispositivos já eram parte do cotidiano desde o final de 2024, quando a pauta começou a surgir na mídia – o que contribuiu para uma implementação gradual da lei. 

Segundo a diretora da instituição, Flávia Mentges, foram adotadas diversas medidas para o cumprimento da legislação, incluindo alinhamentos com as famílias, instalação de armários com chave nas salas de aula e aumento do monitoramento nos espaços das escolas. “No momento em que a família validou isso enquanto legislação, enquanto obrigatoriedade da escola, o estudante acaba também refletindo isso. Inicialmente, claro, foi uma adaptação, talvez ali os três primeiros meses alguns sofreram um pouco”, conta a educadora. 

Na escola, há armários com chave em cada sala de aula, onde os estudantes devem depositar seus aparelhos eletrônicos. A posse da chave é exclusiva dos professores, permitindo que os dispositivos sejam utilizados apenas para atividades pedagógicas. 

Estudantes guardam os celulares em armários com chave para priorizar o foco e as tarefas pedagógicas | Crédito: Verônica Streliaev

“No início, houve bastante resistência dos alunos, principalmente os que estavam mais acostumados a utilizar [o celular] durante as aulas, nos intervalos, até mostrando uma certa dependência”, conta o estudante Arthur Amaral Pavão, de 17 anos. Porém, o aluno presidente do Grêmio Estudantil comenta que ao longo do tempo, conforme as medidas foram implementadas, os colegas foram se acostumando. 

Apesar da lei, medidas restritivas de aparelhos celulares já eram realidade em algumas instituições de ensino. No interior do Rio Grande do Sul, o Colégio Evangélico Alberto Torres (CEAT) de Lajeado já possuía e aplicava estratégias de restrição ao uso de celulares há alguns anos antes da promulgação da nova legislação – o que foi determinante para o cumprimento facilitado da medida. “A parte mais desafiadora foi nos intervalos, mas nos horários de aula já havia uma restrição importante, no sentido de não usar, de recolher o aparelho quando fosse usado em momentos inadequados”, explica o diretor geral da instituição, Rodrigo Ulrich. 

Em resposta à nova legislação, a instituição estabeleceu um grupo de trabalho composto por cerca de 12 pessoas, incluindo representantes do grêmio estudantil, da associação de pais e profissionais de diferentes níveis do colégio, para pensar, refletir e planejar a implementação, criando estratégias que incluíam a escuta dos alunos. Para o diretor, a participação dos estudantes fez com que eles se sentissem ouvidos e correspondessem melhor à restrição. 

O Colégio Stella Maris, em Viamão, também adotou uma postura semelhante, criando um plano de ação que envolveu principalmente um diálogo maior com a comunidade escolar. “Organizamos claramente o horário permitido de uso do celular, marcamos reuniões com as famílias, fizemos uma palestra sobre a importância da lei, trouxemos um especialista para explicar para todos o porquê de isso estar acontecendo. Antes de iniciar as aulas, focamos em conscientizar”, destaca Michele Furtat Severo, diretora da escola. 

Para a estudante Eduarda da Silva, 16 anos, integrante do grêmio estudantil da instituição, a comunicação clara entre educadores e estudantes durante a transição de implementação da lei foi essencial para que eles compreendessem o propósito da medida. “Eles trouxeram para a gente o real motivo de que isso estava acontecendo, entendemos que realmente estava atrapalhando os nossos estudos”, conta. 

Vale lembrar que a lei não proíbe totalmente o uso do celular nas salas de aula. O aparelho pode ser utilizado para fins pedagógicos e sob supervisão de professores ou orientadores. 

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Autonomia também precisa ser ensinada 

A restrição ao celular também trouxe à tona um debate sobre até que ponto é possível esperar que crianças e adolescentes façam essa regulação sozinhos. Para o educador e influenciador digital Noslen Borges, conhecido como Professor Noslen, a intervenção dos adultos tornou-se necessária diante da dificuldade de autocontrole observada em sala de aula.

“Chegou um momento que não dava mais para delegar ao estudante a consciência de guardar o celular. Quando o estudante não consegue ter a proatividade de entender que ele precisa guardar aquilo naquele momento, então um adulto tem que intervir”, afirma Noslen.

Nas escolas, esse processo de construção da autonomia foi facilitado com a proibição. No Colégio Stella Maris, por exemplo, a responsabilidade de guardar o celular é dos próprios alunos, conforme explica a diretora da instituição. “A gente trabalha com a construção da autonomia. É responsabilidade do estudante ser responsável por desligar e guardar o celular dentro da mochila”, ressalta.

Segundo a diretora, a escola optou por não centralizar esse controle justamente como forma de estimular esse aprendizado. A regra vale durante todo o período de aula, incluindo intervalo, mas há flexibilidade após a saída. “Ele tem a responsabilidade de desligar ao chegar e, ao sair, pode ligar. Não tem problema. Saiu do portão principal da escola, ali é a hora da descontração, de esperar o pai chegar, ali ele pode utilizar”, diz.

Na prática, educadores observam que o limite imposto no ambiente escolar tem contribuído para o desenvolvimento gradual dessa autonomia – e também para a saúde mental dos estudantes. Segundo o psicólogo e orientador educacional Victor Krüger, do Colégio CEAT, uma das reações iniciais mais comuns foi a insegurança. 

“Em primeiro momento, eu fiquei desesperada pelo fato de eu usar muito o celular para comunicação com meus pais, pois moro em outra cidade. No entanto, neste momento, eu não me preocupo tanto”

Depoimento de uma estudante da CEAT, coletado durante uma atividade da escola

Krüger ressalta que os estudantes estão aprendendo a ser mais independentes. “Não é resolver sozinhos sempre, mas serem mais independentes, no sentido de não depender sempre do pai e da mãe e poder contar com a ajuda de outros adultos de confiança, como os professores aqui da escola”, explica. 

Além da autonomia, a mudança também impacta diretamente na saúde mental e nas relações sociais. Sem o celular como refúgio, alguns estudantes passaram a descobrir novas formas de interação. O psicólogo destaca que o simples fato de o aparelho não estar acessível já contribui para o foco e o bem-estar. “O celular é um distrator. Então, quando você tira um distrator daquele ambiente, automaticamente o nível de concentração tem um potencial de melhora perceptível”, completa. 

O dispositivo, segundo ele, muitas vezes funcionava como uma forma de evitar o desconforto das interações presenciais. Sem o aparelho, novas experiências passaram a ocupar esse espaço. “Às vezes eu ficava quieta no meu canto com o celular, mas depois eu conheci pessoas novas, fiz amizades, joguei cartas de vários jeitos diferentes, não tendo a mínima ideia de que era possível. Eu adorei essa experiência, se o celular continuasse, talvez nunca aprenderia isso”, disse outra aluna em relato à escola. 

“Nós fizemos uma roda de conversa com todas as turmas de quinta e nona série e ensino médio. E, em todas as turmas, isso se repetiu algumas vezes, tivemos respostas muito semelhantes”, celebra Krüger.

Intervalos mais barulhentos 

“Há um tempo atrás, percebíamos um isolamento maior entre os estudantes no intervalo, eles formavam grupos menores, e mesmo quando estavam juntos, acabavam se mantendo isolados uns dos outros. Hoje, com tranquilidade, posso dizer que foi benéfico porque percebemos abertura para novas amizades e maiores interações no pátio”, diz Flávia Mentges, diretora do Dom Bosco. 

No Colégio, a mudança mais significativa foi durante os intervalos. Anteriormente, os celulares já eram proibidos em sala de aula, mas no intervalo os dispositivos eram o foco dos estudantes. Com a nova legislação, os celulares foram abolidos do período, o que deu lugar a novas atividades, como jogos de cartas e tabuleiros. Eles tiveram acesso liberado às quadras esportivas e desenvolveram uma nova forma de socialização.

“Senti que alguns colegas que eu não tinha nem escutado a voz mais de três vezes durante o ano foram falando mais, se expondo, interagindo em atividades. Acabei conhecendo vários colegas que, mesmo estando um ano juntos, eu não tinha tanto conhecimento sobre eles”, relata Arthur, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da instituição. 

Em Viamão, na Stella Maris, os intervalos voltaram a ter a movimentação que só ocorria na época anterior aos smartphones. “Lotamos o recreio com jogos de mesa e jogos de tabuleiro, como alternativa para as crianças do primeiro ao quinto ano. Para alunos do sexto ano em diante, disponibilizamos todos os tipos de jogos, bolas, quadras, diversificamos o recreio”, destaca a diretora Michele. 

Em relação à melhora da concentração durante as aulas, o diretor do CEAT, Rodrigo Ulrich, explica que a proibição de levar o aparelho para o intervalo, somada às restrições já existentes em sala de aula, resultou em uma situação menos dispersiva, pois eliminou a ruptura que ocorria quando os alunos usavam o dispositivo no intervalo e depois precisavam guardá-lo novamente. “Na visão dos professores, isso trouxe menos interferência e maior fluidez para o período das aulas, tornando o ambiente escolar mais natural e com menor necessidade de intervenção”, afirma Rodrigo. 

O ponto também foi percebido pelos próprios estudantes. Conforme Eduarda, que está no segundo ano do Ensino Médio, até a relação com os docentes mudou: “Além da gente focar muito melhor, não tem o professor falando o tempo todo para algum aluno ficar fora do celular. Antes, alguns ficavam jogando, mexendo, tirando foto, acabava até cortando o raciocínio do professor. Agora, não tendo mais isso, as aulas ficam bem mais dinâmicas e a gente consegue focar melhor também”, conta a estudante.

Momento para mudança de cultura

Em âmbito nacional, uma pesquisa será realizada pelo Ministério da Educação (MEC) ainda no primeiro semestre de 2026. A proposta é analisar os desdobramentos da lei e avaliar como ela vem sendo implementada nos diferentes sistemas de ensino, além de investigar quais efeitos iniciais tem produzido no cotidiano escolar.

Um ano após a vigência da nova legislação, os impactos na aprendizagem ainda são observados de forma gradual. Segundo as direções, embora avaliações mais concretas sobre a melhoria do desempenho acadêmico exijam um prazo maior, a médio e longo prazo, as instituições reconhecem que a medida cria um ambiente mais propício para o aproveitamento das aulas.

“Penso que precisaria de um pouco mais de tempo, porque isso é uma mudança de cultura, para que a gente consiga mensurar e identificar uma aprendizagem mais significativa”, comenta a diretora do Colégio Dom Bosco. 

O ponto principal da mudança foi a melhora na concentração – o que por consequência, contribuiu para o desempenho dos estudantes. A diretora do Colégio Stella Maris afirma que houve um certo aumento no índice de aprendizagem e de retorno cognitivo dos alunos. “Porque a concentração ficou maior, o comprometimento aumentou”, diz.

Para o psicólogo, desde o primeiro dia da implementação da lei, a simples ausência do celular no campo de visão ou no bolso do aluno já representou uma melhora significativa na concentração dos estudantes. “Uma coisa muito importante é ter esse olhar educativo para aquilo que faz mal. E, ao mesmo tempo, cuidar, principalmente pensando nessa relação adulto-adolescente-criança, em relação aos prejuízos desse consumo desenfreado de telas”, completa.

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