GEduc 2026: os sinais de um novo momento para a gestão educacional 

Neste artigo, representantes do Sinepe RS exploram as tendências sobre inovação, IA e gestão emocional


André Sträher, diretor do SINEPE/RS e diretor do Colégio Sinodal de Salvador, de Porto Alegre 

*Colaboraram no artigo o presidente do SINEPE/RS, Oswaldo Dalpiaz, o vice Nestor Raschen e os diretores Carlos Milioli e Bruno Eizerik , que também estiveram presentes no evento.


Em um cenário em que a inteligência artificial já redefine a forma como aprendemos, a saúde mental se torna pauta central nas escolas e a inovação deixa de ser tendência para se tornar condição de sobrevivência, a educação vive um momento decisivo. Foi nesse contexto que o GEduc 2026 reuniu lideranças de todo o país para discutir não apenas o futuro da educação, mas as escolhas que precisam ser feitas agora, dentro das escolas, para que esse futuro seja possível. Com o tema central “Arquitetar Futuros: Educar, Liderar e Transformar”, o evento ocorreu de 25 a 27 de março, em São Paulo.

A temática dialoga de forma significativa com o mais recente relatório da Unesco para a educação, coordenado por António Nóvoa. No documento, o pesquisador português defende que o futuro não é algo pré-determinado, passível de ser adivinhado ou prescrito, mas uma construção coletiva, que depende diretamente da ação colaborativa conjunta dos professores e das lideranças escolares.

Essa perspectiva perpassou todo o evento, em suas diversas sessões, fóruns e trilhas temáticas.

Logo na abertura, a palestra magna de Sandro Magaldi, um dos principais especialistas brasileiros em gestão estratégica e inovação, mapeou com clareza os desafios da educação contemporânea. Para Magaldi, o envelhecimento da população e a queda da fecundidade devem ser vistos também como oportunidade para o desenvolvimento do lifelong learning — a aprendizagem ao longo da vida.

Nesse sentido, provocou os gestores presentes com a pergunta: “O que vocês, gestores, têm ofertado para os avós de seus estudantes, que semanalmente vêm à sua escola?”

Magaldi defende a necessidade de transformação da educação diante das aceleradas mudanças de contexto. Alerta que as instituições precisam incorporar, em seus processos, o “sistema cognitivo” de uma era digital. Segundo ele, a principal concorrente da escola já não é a instituição educacional mais próxima, mas a mudança de mercado que reorganiza o mindset das pessoas e torna algumas organizações escolares obsoletas ou lentas demais. A escola também disputa permanentemente pela atenção dos estudantes com as telas, redes sociais e plataformas digitais.

A ideia de que a escola também precisa ser “aprendente” dominou, igualmente, as discussões do Fórum de Educação Especial e Inclusiva. Nas diferentes palestras, ficou evidenciada a importância de organizar práticas pedagógicas a partir do princípio de que a escola inclusiva é para todos. Isso significa reconhecer cada estudante em sua singularidade e construir um ecossistema de aprendizagem capaz de promover seu desenvolvimento integral.

As apresentações reforçaram tanto o papel da escola quanto aspectos técnicos importantes, como as características necessárias para a elaboração de estudos de caso de estudantes do público da educação especial, bem como a documentação indispensável para garantir segurança jurídica, transparência e diálogo com as famílias.

Outro destaque foi a “Jornada de Inovação e Inteligência Artificial”, que abordou a inovação como cultura institucional e também como estratégia de sustentabilidade e posicionamento de mercado. Foram mapeados os principais pontos de fricção da inovação no ambiente escolar, entre eles a formação docente, a baixa qualidade ou a pouca sistematização dos dados produzidos pelas instituições e os custos de implementação de novas abordagens.

Embora a inovação seja imperativa, em razão do ritmo acelerado das transformações, “o que você fez bem ontem pode ser irrelevante hoje”, como afirmou Renato Casagrande. Ainda assim, nenhum dos palestrantes defendeu uma inovação disruptiva ou baseada apenas na adoção de tecnologias. Pelo contrário: a melhoria da qualidade do ensino passa pela pesquisa, pela construção coletiva entre professores e lideranças e pela preservação de princípios essenciais da educação.

A escola precisa adaptar-se ao contexto de um mundo BANI — frágil, ansioso, não linear e incompreensível —, conceito desenvolvido pelo futurista Jamais Cascio para descrever a complexidade do cenário contemporâneo. Contudo, ao mesmo tempo em que se adapta, a escola necessita preservar o propósito de sua existência: formar gerações capazes de pensar, comunicar-se com competência, ler, escrever, criticar, propor soluções, desenvolver pensamento científico e tecnológico e construir conhecimento próprio. Sem isso, corre-se o risco de formar sujeitos cada vez mais vulneráveis à manipulação de algoritmos e desinformação.

A Inteligência Artificial também esteve presente em muitas das falas do evento, não mais como um tema de futuro, mas como uma realidade concreta no cotidiano de estudantes e docentes. Na educação, plataformas apoiadas em IA podem contribuir para a hiperpersonalização do currículo.

A hiperpersonalização consiste no uso de dados e tecnologia — especialmente da inteligência artificial — para criar uma experiência de aprendizagem única para cada estudante, ajustada continuamente em tempo real. Diferentemente da personalização tradicional, que costuma oferecer percursos distintos para grupos de alunos, a hiperpersonalização focaliza o indivíduo de maneira muito mais granular, considerando seu ritmo, dificuldades, interesses, repertório e formas preferenciais de aprender.

Apesar das possibilidades, os palestrantes alertaram que a adoção da inteligência artificial exige intencionalidade pedagógica, critérios éticos e atenção à proteção de dados. A tecnologia, por si só, não garante aprendizagem. Seu uso precisa estar subordinado aos objetivos educacionais e à mediação humana dos professores.

Saúde mental e bem-estar

Por sua vez, o Fórum de Saúde Mental e Bem-Estar apresentou diversos estudos que evidenciam a preocupação global com o tema. Atualmente, uma em cada oito pessoas sofre de algum transtorno mental, sendo ansiedade, depressão e burnout os mais recorrentes — e não apenas entre adultos.

Os índices já vinham crescendo em virtude da fragilidade dos vínculos, da sensação de não pertencimento e das transformações sociais das últimas décadas. A pandemia de coronavírus apenas intensificou esse quadro, evidenciando que conexões interpessoais mediadas exclusivamente por telas não substituem vínculos afetivos reais. Muitas crianças e adolescentes atravessaram esse período sofrendo consequências importantes para sua saúde e bem-estar psicossocial.

Mesmo com a redução do consumo de álcool e tabaco entre adolescentes, diferentes pesquisas indicam que a saúde mental dessa faixa etária atingiu um ponto crítico, impactando diretamente a aprendizagem, a convivência, a motivação, a permanência escolar e o desenvolvimento socioemocional.

Diante desse cenário, as instituições educacionais têm ampliado suas ações de prevenção e cuidado, tanto em relação aos estudantes quanto aos colaboradores. Programas de escuta, fortalecimento de vínculos, promoção do pertencimento, formação socioemocional e cuidado com a saúde mental das equipes deixaram de ser iniciativas complementares e passaram a constituir parte essencial da gestão escolar contemporânea.

Educação profissional

Este ano também foi realizado um Fórum totalmente voltado para a Educação Profissional, bloco que abordou a inovação curricular, parcerias setoriais e contribuiu de forma significativa para as demandas pós-pandemia por EPT flexível e alinhada ao trabalho.

Presidido por Rosangela Dantas Frateschi (Diretora da IDOR Escola Técnica), o fórum focou na interseção entre formação técnica, empregabilidade e negócios educacionais, com quatro sessões principais intercaladas por rodas de conversa. 

O primeiro painel, “Educação profissional: a bola da vez – oportunidades reais de negócios”, foi mediado por especialistas como Francisco Borges (PROZ Educação/Descomplica) e Felipe Santos Sigilio (Secretário de Educação de Diadema-SP). Discutiu modelos de negócios viáveis, parcerias público-privadas e expansão da EPT em contextos das atuais redes existentes. Ênfase em demandas do mercado e ROI para instituições.

Na apresentação “Da régua de aferição à bússola da inovação: case de sucesso”, Luciano Meira (PROZ Educação) destacou estratégias inovadoras de avaliação, migrando de métricas tradicionais para indicadores preditivos. Foco em cases reais de redução de evasão e aumento de empregabilidade, com ferramentas digitais para alinhar currículo ao setor produtivo.

Na sessão seguinte, o painel “Educação profissional e empregabilidade: como identificar as demandas do setor produtivo?”, Felipe Morgado (SENAI Nacional) e Gilberto Guimarães (GG Consulting) exploraram mapeamento de competências setoriais, com dados do SENAI sobre gaps no mercado. Também abordaram alinhamento curricular-prático, microcertificações ou Certificações Intermediárias e parcerias industriais – ideal para otimizar ofertas em ensino técnico.

E, por último, uma temática relevante para o segmento na apresentação do case: “Entre o saber acadêmico e o fazer prático: como preparar professores para a EPT”. Em sua fala, Karen dos Reis Teixeira (Centro Paula Souza) abordou a formação docente híbrida, integrando teoria e prática via metodologias ativas. Destaque para desafios na transição acadêmica-mercado e estratégias para aprimorar habilidades atuais dos colaboradores, ensinando competências mais avançadas para a mesma função.

Mais do que antecipar tendências, o GEduc 2026 reforçou uma mensagem essencial: o futuro da educação não será definido apenas pela tecnologia ou pelas mudanças externas, mas pela capacidade das instituições de manter coerência entre propósito, prática pedagógica e gestão. Em um cenário cada vez mais dinâmico, inovar não significa apenas incorporar novidades; exige capacidade de adaptação com velocidade e intencionalidade. E esse talvez seja um dos maiores desafios atuais: enquanto o contexto avança rapidamente, muitas escolas ainda operam em ritmos lentos de decisão e mudança. A sustentabilidade institucional passa, portanto, por reduzir essa distância entre o tempo das transformações e o tempo das respostas das escolas.

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