O que os estudantes consideram uma “boa aula”

Pesquisa da Unisinos com alunos do Ensino Médio revela que a conexão com o professor e as atividades práticas são as bases de uma boa aula

por: Bianca Zasso | bianca@padrinhoconteudo.com
imagem: Freepik

As redes sociais e plataformas educativas estão repletas de receitas para tornar a sala de aula um espaço mais cativante. As propostas variam do uso de inteligência artificial à abolição das tradicionais fileiras de classes. Mas será que essas estratégias dialogam com o real desejo dos estudantes? O que eles consideram uma “boa aula”? 

Essa foi a dúvida que guiou uma pesquisa desenvolvida pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que envolveu 880 estudantes do Ensino Médio dos três estados da região Sul do Brasil. O estudo é parte de um projeto da universidade, que tem como foco a aprendizagem experiencial, metodologia educacional que define o aprendizado como o processo pelo qual o conhecimento é criado por meio da transformação da experiência. 

O resultado mostrou que a conexão com os educadores e as atividades fora do ambiente escolar são os elementos que mais impactam os educandos. Já a utilização de tecnologias digitais ficou apenas em sétimo lugar na preferência dos entrevistados sobre o que torna uma aula instigante. Para a gerente de desenvolvimento do ensino da Unisinos, Cristiane Schnack, apesar de o mercado da educação vivenciar um momento de valorização do digital, a escola permanece como um espaço para conexões humanas. 

“A essência de uma boa aula, para os alunos, segue sendo o momento do encontro e da interação com os outros, incluindo o professor. A pesquisa mostra que as novas gerações ainda valorizam conversas e encontros presenciais, desmistificando a ideia de que preferem o contato mediado pelas telas”, aponta. Diante de um cenário repleto de desafios, Cristiane acredita que estes resultados podem ser um lembrete para os gestores escolares da importância de ouvir alunos e professores antes de investir em soluções tecnológicas. 

Para ela, as várias dimensões da tecnologia, especialmente as focadas em aprimorar tarefas do cotidiano docente, devem ser utilizadas, mas é a escuta ativa que fornece pistas cruciais para saber onde devem ir os investimentos financeiros e também de tempo da equipe escolar para que os resultados sejam eficazes. Prova disso é que uma simples mudança de local pode garantir uma aula inesquecível. Cristiane lembra que a pesquisa mostrou que os estudantes valorizam os espaços menos tradicionais, como o pátio da escola ou mesmo uma nova configuração das salas. 

“Sempre digo que as cadeiras não são fixadas no chão e uma simples disposição diferenciada, em círculo ou em grupos, já apresenta novas possibilidades de trocas em sala de aula. O espaço físico também atua como educador”, ressalta Cristiane. 

A arte do encontro

E é dentro desses espaços, independentemente do formato, que o ingrediente principal de uma boa aula fica mais evidente: o encontro. Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Julian Silveira Diogo de Ávila Fontoura destacou que países como a Suécia estão voltando a utilizar livros e cadernos no lugar de dispositivos eletrônicos não apenas para desenvolver habilidades de escrita, mas para intensificar as trocas entre os estudantes. 

Os resultados apresentados pela Unisinos reforçam que esse pode ser o caminho para envolver os alunos não apenas nas atividades, mas na comunidade como um todo. “Os dados mostram que os estudantes desejam o resgate de uma docência artesanal, focada na intencionalidade pedagógica, em que o professor constrói uma relação com cada um deles”, avalia Fontoura. 

Abrir espaço para os encontros humanos, no entanto, não significa que a tecnologia deve ser abandonada. O educador afirma que o melhor caminho é repensar a implementação de plataformas digitais a partir da realidade de cada escola. Só assim é possível que elas entrem na dinâmica escolar como potencializadoras dos processos, permitindo que o professor possa se dedicar ao que mais importa, que é a troca presencial com as turmas. 

“O professor deve dominar o conteúdo, mas também deve reconhecer o aluno para além de um número na chamada, com um olhar atencioso e solidário. É muito importante que as licenciaturas incluam a área das humanidades nos seus currículos, pois a docência é uma formação humana, na qual é preciso estar atento aos fatores externos que impactam a aprendizagem”, orienta.

Leia também:
>>Após um ano sem celular, escolas registram maior interação entre estudantes
>>Escolas investem em arquitetura para fazer dos ambientes parte do aprendizado 
>>Mikaela Övén defende empatia como base da educação de crianças

Inovar com empatia

Se a tecnologia mostrou não ter tanto poder sobre os jovens estudantes para garantir uma boa aula, outro ponto que chama a atenção da pesquisa da Unisinos é a valorização dos professores que imprimem paixão em suas jornadas. Na parte dedicada às respostas dissertativas do estudo, alguns estudantes destacaram que as melhores aulas são dadas por professores que “amam o que fazem”. Apesar de ser uma questão subjetiva, o amor por ensinar é algo que fica evidente em professores que prezam pelo entendimento das necessidades de seus alunos para além do conteúdo. 

O educador e mestre em Educação pela UFRGS, Dyeison Thom, produziu sua dissertação a partir de propostas para o desenvolvimento da competência socioafetiva da empatia entre alunos do Ensino Médio. E o resultado foi que a sala de aula ganha mais significado para estudantes e professores quando se observa o outro com atenção. 

“A empatia é vista como uma inovação maior do que a tecnologia, pois permite o reconhecimento das necessidades do outro e a transformação da perspectiva de como se enxerga a realidade”, afirma o professor. Se inovar inclui investir em uma escola que acolhe, o educador acredita que é preciso cativar o aluno para garantir uma abertura que leva a um caminho de desenvolvimento do pensamento crítico e de atenção para as realidades que os cercam. Em uma sociedade em que o acesso à informação tornou-se muito maior, é preciso direcionar ainda mais os estudantes para pensarem sobre o conteúdo que consomem. 

Ao evocar o clássico O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, Thom lembra que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” — um princípio que, para ele, define a essência das trocas no ambiente escolar. “O papel do professor evoluiu de alguém que professa o conhecimento para alguém que traduz a teoria e facilita a construção de sentido em uma comunidade, que é a sala de aula. Nenhuma inovação substituirá o olhar atento, acolhedor e inspirador do professor, que serve como referência de pessoa”, ressalta. 

TAGS





Assine nossa newsletter

E fique por dentro das novidades