Entre algoritmos e humanidade: o que a IA já ensina às escolas

Neste artigo, Carine Fernandes analisa os debates sobre inteligência artificial na comunicação e na educação com foco nas competências humanas

Carine Fernandes, jornalista, mestre em Comunicação e assessora de comunicação do SINEPE/RS
imagem: Divulgação Find

Há alguns anos, falar em inteligência artificial parecia um exercício de futurologia. Hoje, ela já reorganiza rotinas, redefine profissões e provoca mudanças profundas em áreas tão distintas quanto marketing, comunicação e educação. Nas últimas semanas, tive a oportunidade de participar de dois eventos que, embora voltados para públicos diferentes, dialogaram de forma muito complementar sobre esse novo cenário: o FIND – Fórum do Mercado e da Indústria Digital 2026, produzido pela Anamid, em Porto Alegre, e o Summit IA, da Bett Brasil, em São Paulo, voltado ao impacto da inteligência artificial na educação.

Saí dos dois encontros com a sensação de que estamos vivendo uma mudança muito maior do que a chegada de uma nova tecnologia. O que está em curso é uma transformação cultural — e talvez até cognitiva — que exige das escolas algo além de ferramentas: exige reflexão, posicionamento e intencionalidade.

No FIND, uma das frases que mais ficou ecoando foi: “mudança não é mais decisão estratégica, é sobrevivência”. A provocação apareceu logo nas primeiras palestras e sintetizou o espírito do evento. Não se tratava apenas de aprender prompts ou descobrir novos aplicativos de IA. O debate girava em torno de como organizações precisarão rever sua cultura, seus processos e sua forma de pensar para continuarem relevantes.

Foi interessante perceber que, no marketing, o discurso já parece ter superado a fase do encantamento inicial com a tecnologia. Em vez de perguntar “como usar IA?”, os profissionais já discutem “como usar sem perder autenticidade?”. Em um cenário em que todos têm acesso às mesmas ferramentas, o diferencial volta a ser profundamente humano: repertório, criatividade, pensamento crítico e capacidade de fazer boas perguntas.

Esse ponto apareceu repetidamente nas falas dos palestrantes. Houve alertas sobre o “modo zumbi” em que muitas pessoas estão entrando, consumindo conteúdos superficiais, buscando atalhos e terceirizando o próprio pensamento para as máquinas. Em um dos painéis, ouvi algo muito potente: “A IA entrega soluções. O ser humano precisa continuar sabendo identificar os problemas”. Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes para as escolas. 

Enquanto o marketing já vive uma corrida acelerada por produtividade, velocidade e automação, a educação parece estar diante de um desafio ainda mais complexo: formar seres humanos capazes de não se tornarem dependentes cognitivamente dessas tecnologias. No Summit IA, promovido pela Bett, esse debate apareceu de forma muito forte. O evento trouxe menos euforia tecnológica e mais preocupação com os impactos humanos, emocionais e pedagógicos dessa revolução.

Enquanto o FIND discutia como as marcas precisam fugir dos conteúdos genéricos produzidos em massa pela IA, o Summit IA reforçava a necessidade de as escolas desenvolverem nas crianças e adolescentes as competências que, no futuro, serão justamente o que os diferenciará das máquinas.

Em vários momentos, a palavra “pensamento crítico” apareceu quase como um mantra. E isso faz muito sentido. Se antes o desafio era acessar informação, agora o desafio é discernir, saber filtrar, interpretar, questionar, conectar repertórios, fazer contrapontos e perceber intencionalidades.

Um dos debates mais interessantes do Summit abordou justamente os riscos de tratarmos a IA como uma “mágica que dissolve na água”, sem ensinar alunos e professores a compreenderem como esses sistemas funcionam, quais interesses existem por trás deles e quais impactos geram na sociedade.

Esse ponto, aliás, merece muita atenção das escolas, porque existe um risco real de que a discussão sobre IA nas instituições de ensino fique restrita apenas ao ganho operacional: criar provas mais rápido, planejar aulas em menos tempo, automatizar tarefas ou acelerar processos de comunicação. Claro que tudo isso importa. E os ganhos são reais. Mas a pergunta central talvez seja outra: estamos formando alunos apenas para usar IA ou para conviver criticamente com ela? 

Ao mesmo tempo, ignorar a IA também não parece uma opção viável. Os dois eventos deixaram claro que essa transformação será irreversível. A questão já não é mais “se” a inteligência artificial fará parte das escolas, mas “como”. E talvez esteja justamente aí a principal responsabilidade das lideranças educacionais neste momento. Isso porque implementar IA sem reflexão pedagógica pode ser tão perigoso quanto rejeitá-la completamente. 

A tecnologia avança em velocidade impressionante. Mas os debates mais relevantes que ouvi nesses dois encontros não eram sobre ferramentas. Eram sobre humanidade, sobre o que continuaremos valorizando quando tudo puder ser automatizado, quais competências continuarão sendo essencialmente humanas. E, principalmente, sobre qual escola queremos construir nesse novo tempo.

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