“O desenvolvimento do cérebro depende da interação”, diz André Palmini
Neurologista alerta para os riscos do uso excessivo de telas, que substitui atividades fundamentais como vivência em grupo e leitura
Momentos de (merecido) descanso para os pais podem custar caro se a solução encontrada estiver nas telas. O processo de recompensa imediata oferecido por filmes, desenhos animados ou jogos, por exemplo, causa sérios danos à capacidade de concentração e aprendizado de crianças e adolescentes.
O médico André Palmini, referência na área e chefe da Neurologia do Hospital São Lucas da PUCRS, foi convidado para falar sobre o assunto no Colégio Farroupilha. A palestra “O impacto do uso de telas no desenvolvimento do cérebro da primeira infância à adolescência” integrou a programação oficial da Brain Week, que, ao longo de uma semana, promove encontros e diálogos, unindo ciência e sociedade para falar sobre o cérebro e suas nuances.
Palmini subiu ao palco no dia 2 de junho, em atividade que contou com transmissão ao vivo pelo YouTube. Diante de uma plateia de estudantes e responsáveis, além de educadores e gestores educacionais, o neurologista apresentou exemplos, estatísticas e analogias que ajudam a entender o quão séria é esta questão para a sociedade, como um todo.
Antes disso, ele atendeu Educação em Pauta para uma conversa sobre o uso de telas e outros desafios que chegam à sala de aula. “Uma das questões do mundo moderno é o fato de que muitas das interações sociais estão ficando terceirizadas para telas”, alerta. Confira a entrevista na íntegra:
Quais são os maiores “vilões” da aprendizagem de crianças e adolescentes na sociedade contemporânea?
Uma das coisas que me interessam bastante é a questão de quanto as telas, hoje, estão roubando tempo de coisas preciosas para o desenvolvimento da criança e do adolescente, além da capacidade de memória e aprendizagem. É muito importante não colocar a tela como única vilã, mas ela acaba concentrando algumas coisas.
Sabemos que o desenvolvimento do cérebro só termina por volta dos 20 anos, então todo o processo de relações sociais, o quanto as pessoas leem e se dedicam ao aprendizado durante esta fase, impacta na capacidade de aprendizagem. Mas, antes disso, precisamos entender que existem três grupos.
Um deles é o das pessoas que trazem algum tipo de questão neurológica — por condição genética ou falta de oxigênio no parto, por exemplo. Tem um segundo aspecto, que são alguns tipos de entrave, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que interferem, mas têm tratamento.
Já o terceiro grupo é o das pessoas que não têm nenhuma lesão ou distúrbio, mas acabam sofrendo interferência no desenvolvimento cerebral e, por consequência, no aprendizado, graças ao empobrecimento da interação com outras crianças e com os pais. Essa interação é importante, mas fica menor porque está todo mundo nas telas. O tempo que a criança dedica às telas, e não às outras coisas, interfere no seu desenvolvimento.
Como a dificuldade de aprendizado se manifesta?
Uma das questões do mundo moderno é o fato de que muitas das interações sociais estão ficando terceirizadas para telas. O desenvolvimento do cérebro humano depende da interação quando criança e adolescente. Mesmo que esteja vendo um desenho animado, o número de palavras que ela ouve é cinco vezes menor [em relação à interação humana].
Como o cérebro vai se desenvolvendo a partir dessas trocas com o ambiente, funciona mais ou menos como se fosse um chef de cozinha: quando ele chega, os ingredientes estão todos lá, mas podem render um salmão na brasa, um sushi de salmão ou um ceviche; se tem carne, pode fazer comida oriental, churrasco… Ou seja, o que a pessoa faz com os ingredientes depende do que ela quer comer; o que se faz com o cérebro depende das interações que ele tem, do quanto a criança conversa, brinca.
Com uma brincadeira, por meio de interações e pela leitura, ela desenvolve a imaginação e a linguagem. A riqueza do vocabulário depende do quanto ela lê. É importante enfatizar muito isso: uma das grandes perdas com as telas é que elas ocupam o tempo da criança por serem uma coisa mais imediatamente recompensadora. Nosso cérebro é feito para repetir tudo que dá prazer e satisfação, e as telas são prazerosas.
Quando adolescente, eu lia muitos livros. Hoje é difícil encontrar um adolescente que esteja lendo um livro de ficção, por exemplo. Nem o mínimo para fazer uma ficha de leitura. Acontece um empobrecimento de estímulos ao cérebro, impactando no aprendizado.
As telas e redes sociais também são apontadas como vetores de ansiedade, um problema cada vez mais identificado na sociedade. De que forma as crianças e adolescentes são afetados?
A questão emocional é bem importante porque a criança tem de estar tranquila – como qualquer pessoa precisa. As redes sociais, especialmente em crianças e adolescentes, começam a trazer vários tipos de comparações: “o outro é melhor”, “foi convidado para uma festa”…
Isso interfere muito, especialmente em crianças com maior vulnerabilidade emocional. Essa interferência emocional é um problema sério porque gera uma inevitável trava do aprendizado. Não quer ir [a determinada atividade], ou quer ir, mas sempre pensando em alguma coisa que leu, que falaram dela etc.
Outro aspecto dessa questão é que ninguém gosta de coisa chata, porém muitas coisas “chatas” são necessárias. Não tem nada de errado a criança achar um saco ficar na aula de alguma coisa, mas é necessário. E o nosso cérebro vai desenvolvendo estruturas e conexões que permitem que regulam nosso comportamento em todas as circunstâncias, especialmente quando algo nos traz alguma frustração.
O guri quer jogar bola, mas ainda tem aula. Ele não aguenta mais, mas o cérebro vai se desenvolvendo na direção de um processo que amadurece estruturas que permitem que a pessoa se regule, tolere essa espera. Essa capacidade de regulação começa em casa, quando a criança está com vontade de um prazer e é preciso frustrá-la para ela entender que dá para viver adiando a recompensa.A tela acalma as crianças e, assim, tira uma coisa fundamental para o desenvolvimento infantil, que é quando ela se frustra e demonstra frustração. Ela tem que poder seguir frustrada; os pais precisam aprender a manejar, esperar a hora. É como colocar um pouco mais de valor em áreas do cérebro que são fundamentais para viver em sociedade. Tu já viste, com certeza, uma criança berrando; o pai dá a tela e ela para. Isso é muito ruim, pois priva a criança de uma experiência de frustração que é importante.

O uso excessivo é prejudicial, mas a familiarização com a tecnologia é essencial. Como as escolas e as famílias podem encontrar o equilíbrio do uso do digital por parte das crianças e adolescentes?
Existem algumas coisas importantes. Uma delas é a tela ser vista como uma das atividades do dia que têm o seu tempo. Assim como tem tempo para dormir, para atividades escolares, brincar, alimentar e interagir com os pais, também tem um tempo para a tela. Ela tem de ser integrada no dia, não a atividade da criança quando não está no colégio, ou que rouba o sono à noite. Isso, por si só, já é uma regulação.
A segunda coisa é entender que aquilo é prazeroso para a criança, mas é uma conquista porque ela também está fazendo as outras coisas. Está lendo, fazendo os deveres, conversando com a família, então pode brincar com a tela – como antigamente fazia o tema e podia brincar, jogar bola.
Quanto ao conteúdo, tem de ser realmente policiado, os pais estarem a par do que seus filhos veem na internet. O tempo, o conteúdo, o fato de que a tela encaixa em um conjunto de coisas, em que também entra a tela, mas não apenas. Isso são recomendações principais. Outra indicação é que os momentos de tela ocorram junto com o adulto, aproveitando para uma interação.
E existe o uso com fins educativos, com coisas importantes para crianças com atraso do desenvolvimento de fala, por exemplo. Por isso, não se trata de uma demonização, mas de uma inserção, um movimento proativo em que criança, adolescente e adultos resgatem o que a tela tem roubado: tempo de leitura e interação social.
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Além das telas, a automatização de processos no dia a dia pode atrofiar nossa capacidade de pensar? O que fazer para evitar ou frear esse fenômeno?
Não existe evidência científica de que, tendo uma máquina calculadora, fiquemos piores em matemática. O que importa é que a criança, quando aprendeu matemática, se dedicou a isso e não que usava a máquina o tempo todo. É preciso ter as bases do conhecimento e usar a tecnologia como algo que facilita o dia a dia. Ninguém vai deixar de usar a inteligência artificial (IA). Antes eu tinha que anotar, prestar metade da atenção no paciente e outra metade na anotação. Agora, um software transcreve a consulta, registra a história clínica; basta que o paciente relate.
No entanto, usar a tecnologia é diferente de depender da tecnologia. Isso sim é muito ruim. Quando abre mão do aprendizado formal, como não precisar mais saber fazer conta, aí sim está empobrecendo uma coisa fundamental no cérebro, que é aprender operações aritméticas. Pode ficar ainda pior se as pessoas pararem de ler, de aprender operações, de escrever bons textos porque a IA escrever por elas. Uma coisa é saber e de repente ter a IA que ajuda; outra é depender da tecnologia para isso.
O cérebro é altamente influenciado pelas emoções e pela motivação. Como a escola pode trabalhar esses aspectos de forma constante e consistente?
Aqui aparece o papel do educador como motivador e como alguém que os estudantes podem admirar; entra uma tarefa do professor de tentar ser uma pessoa que transmita o conteúdo de uma maneira competente e engajada com o aluno. Existe uma função cerebral que é a teoria da mente – inclusive, é um nome estranho para uma função.
A teoria da mente consiste na capacidade que temos de imaginar o que está passando pela mente do outro e, a seguir, ajustar nosso comportamento de acordo com o que a gente imagina que o outro possa estar pensando. O professor precisa sempre sentir o grupo de alunos e colocar de uma maneira mais interessante. Aí entra o papel do professor. Especialmente fazer de uma forma, com um nível de dedicação, que a criança e o adolescente o admirem, porque a motivação da criança aumenta.
Vivemos dias em que as crianças, desde cedo, têm uma agenda repleta de compromissos. Como ter equilíbrio?
Tudo que é em excesso é ruim. Essa é mais uma das coisas que são ruins. Tem pais que acham que a criança estar exposta a atividades é o mais importante. Algumas crianças são, literalmente, mais ocupadas do que um adulto. Na minha opinião, não é uma coisa bacana.
Tem de haver tempo para brincar, interagir com os pais, que não seja indo de uma atividade para outra. Os pais têm de identificar as coisas de que a criança gosta mais – sempre que possível, alguma atividade esportiva, que é importante para interação, também. E talvez alguma atividade de música ou outro idioma.
Algumas crianças precisam muito mais, em função de alguma dificuldade, de atendimento de pedagogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional; isso tudo também é tempo. Mas uma coisa é a reabilitação neurológica, outra coisa são crianças que não precisam e os pais colocam em 10 ou 15 atividades. Isso tira tempo para duas coisas: brincar e ler. As crianças precisam retomar o gosto da leitura, uma coisa que acabou. Senão, ela chega em casa cansada, come, toma banho e dorme. Não vai interagir nem ler.
Cada indivíduo dá sinais do quanto pode suportar?
A criança começa a ficar mais irritada, pode interferir no aprendizado, ficar mais ansiosa, comer muito porque está ansiosa, ganhar peso, apresentar alteração metabólica. Frequentemente, as crianças dão algum tipo de sinal, mas é importante que os pais evitem colocá-las sob esse tipo de estresse.
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