Design de experiência pode transformar a gestão e o cotidiano escolar
A metodologia usa o foco no ser humano para integrar espaços físicos, escuta ativa e planejamento pedagógico
Ao se referir ao design de experiência, a associação imediata costuma ser feita com telas de smartphones e interfaces de aplicativos. O conceito consiste na criação de produtos, serviços ou ambientes voltados a tornar a interação humana mais prática e engajadora. Contudo, essa premissa tem se expandido para além do universo dos softwares, alcançando outras esferas, com destaque para a educação.
Nas escolas, o design centrado no humano passou a ser adotado como uma potente ferramenta de gestão estratégica, capaz de reconfigurar a relação entre pessoas, espaços, tempos e pedagogia. De acordo com o Mapeamento de Inovação na Educação, realizado pelo Instituto Porvir, em parceria com o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), abordagens fundamentadas nestes conceitos estão presentes em mais de 35% das escolas brasileiras que declaram adotar práticas inovadoras. A metodologia é utilizada principalmente para redesenho de espaços, construção de Projetos de Vida e resolução colaborativa de conflitos na gestão escolar.
Longe de ser uma mera camada estética para tornar a escola visualmente mais atraente, o design compreende a instituição de ensino como um ecossistema complexo. A chegada do aluno no portão, a organização das classes nas salas de aula até o formato da reunião de pais e professores deixam de ser eventos isolados e passam a integrar uma jornada dotada de intenção.
O professor e pesquisador na área de Design Estratégico da Universidade do Vale do Sinos (Unisinos) Gustavo Borba destaca que o ponto de partida é reconhecer que a experiência acontece independentemente de ser planejada, mas que desenhá-la com intencionalidade transforma o aprendizado. “Existe uma lógica na perspectiva do design estratégico, que é a construção de uma experiência significativa. Então, partindo do princípio de que o aluno vai viver isso dentro ou fora da sala de aula, todos esses espaços deveriam ser projetados para facilitar a interação entre pessoas e, a partir disso, o aprendizado”, afirma.
Gustavo Borba recorre ao conceito do autor Bruce Mau, apresentado no livro The Third Teacher (O Terceiro Professor, em tradução livre), que posiciona o espaço físico como um agente educativo de igual relevância à escola e à família, podendo facilitar ou até dificultar o aprendizado. Ele afirma que um espaço onde as cadeiras estão todas enfileiradas e o professor está localizado em frente aos alunos prioriza um tipo de aprendizagem relacionado à escuta e à assimilação expositiva, um modelo presente na grande maioria das escolas. “Um espaço flexível, em que eu possa organizar uma roda e pegar a opinião dos alunos, já traz outras possibilidades para o professor e para os estudantes”, salienta.
Um dos grandes trunfos da aplicação do design de experiência na educação reside no uso da empatia e da cocriação. Em vez de projetar soluções unilaterais para a comunidade escolar, a metodologia propõe construir em conjunto com ela. Essa mudança de postura impacta diretamente o acolhimento de alunos neurodivergentes e o respeito aos diferentes estilos de aprendizagem.
“A gente pergunta pouco aos alunos o que eles precisam, do que eles gostam. O espaço da aula não tem que ser um espaço só lúdico e totalmente divertido, mas é fundamental escutar as preferências dos estudantes para, junto com gestores e professores, projetar esses espaços de maneira coletiva”, defende o professor.
O pesquisador complementa que a inclusão exige olhar para todos os espaços da escola, oferecendo possibilidades de locais para descanso, construção, assimilação e reflexão. Essa perspectiva está presente na prática pedagógica do Colégio Israelita Brasileiro (CIB), em Porto Alegre. A diretora pedagógica da instituição, Márcia Terres, explica que o termo precisa ser desvinculado da superficialidade digital para alcançar os modos de agir e conhecer. “Design de experiência envolve compreender como as pessoas percebem, sentem e atribuem significado às diferentes interações ao longo de um percurso”, comenta.
Para Márcia, cuja tese de doutorado aprofundou a Cartografia de Projetos de Aprendizagem fundamentada no design estratégico, a escola deve ser lida de maneira integrada, já que a sua experiência resulta da qualidade e da coerência das relações estabelecidas entre os espaços e experiências dentro da instituição. Ela explica que a rotina de uma família com a escola é costurada por dezenas de “pontos de contato”, que incluem o aplicativo de recados, a lição de casa e a entrada e saída da escola. Quando estes pontos funcionam de forma desconectada, o estresse e o ruído de comunicação tornam-se inevitáveis.
Ao mapear essa jornada com as lentes do design, a gestão escolar consegue identificar onde estão os gargalos e as angústias, construindo fluxos baseados na clareza e na previsibilidade. “Uma experiência mais fluida é aquela em que a família compreende o que está acontecendo, sabe a quem recorrer, recebe informações no tempo adequado e encontra coerência entre o que a escola comunica e o que efetivamente realiza”, detalha.
A diretora pedagógica pondera, contudo, que uma experiência menos estressante não é sinônimo de uma escola sem cobranças ou limites. O papel do design não é tornar cada interação agradável, mas assegurar que ela seja compreensível, coerente, respeitosa e compatível com os valores e os propósitos educativos da instituição.
Não são apenas os estudantes que se beneficiam de uma instituição que investe em design de experiência. Ele atua diretamente na gestão do trabalho pedagógico, reconhecendo que a docência exige tempo institucional para pesquisa, escuta e projetos.
Antes de falar em planejar a experiência do professor, Márcia orienta que é preciso criar condições que permitam a sustentação do trabalho dos educadores, já que a experiência profissional não pode ser inteiramente prevista e o bem-estar docente depende de múltiplos fatores. “Cabe à instituição organizar tempos, relações, recursos e processos que favoreçam um exercício profissional com clareza, apoio e sentido”, pontua.
Gustavo Borba indica que essa mudança de mentalidade coloca o professor no papel de um verdadeiro “projetista” de realidades, em parceria contínua com os alunos. “Ele projeta o espaço, a aula, o semestre, o ano. Só que a grande questão é que a gente tem que projetar com o outro. É impossível projetar algo para alguém se tu não conheces aquela pessoa. O primeiro passo é construir dentro das escolas espaços de escuta coletivos e que aproximem as pessoas“, reforça.
O design de experiência deve dialogar com a identidade histórica e os valores fundamentais de cada instituição. No Colégio Israelita, por exemplo, Márcia Terres explica que a abordagem conecta-se diretamente ao conceito judaico de Tikun Olam, a responsabilidade humana de reparar e transformar o mundo por meio de ações concretas. “Não basta que os valores estejam declarados em documentos. O design nos ajuda a reduzir a distância entre aquilo que afirmamos como valor e aquilo que estudantes, educadores e famílias experimentam no cotidiano”, diz.
Para os gestores educacionais que desejam iniciar a implementação dessa cultura em suas escolas um alerta: não se deve começar comprando fórmulas prontas, metodologias importadas ou focando apenas em ferramentas estéticas. Antes de escolher uma experiência, uma ferramenta ou um método, Márcia direciona que o primeiro movimento deve ser compreender se o design de experiência e suas premissas são compatíveis. “O gestor precisa entender que princípios orientam a escola e de que maneira essa abordagem pode dialogar com eles”, orienta.
O futuro das instituições a partir da presença do design de experiência é promissor, segundo Gustavo Borba. Ele sintetiza que a diferenciação e a evolução das escolas vão passar, inevitavelmente, pela capacidade de gerar valor humano e significativo em cada interação. “Desenhar a experiência pode promover um reconhecimento de uma vivência significativa e diferente daquela escola. À medida que eu consigo construir isso, tenho a possibilidade de ter algo que os outros não têm e que deve impactar nos indicadores”, finaliza.

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