Alfabetização: um mundo a ser descoberto
Quando falamos em alfabetização, podemos perceber que, ao longo dos anos, ela foi alvo de inúmeras controvérsias teóricas e metodológicas
Cassiane Andreazza Visoná, professora do 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio Madre Imilda – Caxias do Sul – RS
Partindo do princípio que fazemos parte de um mundo que passa diariamente por constantes modificações, desafiando a potencialidade do ser humano enquanto pessoa, sujeito de suas descobertas e capaz de superar seus limites, a educação e principalmente, a fase da alfabetização, vem agregar a constante certeza de que a base de um cidadão atuante em sociedade, vem da educação que lhe é proporcionada através do meio no qual está inserido.
Quando falamos em alfabetização, podemos perceber que, ao longo dos anos, ela foi alvo de inúmeras controvérsias teóricas e metodológicas, tudo isso vinculada a uma concepção de alfabetização segundo a qual, a aprendizagem inicial da leitura tinha como foco fazer o aluno chegar ao reconhecimento das palavras e ao domínio das correspondências fonográficas. Tratava-se de uma visão da aprendizagem que era considerada de natureza cumulativa, baseada na cópia e na repetição. A ênfase era nas associações e na memorização, pois se desconhecia a importância de a criança desenvolver a sua compreensão do funcionamento do sistema de escrita e do seu respectivo uso.
A partir de 1980 a alfabetização escolar no Brasil começou a passar por novos questionamentos, se buscava novas concepções de alfabetização. Pesquisas emergentes e as novas concepções teóricas adotadas, deram margem a modelos pedagógicos diferenciados.
Hoje, entendemos a alfabetização, de uma forma mais ampla, assim, não podemos esquecer do termo letramento, esses, são dois conceitos muito importantes da educação que envolvem a linguagem, cada um tem seu papel e importância no processo de aprendizagem e devem ser trabalhados de forma paralela.
O Letramento é a habilidade de ler e escrever de acordo com o contexto das práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita, segundo Magda Soares, “é o conjunto dos conhecimentos, atitudes e capacidades envolvidos no uso da língua em práticas sociais e necessárias para uma participação ativa e competente na cultura escrita”, sendo uma construção permanente.
Já a Alfabetização diz respeito ao conhecimento e à aprendizagem da escrita alfabética, visando o domínio do sistema alfabético e ortográfico, ou seja, a aquisição do sistema convencional da escrita. Segundo a UNESCO, a alfabetização é “um processo de aquisição de habilidades cognitivas básicas responsáveis por contribuir para o desenvolvimento socioeconômico da capacidade de conscientização social e da reflexão crítica com base de mudança pessoal e social”.
Dessa forma, percebemos que a alfabetização ensina a codificar e decodificar o sistema de escrita, enquanto o letramento ensina a dominar e utilizar a linguagem na prática social, pautando-se na linguagem enquanto produto cultural e social.
Nesse contexto é importante que, no início do processo de alfabetização, seja realizada com os educandos uma avaliação diagnóstica, para saber o que a criança já conhece, ou seja, seus conhecimentos prévios, para poder nortear o trabalho do educador. Essa testagem pode acontecer baseada na teoria dos níveis da psicogênese da escrita de Emília Ferreiro. De acordo com essa teoria, toda criança passa por níveis e/ou hipóteses estruturais e gradativas. São elas: pré-silábica, silábica, silábico-alfabética, alfabética e ortográfica, é importante entender as definições de cada hipótese, para compreender o que cada uma delas representa dentro do processo de alfabetização da criança.
Hipótese pré-silábica: a criança não compreende a correspondência entre a escrita e os sons das palavras, mas elabora hipóteses, utilizando simultaneamente, desenhos e outros sinais gráficos. Silábica: sem valor sonoro, a criança descobre que a escrita está relacionada com as palavras que pronuncia ao falar, supõe que apenas uma letra pode representar as sílabas graficamente; com valor sonoro, a criança se preocupa em colocar uma letra para cada sílaba das palavras, mas agora, que corresponda aos sons contidos nas sílabas.
Silábico-alfabético: ao escrever uma palavra a criança, ora associa a letra a cada fonema da sílaba, ora volta a pensar conforme a hipótese silábica e usa apenas uma letra para cada sílaba da palavra. A alfabética: a criança começa a perceber o princípio alfabético, percebendo unidades sonoras menores do que sílabas, os fonemas, e gradualmente dominam suas correspondências com os grafemas. Na hipótese ortográfica, a criança alcança a capacidade de aplicar corretamente as regras de acentuação e ortografia.
Partindo disso, é fundamental que a criança seja estimulada e desafiada diariamente, descobrindo suas potencialidades através de diversos recursos e incentivos. Outra questão importante é a exploração da consciência fonológica, através dela, a criança percebe os sons da fala e pode brincar com eles, tornando seu processo mais rico e significativo.
A alfabetização, precisa estar permeada de significado, reflete o início de um novo caminho, abordando o processo com caráter essencialmente participativo que oportuniza situações de vivências concretas, em que o aproveitamento da criança é integral, buscando desenvolver habilidades e potencialidades na capacidade de pensar, criar, produzir e principalmente fazer a sua história. “ Por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa. (Emília Ferreiro)
Minha paixão pela alfabetização surgiu, quando fui desafiada a assumir uma turma de 1ª série, ainda no antigo currículo. Ver o nosso agir em sala de aula dar retorno, de uma forma tão alegre, feliz e encantadora, fez toda a diferença, ver cada criança escrever e ler suas primeiras palavras, cada uma dentro do seu tempo e ritmo, ver o olho vibrar de orgulho, a felicidade de cada delas e um, eu “consegui” me enche de amor pelo que faço a cada dia! “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. (Pequeno Príncipe)
Um ensino contextualizado, permeado de significados para o educando é que deve estar presente em sala de aula, trazendo a realidade para ser discutida com a possibilidade de construir um conhecimento conectado com o concreto, ou seja, que o mundo letrado possa ser explorado e traga significado para as crianças no processo de leitura e escrita. Sabemos, no entanto, que não é pela simples codificação e decodificação de palavras que as crianças constroem o verdadeiro significado da leitura e da escrita, pois, palavras são palavras, mas somente são belas e significativas quando colocadas lado a lado, possibilitando infinitas ideias.
Assim, é que devemos oferecê-las às crianças. A função do educador aqui, é ajudar a despertar o interesse, a curiosidade e busca pelo novo, não esquecendo do principal, o afeto entre educador e educando. O vínculo afetivo, a confiança e a segurança, refletem a base para novas descobertas significativas, prazerosas e felizes. “Alfabetizar é abrir asas para cada voo, novas descobertas”. (Eliete Maia)
TAGS
E fique por dentro das novidades