Escola de Veranópolis prioriza bem-estar e saúde mental dos professores

Direção da AVAEC identificou nos docentes o ponto de partida para espalhar bons sentimentos após a enchente de 2024

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Marne Andriotti – SINEPE/RS

Entender a angústia dos colaboradores é um fator importante para promover um ambiente acolhedor e produtivo. No caso de uma instituição de ensino, estimular a convivência harmônica e uma boa condição de trabalho significa garantir que o objetivo principal seja alcançado: a formação integral de estudantes-cidadãos. Ciente disso, a AVAEC, de Veranópolis, lançou um projeto voltado ao bem-estar dos professores no período posterior à enchente que assolou o Rio Grande do Sul em 2024.

Com duas unidades, a instituição tem 575 estudantes matriculados – entre Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e os cursos técnicos em Agropecuária e Enfermagem. Fundada em 1958 como Academia Veranense de Assistência em Educação e Cultura, a AVAEC, guarda um perfil comunitário, estando alicerçada em uma sólida relação interpessoal. Prova disso é que a equipe diretiva mantém olhar atento aos desafios da sociedade, a fim de promover espaços de debate e acolhimento.

Somando tudo isso é que foi criado o projeto “Raízes Fortes, Tempo de Cuidar”, reconhecido com a Prata na categoria Gestão Institucional do Prêmio Inovação SINEPE/RS 2025. A supervisora geral da instituição, Jane Dal Pai Giugno, lembra que o cenário de fragilidade vivido em 2024 tornou evidente a necessidade desse tipo de ação. “A sala de aula se tornou um espaço de múltiplas demandas, exigindo do educador um papel que vai além de ensinar: acolher, orientar, mediar conflitos e lidar com questões emocionais dos alunos, muitas vezes sem ter quem cuide dele”, observa.

Nesse contexto, o projeto nasceu com a proposta de fortalecer o professor, resgatando seu bem-estar – e também para lembrar a todos que cuidar de si é essencial para continuar cuidando do outro. A equipe entendeu que, quando o professor está fortalecido internamente, consegue enfrentar os desafios, sustentar o coletivo e “florescer, mesmo em tempos difíceis”, como define a supervisora.

A iniciativa se estruturou em quatro pilares:

  • Espiritualidade Docente: sentido, presença e cuidado
  • Treinamento de habilidades para a resolução de problemas e também de habilidades socioemocionais
  • “A hora do Eu”
  • Prática esportiva de voleibol para professores

A espiritualidade docente foi promovida por meio de encontros, nos quais os professores puderam sentir o cuidado, a valorização e o apoio durante momentos de estudo e reflexão. A coordenação dos trabalhos ficou a cargo do Centro de Espiritualidade, Psicologia e Bem-viver – Beatitude, que promoveu reuniões trimestrais, com duração de três horas cada, alternando momentos teóricos e de vivência.

O treinamento de habilidades socioemocionais e para resolução de problemas foi embasado na psicologia comportamental e na educação socioemocional. Foram momentos de reflexão, fortalecimento e desenvolvimento das competências emocionais. Os encontros bimestrais também tiveram perfil teórico-prático e foram mediados por uma psicóloga comportamental.

Já a “hora do eu” foi um espaço de escuta e acolhimento de professoras da Educação Infantil e dos Anos Iniciais, onde expressaram suas angústias em relação ao cotidiano escolar. Esse trabalho foi acompanhado por uma psicóloga e psicanalista, que ofereceu orientação e subsídios para qualificar a atuação docente. A dinâmica consistiu em encontros quinzenais, em pequenos grupos, privilegiando a troca de experiências e a reflexão sobre a relação professor-estudante.

Por fim, aquela que talvez tenha sido a atividade mais evidente para toda a comunidade escolar: o voleibol para professores reuniu docentes e funcionários para a prática esportiva, semanalmente (por vezes, a cada 15 dias). Sem prejuízo à importância da atividade para a saúde, é possível afirmar que, na verdade, tratou-se de uma medida essencialmente voltada à socialização. Foram momentos de integração e diversão, que atraíram grande atenção dos estudantes e familiares.

Segundo Jane, os encontros trouxeram maior integração social e fortalecimento de vínculos, repercutindo na renovação de energia, concentração e maior produtividade. “Esse exemplo de autocuidado reverberou positivamente nos alunos, servindo como um exemplo concreto de cuidado consigo. Ao verem seus professores envolvidos em práticas saudáveis, eles perceberam a importância do cuidado com o corpo, do trabalho em equipe e da convivência respeitosa”, relata.


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Adesão da comunidade escolar

A ampla maioria dos educadores e funcionários da AVAEC aceitou participar do “Raízes Fortes, Tempo de Cuidar”. Mais do que a adesão inicial, a permanência nas atividades deixou a gestão da escola bastante satisfeita. Além disso, os estudantes e suas famílias também foram se integrando, paulatinamente, como reflexo dos efeitos positivos causados no ambiente.

A professora Saionara Bataglion Remor conta que uma das atividades mais marcantes foi a que teve os quatro elementos essenciais da natureza como pano de fundo. No encontro, os professores foram conduzidos por um caminho simbólico guiado por água, fogo, terra e ar, cada um associado a reflexões, afetos e práticas de autocuidado.

O fogo representa a paixão pelo ensinar e o entusiasmo que aquece, mas também alerta para os riscos da sobrecarga; a água simboliza empatia, escuta e adaptação; a terra remete ao enraizamento, à organização e ao compromisso; e o ar convida à leveza, à criatividade e à mente aberta. A atividade, segundo o projeto apresentado no Prêmio Inovação, mostrou que a harmonia está na integração desses elementos. “Na vida e na sala de aula, somos água que acolhe, fogo que anima, terra que sustenta e ar que inspira”, indica o documento.

“Os quatro elementos interferem no nosso cotidiano. Talvez absorvidos por uma dinâmica de vida rápida e que nos exige retornos instantâneos para muitas coisas, a gente acaba esquecendo de observar”, reflete Saionara. A espiritualidade, trabalhada em momentos triviais, também marcou a educadora. Paredes com frases motivacionais, espaços para oração de acordo com a fé de cada indivíduo e a percepção contínua de não estar sozinha estão entre os pontos altos lembrados por ela.

Como efeito, ela aponta a repercussão desse ambiente junto aos estudantes e familiares. “A escola oportuniza a vivência da espiritualidade e eles vão desenvolvendo isso. Essa espiritualidade gera respeito entre todos e o ambiente dentro da escola fica muito diferente. Quem visita nossa escola sabe disso”, orgulha-se a professora, que trabalha com educação socioemocional e atendimento de crianças com particularidades de aprendizagem.

Mãe de um menino que estuda na instituição, Saionara diz que percebe os impactos em todas as áreas. “É muito importante e significativo sentir que alguém está preocupado com o nosso bem-estar, independentemente do papel que a gente assume dentro desse processo”, comenta.

O legado, no entendimento da professora, reside na cultura do cuidado de quem está ao lado – seja aluno, educador, funcionário, gestor ou familiar. Esse sentimento tornou-se tão perceptível que, segundo ela, é comum que famílias procurem a escola para matricular seus filhos alegando a humanização como motivador para isso.

Jane concorda que ficou semeada a cultura do respeito às singularidades e da empatia no cotidiano escolar. Para ela, o que fica é a compreensão de que acolher não significa abrir mão de limites, e que cuidar das relações é também cuidar da aprendizagem. “Fica, também, a metáfora de que cuidar do professor é como cuidar de uma árvore: para que cresça, floresça e dê frutos, é necessário fortalecer suas raízes – que precisam ser nutridas, cuidadas e jamais negligenciadas, pois quando adoecem, todo o conjunto enfraquece. Ao cuidar dessas raízes, garante-se não apenas a vitalidade do educador, mas a saúde e a continuidade de todo o ecossistema escolar”, defende.

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