Projeto que ajudou profissionais da educação vítimas da enchente é premiado
Iniciativa do Colégio Farroupilha, de Porto Alegre, foi reconhecida com o bronze na categoria Responsabilidade Social
As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 destruíram casas, fecharam escolas, ceifaram vidas, mas também fomentaram o sentimento de solidariedade na população. Foi assim que nasceu a campanha “Colégio Farroupilha Ajuda”, aliando a força que o nome de uma das mais tradicionais escolas de Porto Alegre carrega ao desejo de ajudar o próximo.
A campanha foi premiada com bronze na categoria Responsabilidade Social do Prêmio Inovação SINEPE/RS 2025. A entrega do reconhecimento ocorreu em dezembro, em solenidade realizada na PUCRS. A controller da Associação Beneficente e Educacional de 1858 (ABE), mantenedora do Colégio Farroupilha, Grace Rodrigues, responsável por escrever, coordenar e executar o projeto, lembra com carinho e emoção daquela noite.
“Quando começou a passar o vídeo do Farroupilha me deu uma crise de choro. Minha boca tremia de emoção. Porque é uma grande oportunidade. A razão da existência do terceiro setor é o amor ao próximo. Essa campanha é o terceiro setor raiz”, comenta.
Grace ressalta que, independentemente de premiação, o simples fato de ter um “palco” para apresentar o projeto já foi extremamente relevante. Segundo ela, a visibilidade permitiu inspirar outras instituições, conhecer diferentes iniciativas e fortalecer a ideia de que todos podem promover ações de impacto social.
Durante as cheias, a comunidade escolar se envolveu intensamente no apoio aos atingidos. Grace conta que foi nesse contexto que um grupo de alunos e pais levou ao conselho da escola a ideia de arrecadar dinheiro via Pix para ajudar na reconstrução de casas.
Após discutirem os processos e recursos para executar o projeto, Grace, que é contadora, sugeriu manter o espírito da iniciativa, mas direcionar as arrecadações para algo mais imediato e funcional: a compra de móveis e eletrodomésticos, já que a maioria das famílias havia perdido esses bens essenciais. A alternativa permitiria uma resposta mais rápida, organizada e assertiva, além de facilitar a logística em um momento em que o acesso a várias cidades estava comprometido.
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Com sua formação em auditoria, Grace elaborou um regulamento rigoroso, com foco em prestação de contas e transparência, garantindo credibilidade e segurança aos doadores de que o dinheiro seria usado corretamente e chegaria a quem realmente precisava. No dia seguinte, foi criada uma conta com uma chave Pix e um formulário de inscrição com critérios bem claros. As pessoas impactadas precisavam informar seus dados, declarar o nível de impacto sofrido e enviar documentação comprobatória. “As pessoas foram bem honestas nos formulários, o que foi bem legal”, comenta Grace.

Também foi preciso delimitar o público-alvo ajudado pela iniciativa. “A nossa vontade era ajudar todo mundo, mas quem faz tudo não faz nada. Então, a gente resolveu atender o público de profissionais da educação básica que foi atingido pelas enchentes. Na maioria, eram professores, mas tinha auxiliar de ensino, merendeira, zelador, auxiliar de limpeza, entre outros”, explica.
O Farroupilha mapeou cerca de 20 profissionais internos atingidos, que foram ajudados com recursos próprios. Já a campanha voltada ao público geral recebeu 600 inscrições, envolvendo profissionais tanto da rede pública quanto da privada. Grace ressalta que houve o cuidado de incluir ambos os setores, combatendo a ideia de que apenas profissionais da rede pública necessitam de apoio, já que as condições de vulnerabilidade podem variar independentemente do tipo de instituição.
“Dependendo da função, do cargo que o profissional tem na rede privada, ele pode receber menos do que em uma outra função na rede pública. Isso não quer dizer nada. E, digamos que seja o mesmo salário, mas o funcionário privado talvez tenha cinco filhos enquanto o público, não. Levamos tudo isso em consideração”, justifica.
Grace explica que essa escolha foi fortemente defendida pela direção da escola, baseada na convicção de que a educação é um pilar essencial para o avanço da sociedade. Com as enchentes, tudo havia parado, inclusive as aulas, e a instituição não queria permitir mais uma interrupção nesse processo, especialmente após os prejuízos pedagógicos já causados pela pandemia. A iniciativa surgiu, portanto, como uma forma de proteger a continuidade da educação e apoiar quem sustenta esse processo.
Para garantir a seriedade e critérios justos na seleção dos beneficiados, foi criado um comitê de crise com viés de auditoria. Esse comitê foi composto por três educadores da escola, de áreas distintas: financeiro, comunicação e segurança do trabalho. A escolha proposital por profissionais de formações e vivências diferentes teve como objetivo garantir diversidade de opiniões, visões e sensibilidades na análise dos casos.
Cada integrante do comitê contribuiu a partir de sua experiência. A profissional da segurança do trabalho esteve fortemente envolvida com o voluntariado no abrigo da sede campestre, trazendo uma visão humana e prática da situação. O responsável pelo financeiro tinha familiaridade com controle de recursos e análise documental, enquanto o profissional da comunicação colaborou diretamente na construção, revisão e divulgação do regulamento e dos materiais no site.
Entre os documentos obrigatórios para ser beneficiado estavam a comprovação de residência, para verificar se o endereço estava em região efetivamente atingida pelas enchentes, e a comprovação de que a pessoa era profissional da educação básica, além do documento de identidade. Os endereços informados foram cuidadosamente cruzados com dados oficiais do governo sobre áreas em situação de calamidade pública, incluindo a verificação por bairros, especialmente em cidades como Porto Alegre, onde nem todas as regiões foram afetadas. Contudo, boa parte dos inscritos não enviou a documentação solicitada corretamente e não pôde ser contemplada.
“Tínhamos que partir de alguma condição e, por isso, priorizamos quem cumpriu a regra. Atendemos 86 famílias, sendo 84 pessoas físicas e duas escolas que foram altamente afetadas, no bairro Sarandi, em Porto Alegre”, comenta.
No total, a campanha arrecadou R$ 235,6 mil, provenientes de doações de pessoas físicas e jurídicas. Grace pontua que, após o prazo final para as inscrições, a equipe entrou em contato telefônico com cada pessoa pré-selecionada para confirmar se a necessidade ainda existia. Passados alguns meses, muitas pessoas ainda precisavam dos eletrodomésticos e móveis solicitados, mas algumas, em um gesto de honestidade e solidariedade, informaram que já haviam conseguido se reestruturar e abriram mão do benefício para que outra pessoa fosse atendida. “Foi trabalhoso, mas extremamente gratificante”, define Grace.
Para dar visibilidade à campanha, o Farroupilha investiu recursos próprios em mídia, com anúncios em jornal impresso, presença na televisão e a produção de um vídeo institucional feito pela equipe de comunicação.
Grace frisa que, embora os alunos não tenham participado diretamente das entregas — decisão tomada por questões de segurança e mobilidade durante o período crítico das enchentes —, houve amplo envolvimento de toda a comunidade escolar. Professores e colaboradores enfrentaram condições adversas, como trânsito difícil e chuvas intensas, para realizar as entregas dos 213 itens adquiridos com o valor arrecadado, como refrigeradores, máquinas de lavar, fogões e camas.

O voluntariado sempre foi uma prática no Farroupilha, mas as ações relacionadas às enchentes potencializaram ainda mais essa cultura. A partir desse movimento, os próprios alunos, inspirados pelas campanhas de arrecadação e ajuda humanitária, idealizaram e criaram a Voluntaria+, uma plataforma que facilita o encontro entre voluntários e ONGs ou instituições que precisam de ajuda no Rio Grande do Sul.
Grace conta que, no desenvolvimento da plataforma, os alunos perceberam que apenas disponibilizar a iniciativa online não era suficiente para gerar engajamento. Eles aprenderam, na prática, que as relações presenciais e o contato direto com as instituições são fundamentais para criar confiança e mobilizar apoio. A partir dessa compreensão, passaram a visitar as organizações, apresentar o propósito do projeto e, então, começaram a receber demandas concretas de ajuda.
A Campanha de Doação de Sangue realizada pela Voluntaria+ em 30 de outubro de 2025 contou com mais de 80 voluntários, salvando mais de 320 vidas. A plataforma também ajudou a União de Cegos do Rio Grande do Sul a atingir e superar a meta de R$ 6 mil arrecadados para aquisição de um móvel para a impressora braille, Índex DV5, garantindo seu uso pleno, seguro e eficiente.
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