Em janeiro de 2025, uma nova lei mudou a rotina das escolas em todo o Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.100/25, que proíbe o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos por alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio em instituições públicas e privadas.
A regra vale para todo o período escolar, incluindo os intervalos e recreios. Mas há exceções: o uso continua liberado para fins pedagógicos, para estudantes com deficiência que precisam do recurso, para questões de saúde ou em casos de emergência.
A ideia da nova medida é proteger a saúde mental, física e emocional dos estudantes, e os especialistas apoiam essa mudança. Pesquisas mostram que 80% dos alunos sentem que o celular atrapalha a concentração, especialmente em matérias como matemática. Além disso, o uso excessivo das redes sociais pode aumentar em 13% o risco de sintomas depressivos ao longo de dois anos.
Leia também:
>> Os impactos da lei sobre o uso de celulares no ambiente escolar
>> O Cérebro Conectado: como as telas estão transformando nossa mente
>> Geração Beta: os desafios de educar estudantes hiperconectados
O Centro de Educação Básica Gustavo Adolfo, em Lajeado, utiliza celulares como ferramenta pedagógica desde 2013, mas com regras claras sobre seu uso em sala de aula: os aparelhos não saem das mochilas sem autorização do professor. Esse protocolo robusto para o uso de tecnologias facilitou a adaptação às novas diretrizes. Com a nova lei, a única mudança foi a proibição do uso de celular, o que foi implementado de forma tranquila, com adesão dos alunos e sem resistência por parte dos pais, como conta o diretor da instituição, Edson Wiethölter:
“No início do ano letivo, esse assunto já estava extremamente difundido nos meios sociais, pela imprensa e nós não tivemos problema algum em adequar aquilo que já existia. Ou seja, a única coisa que mudou foi a não permissão do uso de celular no recreio, e os alunos aderiram a isso com total propriedade. Conversamos com eles, debatemos com eles, qualificamos essa normativa e foi extremamente tranquilo, não tivemos nenhuma dificuldade”.
No Colégio Marista Rosário, de Porto Alegre, o uso excessivo de telas por crianças e adolescentes era tópico recorrente de debates, uma vez que pode comprometer o aprendizado e a socialização dos estudantes, prejudicando o rendimento acadêmico, restringindo o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais. Isso colaborou na adaptação à normativa legal:
“A escola considera muito positiva a proibição do uso de celulares durante as aulas. Isso tem ajudado os estudantes a se concentrarem mais, participarem ativamente das atividades e melhorarem seu desempenho acadêmico e suas relações entre os diferentes grupos. Os estudantes rosarienses estão reagindo positivamente à nova regra, uma vez que o Colégio já atuava frente a matéria. Estamos juntos mudando uma cultura. Sempre que há dúvidas, nossos estudantes se reportam aos educadores, seguindo as orientações destes. Lideranças de turma e Grêmio Estudantil têm se engajado em diferentes campanhas, juntamente com a escola”, conta a vice-diretora Educacional, Vivian Bitello Monteiro.
Algumas estratégias
Mas muitas escolas enfrentam o desafio de apoiar os alunos nessa adaptação, que pode ser difícil, já que os dispositivos móveis fazem parte da rotina dos estudantes, tanto para comunicação quanto para entretenimento. No entanto, com algumas estratégias bem planejadas, é possível tornar essa transição mais tranquila e produtiva.
O primeiro passo, segundo a pedagoga Eliege Ribeiro é conversar com os alunos.
“Muitos alunos podem enxergar a proibição como algo negativo. Por isso, é importante que a escola esclareça os benefícios da restrição, como a melhoria na concentração, no desempenho acadêmico e nas interações sociais. Promover rodas de conversa ou palestras sobre o tema pode ajudar a conscientizar os estudantes sobre a importância da medida – sugere.
A pedagoga completa:
“Nesses encontros, pode-se reforçar o uso responsável da tecnologia. O objetivo não é demonizar o celular, mas sim ensinar os alunos a usá-lo de maneira equilibrada. Oficinas sobre o uso saudável da tecnologia, educação digital e até dicas de organização do tempo podem ajudar a construir hábitos mais produtivos”.
Elige acrescenta que os educadores devem estar preparados para orientar os alunos e aplicar a regra de maneira consistente. Além disso, podem aproveitar a mudança para adotar metodologias mais dinâmicas, que envolvam debates, atividades em grupo e outras práticas que mantenham os estudantes engajados sem a necessidade dos celulares.
Além disso, a parceria entre escola e família é essencial para o sucesso da nova regra.
“Os responsáveis podem ser orientados sobre como reforçar os limites do uso do celular em casa e estimular hábitos saudáveis de estudo e lazer”, diz a pedagoga.
Outra estratégia interessante para o “desmame” das telas é criar alternativas de entretenimento nos intervalos. A escola pode incentivar brincadeiras tradicionais, disponibilizar jogos de tabuleiro, estimular atividades esportivas e até criar espaços de convivência para conversas e interações entre os alunos. Esse plano foi adotado pelo Colégio Rosário com muito sucesso.
“Muitos estudantes têm trazido jogos para se divertir juntos, e a escola também disponibiliza espaços como o futebol de futmesa, fla-flu e ping-pong. Além disso, um projeto de esportes e uso da quadra durante o intervalo para promover ainda mais interação está sendo estruturado. Outra novidade é o intervalo musical, no qual oferecemos instrumentos para que os estudantes possam tocar e compartilhar seu talento tornando ainda mais relacionais através da música e da arte. A biblioteca, já era um recurso habitual em nosso espaço. Nos intervalos, está sendo muito mais acessada, aumentando assim o índice de leitura e acesso a diferentes obras. Essas iniciativas visam fortalecer o engajamento, a socialização e o bem-estar de todos”, conta a professora Vivian.
“A adaptação pode levar algum tempo, mas, com estratégias bem planejadas, as escolas podem transformar essa mudança em uma oportunidade para fortalecer a concentração, o aprendizado e as relações interpessoais dos alunos”, finaliza Eliege.
>> E na sua escola, quais práticas estão sendo adotadas para este momento de adaptação?
Envie o relato para o e-mail educacaoempauta@sinepe-rs.org.br
TAGS