Ensino por competência e avaliação contínua: uma formação integral

Como a abordagem baseada em competências prepara os alunos para os desafios da vida e do mercado de trabalho, promovendo um aprendizado alinhado às demandas contemporâneas

por: Tatiana Py Dutra
imagem: FreePik

Preparar os estudantes para o mercado de trabalho – e para a vida – sempre foi um dos maiores desafios das instituições de ensino. Como manter o currículo e as práticas educacionais atualizadas quando as mudanças no mundo vêm acontecendo na velocidade da Inteligência Artificial? O Ensino por Competências (EBC) e a avaliação contínua são caminhos para essas demandas.

Diferentemente do ensino tradicional, em que o professor ocupa o papel central ao transmitir conteúdo, o EBC propõe um equilíbrio entre professor e aluno. O docente assume a função de mediador, planejando e organizando as atividades para que o estudante desenvolva a capacidade de solucionar problemas, promovendo um aprendizado mais significativo e alinhado às demandas contemporâneas.

 “Temos um mercado que nos demanda um sujeito que seja crítico, criativo, inovador, que saiba trabalhar em grupo, um sujeito que saiba produzir mais e diversificadamente e que pense diferente. E é nessa lógica que o Ensino Baseado em Competências chega em um contexto de exigência legal e exigência de mercado de trabalho. A vantagem é que com ele você forma um sujeito protagonista, que faz parte do processo de aprendizagem, é alguém que vai construir junto as soluções para os problemas apresentados”, explica a professora do Departamento de Métodos e Técnicas (MTC) da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Liliane Campos Machado

O EBC conversa com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017 e posta em prática nas escolas brasileiras a partir de 2020. A Base estabelece 10 competências – definidas como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores – que o ajudem a resolver demandas complexas não só na vida acadêmica, mas na vida cotidiana, no pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

O Colégio Farroupilha, de Porto Alegre, desenvolveu sua matriz de competências e habilidades bem antes do surgimento da BNCC, ainda em 2012. De lá para cá, a equipe pedagógica e os professores desenvolveram um sólido know how para o desenvolvimento do corpo discente, constantemente convidado a se desafiar nas mais diferentes disciplinas.

“Há um projeto que nós fazemos, que não é só de matemática, mas da disciplina de empreendedorismo, laboratório maker e biologia também, que chamamos de Pocket Grow. Nele nós apresentamos aos alunos um problema da sociedade, um problema da humanidade e os estudantes têm que desenhar uma ideia de solução. Essa ideia pode ser até um projeto de negócio. Então, quando eles fazem esse desenho, nós avaliamos a capacidade que eles têm de aplicar conhecimentos, conteúdos que foram trabalhados em sala de aula em uma situação real. Assim, avaliamos a capacidade de pesquisa, de expressão oral, de pensamento crítico, de argumentação, de conhecimento teórico e da capacidade de aplicar alguns conceitos na tomada de decisão. No caso da matemática, pode ser fazer um orçamento, que é quando os alunos terão de pensar no custo da solução que desenvolveram e analisar sua viabilidade”, exemplifica o professor de matemática dos 9º anos do Ensino Fundamental do Farroupilha, Rafael Gonçalves Louzada.


Abordagem diferenciada

Desde 2002, o Colégio Leonardo da Vinci adota o ensino baseado em competências em suas três unidades: Alfa, Beta e Gama. A metodologia busca desenvolver nos alunos conhecimentos acadêmicos aliados a habilidades cognitivas, socioemocionais e atitudes essenciais para a vida em sociedade.

A diretora-geral da instituição, professora Márcia Andréa Schmidt da Silva, explica que a abordagem varia de acordo com cada etapa do ensino. Na Educação Infantil, o aprendizado é estruturado a partir dos campos de experiência, combinados com competências transversais e desenvolvimento socioemocional. A organização curricular inclui projetos que preparam as crianças para a construção de conhecimentos significativos desde a primeira infância.

No Ensino Fundamental e Médio, a metodologia é embasada nos quatro pilares da educação para o século 21, estabelecidos pela Unesco: aprender a conhecer,  aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.

O mais importante é oferecer conhecimento científico e acadêmico, aliado ao desenvolvimento de competências cognitivas e habilidades que possibilitem a resolução de problemas”, destaca Márcia.

Habilidades socioemocionais

O desenvolvimento socioemocional é outra preocupação descrita na EBC. Autoconhecimento, compreensão da diversidade humana, empatia, diálogo e cooperação são habilidades desejáveis em qualquer cidadão e a BNCC preconiza que a escola colabore na formação dos cidadãos do futuro.

O Farroupilha também se adiantou à BNCC ao apresentar sua primeira matriz socioemocional em 2017. O documento é baseado em três eixos: identidade, convivência e cidadania. Foi o ponto de partida para uma série de projetos realizados em sala de aula e até de forma institucional para promover o desenvolvimento dessas habilidades nos estudantes.

“Temos, por exemplo, a consultoria de uma universidade de São Paulo em que a gente estuda aspectos relacionados à convivência. E aí nós temos não só formação de professores, mas formação dos estudantes. Como resultado desse intenso processo de estudos nos anos finais, foi criada a disciplina de Ética, Cidadania e Relações Interpessoais em que os alunos [das séries finais do Ensino Fundamental] intencionalmente discutem sobre questões de convivência. Nós temos também um projeto que são as equipes de ajuda, em que os estudantes dão apoio às comunidades”, conta Marília

Avaliação continuada

Nesse contexto de construção de saberes e habilidades, a promoção de uma avaliação contínua é essencial, por permitir um acompanhamento constante do desenvolvimento dos alunos. Diferentemente da avaliação tradicional, que muitas vezes se limita a provas e exames pontuais, a avaliação continuada tem um caráter formativo e diagnóstico, possibilitando intervenções pedagógicas variadas e eficazes ao longo do processo.

“A avaliação deve ser diagnóstica e formativa, possibilitando que o professor compreenda o perfil do aluno e adapte sua metodologia durante o processo. Cada professor vai ter uma estratégia e usar ferramentas diversas, as quais tiver possibilidade e domínio, para entender qual o perfil da turma, quem é o aluno com quem ele vai trabalhar”, explica Liliane.

Nos Colégios Leonardo da Vinci, preza-se por também por uma avaliação contínua e formativa, que ajude o estudante a entender sua própria trajetória de aprendizagem.

Tudo é avaliado: atitudes, projetos, trabalhos e testes. No entanto, a correção das atividades é sempre comentada, seja de forma oral ou escrita, para que os alunos compreendam seus erros e reflitam sobre o processo de aprendizado”, explica a diretora Márcia.

Além disso, a autoavaliação é incentivada como ferramenta essencial para que os alunos identifiquem seus pontos de melhoria e possam aperfeiçoar seus conhecimentos e habilidades.

“Nosso objetivo é proporcionar aos jovens autonomia, protagonismo e confiança para compreender seu lugar no mundo e construir sua trajetória profissional com segurança”, conclui a diretora.

Assessora pedagógica do Farroupilha, Marília Dal Moro Bing defende que as avaliações realizadas ao longo de um processo sejam um combo de instrumentos, desde os formais, como provas, mas também trabalhos em grupo, projetos interdisciplinares, projetos de pesquisa que deem espaço para o aluno investigar, criar e produzir.

“Precisamos ter um amplo leque. Se eu tenho uma habilidade super global, super complexa, na qual o aluno tem que promover uma criação, eu muito provavelmente vou precisar de um instrumento adequado, como um grande projeto, que exija pesquisa ou uma intervenção social, por exemplo. E talvez seja preciso variar o instrumento, não vai poder ser só prova, vamos ter de empregar outras opções para avaliar o crescimento do estudante”, diz.

A professora acrescenta que algumas avaliações se baseiam em observações e checagens de aprendizagem, muito bem documentadas, desde o início de sequência didática até o final desta, quando se verifica se o estudante conseguiu, de fato, desenvolver aquela habilidade.

“Aqui no colégio, temos um processo, uma metodologia, na qual os professores precisam construir mapas de cada instrumento. Eles planejam: ‘neste instrumento eu vou avaliar tais e tais habilidades’, e nós fazemos todo um acompanhamento disso, tanto a equipe pedagógica quanto os assessores de cada área do conhecimento. Eles vão ajudar esse professor a identificar se aquele instrumento está bem equilibrado e se, de fato, aquele item está avaliando aquela habilidade, com a sua operação mental, de acordo com o que foi previsto no currículo”, relata Marília.

O professor de matemática Rafael adotou um processo de avaliação meticuloso e complexo, que inicia com um diagnóstico dos conhecimentos dos alunos antes de começar qualquer conteúdo.

“Esse diagnóstico pode ser obtido com uma lista de exercícios, uma dinâmica, uma atividade, um jogo. Com esses dados, ajusto minhas aulas de acordo com as fragilidades identificadas. Já nas aulas, eu parto para a observação dos estudantes, de seu envolvimento, o desempenho. De novo, faço o registro. Monto listas de exercícios daqueles conteúdos que foram mobilizados para desenvolver novas habilidades e faço uma lista de calibragem. Nessa lista, o próprio estudante preenche um formulário avaliando cada questão como fácil, média ou difícil. Com isso, eu gero um gráfico onde eu identifico a situação de cada um. Eu considero se para um estudante de 9º ano aquela questão deveria ser difícil ou fácil. Assim a gente consegue ver os pontos a melhorar e como ajudá-los, tanto sala de aula, como com material complementar com vídeos, lives de revisão etc. Só aí vem a avaliação formal”, explica.

O investimento da escola

Promover essa pequena revolução no processo educacional exigirá bastante de todos os participantes. A começar pela escola, que poderá precisar investir em infraestrutura e equipamentos para desenvolver essa abordagem.

Conforme a professora Liliane, a tecnologia é uma grande aliada nesse modelo educacional, embora não seja uma exigência para a implementação do ensino por competência. Porém, ferramentas digitais, como softwares educacionais, podem ser empregados para aprimorar e potencializar estratégias pedagógicas.

“Pós-pandemia, é raro o professor que não utilize alguma ferramenta, um software ou uma estratégia pedagógica que não conte com a questão tecnológica. Alguns softwares que poderiam facilitar, como Mentimeter e outros tantos que estão postos no mercado de domínio livre ou alguns com licenças pagas. Mas não é uma condição sine qua non. E o uso eficaz também depende muito do domínio que o professor tem da ferramenta, quer seja como produto, quer seja como processo, para utilizá-la e pensá-la no seu planejamento, na sistematização da sua aula e no seu processo de mediação pedagógica”, esclarece.

A fala da professora da UnB traz à tona outro importante investimento da escola: a preparação dos professores para transformar teoria em prática, medir desempenhos, ajustar aulas e conteúdos e ajudar os alunos a atingir os objetivos pela matriz curricular. 

A Escola de Professores Inquietos é uma das ferramentas do Colégio Farroupilha para a formação continuada de professores. Por meio dele, são criados grupos multidisciplinares que pensam nos processos formativos a partir de troca de experiências, na aprendizagem por pares, cursos, seminários, formações online e presenciais. Também na intenção de habilitar os professores, a escola também construiu a matriz de competências e habilidades do professor. O documento estabelece o perfil de professor desejado, mas não só isso: propõe diretrizes para acompanhamento personalizado e feedback das atividades do profissional, incentivando-os ao uso e desenvolvimento de metodologias ativas e criativas.

Como as duas faces de uma mesma moeda, o ensino baseado em competências apresenta vantagens e desafios, igualmente grandiosos, avalia a assistente pedagógica Marília.

“Um desafio é o tempo. Quando vamos trabalhar de fato com um currículo por habilidades não se pode ter pressa. Não posso sair correndo da sala porque preciso dar a próxima aula em outra turma. O trabalho de observação e avaliação que o Rafael descreveu, para entender o que os alunos precisam e desenvolver propostas de acordo com seus interesses, leva tempo. E dá trabalho. E colocar isso em prática é um investimento que deve ser feito de forma institucional, porque os professores precisam de tempo para trocar, ter apoio, recursos para dar conta desses desafios, avalia.

Contudo, por sua característica inerente de promover habilidades como senso crítico e capacidade de resolver problemas, a professora garante que não há “ outra forma de educar para o mundo contemporâneo”.

“A resolução de problemas é o cerne da proposta de trabalho com habilidades, porque estamos o tempo todo usando conhecimentos para resolvê-los. Mas se queremos educar para o mundo, se estamos pensando em uma educação onde queremos fazer algo com propósito, eu preciso ter esses estudantes fazendo algo com conhecimento, não somente decorando, memorizando. É preciso passar por vários níveis de pensamento complexo para criar, propor soluções para o mundo, para os desafios globais. Vejo que só o ensino de competências e habilidades desenvolve o cidadão que a gente precisa para o futuro: que impacte positivamente a sociedade”, finaliza Marília.

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