Os limites invisíveis entre a família e a escola, na educação contemporânea
Alusivo ao Dia da Escola, a psicopedagoga Isabel Parolin discute o impacto das tecnologias na vida dos jovens e a necessária parceria entre o lar e o ensino

Isabel Parolin, pedagoga, psicopedagoga, com atuação clínica e consultora institucional de escolas públicas e privadas em todo o Brasil
“Ah é! Você não vai me obedecer? Então tá, o problema é seu. Você é quem sabe!”
A sociedade contemporânea perdeu o conceito do que sejam infâncias, em sua multiplicidade de modos de vivê-las. Estabelecem relações ignorando que uma criança está em formação, em desenvolvimento e que a compreensão da repercussão de cada gesto, na maioria das vezes, está distante da capacidade compreensiva dela.
Os adultos, que deveriam ser os educadores dessas crianças, esgotados na tarefa cansativa de serem empreendedores do seu sucesso e sustento, acabam deixando o que é importante e agindo na urgência, que a vida cotidiana clama.
Esse cenário social, o qual Byung-Chul Han chama de “Sociedade do Cansaço”, constitui-se de pessoas que caíram na armadilha da busca do desempenho, da necessidade de produção e da eficiência (empreendedores), levando-as à exaustão crônica e ao esgotamento (burnout).
Distraídos, apressados e pressionados por modelos inalcançáveis (Instagramável de vida perfeita e feliz), buscam respostas que possam explicar o inalcançável modelo no cotidiano, sobretudo na escola, em que a vida urge em necessidades extremas, tornando o viver e conviver fonte de frustrações e de medicalização da vida.
Normaliza-se a busca por diagnósticos e medicamentos, que possam aliviar o cotidiano, justificar as ações que emergiram da urgência, sem a necessária reflexão na direção de entender as repercussões das medidas escolhidas. Torna-se, portanto, “normal” a profusão de pessoas que aliviam o peso do viver e conviver, sem o necessário “sentipensar”, que, em verdade, são repercussões do estilo de vida da família e da comunidade adotados, inconscientemente, no frenesi da vida.
“Eu não aguento ficar levantando pra ver se ele desligou o celular e acabo dormindo.”
‘Eu jogo à noite com meus amigos porque é a hora que todos podem. Meus pais me enchem, eles não me entendem.”
“Olhando no resumo de atividades dela, vi que ela ficou até 4h da manhã conversando com as amigas. Desisto, não tenho mais paciência.”
O uso intenso e inadequado das tecnologias e das redes sociais usadas como busca de relaxamento, distração, entretenimento e pertencimento transforma os aparelhos celulares em uma armadilha, gerando, além de dependência, fadiga crônica, distrabilidade e distanciamento afetivo.
As famílias cedem à pressão e acabam tornando o presente-celular uma “autorização” para um mundo no qual os adultos não conseguem alcançar e as crianças e os jovens não têm maturidade para se autorregular. (Será que os adultos têm?)
Os familiares vivem o equívoco de que, estando em casa, em seus quartos, as crianças e jovens estão mais seguros e protegidos dos perigos do mundo. Quando é, justamente, o contrário. As telas e os aplicativos os expõem a relações que eles não têm maturidade para gerenciar, por não terem, ainda, repertório psicossocial, que se desenvolve em relações educativas, presenciais.
Outro equívoco é pensar que estar presente é estar no mesmo local. Estar presente significa estar engajado e conectado, é envolver-se, reconhecendo as emoções e o agir do outro. Vale lembrar que não nascemos prontos, nem programados; todavia temos uma incrível capacidade de aprender.
Aprender é um ato relacional e, nessa perspectiva, aprender a ser com o outro é garantia de aprendizagens. Quando uma criança e/ou jovem se recusa a visitar parentes, comer com os pais, ir a parques de diversão, andar de bicicleta com amigos, não se mobiliza para conversar, os laços familiares enfraquecem, as conexões ficam fragilizadas.
A repercussão dessa dinâmica social é brutal na escola: dificuldade para trabalhar em grupos, aceitar os diferentes e compreender as diferenças, lidar com as frustrações, estudar vencendo as dificuldades.
Vale lembrar que aprender é trabalho e jogar é diversão. Essa ambiguidade coloca a escola em lugar desfavorável.
“Se você fizer a lição eu te deixo jogar.”
A tarefa da escola e da família, para aliviar esse contexto, parece ser a de promover atividades coletivas, partilhadas, para que as nossas crianças e jovens aprendam a bem viver e conviver. Exemplifico com o tempo do recreio, que em muitas escolas é de apenas 15 minutos. Por que não 30 minutos? Ou ainda, 40 minutos? No recreio, os estudantes se organizam por interesses, por afinidades, e os conflitos e suas formas de resolvê-los nascem, naturalmente, da necessidade de desfrutar desse tempo coletivo. Como atender aos itens da BNCC, das competências gerais, por exemplo, relacionados à empatia, resolução de conflitos, cooperação, etc? O recreio não seria um território mais que favorável para essa experiência?
Os movimentos físicos – correr pelo pátio, os esportes e as brincadeiras, são ingredientes-chave para o desenvolvimento da espiritualidade (experiência que dá sentido e conexão à vida), para a compreensão do outro e o sentimento de pertença. Possivelmente e eventualmente precisarão da mediação dos educadores. Valeria ter profissionais habilitados e responsáveis pelo recreio, pois os estudantes teriam a possibilidade de aprender a se autorregular, a respeitar e a resolver conflitos, além do desfrute que as atividades livres proporcionam.
Não pretendo demonizar as telas e os aplicativos, mas é inaceitável que os educadores permitam que isso continue acontecendo. As telas eliminam o corpo e as conexões por meio da linguagem corporal. No livro Geração Ansiosa, nos lembra que: “humanos são corporificados; a vida baseada no celular não é. As telas nos fazem esquecer que nosso corpo físico importa.”
“É chato fazer a lição, espero a mãe chegar pra fazer com ela.”
“As famílias querem que a gente ensine tudo pros filhos deles, até a comer verdura, sendo que em casa eles nem fazem!”
As famílias vivem uma dinâmica familiar e social muito difícil, além das já citadas, têm ainda o número de famílias monoparentais e ou com pouca rede de apoio, tornando a escola uma importante e essencial parceira.
Essa parceria deixa tênue o limite entre uma e outra. Não raro, familiares pedem para que ensinem higiene pessoal, respeitar os mais velhos, pedir licença. Contudo, o contrário também acontece, a escola chama a família para cumprir tarefas que são claramente delas, como recuperar aprendizagens.
O que fica invisível é que famílias inseguras, para dar limites, ensinar valores, apoiar na aventura de aprender e viver, compensam essa falta, permitindo ou desistindo da preciosa e intransferível tarefa de educar.
O que fica invisível é que professores e coordenadores não levam em consideração que muitos estudantes têm na escola um lugar seguro para viverem e se desenvolverem e que um clima emocional favorável facilita, e muito, o processo de aprender. A qualidade do acolhimento ofertada aos estudantes propicia que eles se arrisquem a errar, a levantar hipóteses, confirmá-las ou não e, em meio a essa complexidade toda, aprendam.
Os laços afetivos encorajam e propiciam as aprendizagens.
A conhecida frase “acho que essa criança tem alguma coisa”, pode ser respondida com conhecimento, com observação partilhada, atenta e carinhosa: um olhar humanizador.
Família e escola são instituições parceiras, porém distintas em seu modo de educar. Ambas trabalham para o mesmo objetivo: construir um cidadão em harmonia consigo e em condições de plena inserção social.
Portanto, há de se cuidar das crianças e jovens em seus quartos, sobretudo longe do olhar afetivo e organizador de um adulto educador, pois desse modo, não desenvolvem, dentre outras dimensões, o aquietar-se, o silêncio, o perceber-se, essenciais à formação humana. Vale trazer, novamente, o Byung-Chul Han, lembrando-nos que “é o silêncio que espiritualiza a ação humana”.
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