Aprendizado e saúde mental na transição para o Ensino Médio
Pesquisas apontam que mudança de etapa escolar prejudica o bem-estar de estudantes; especialistas discutem caminhos para mitigar o problema
Marcada por uma série de transformações, com novos ambientes, novos colegas e expectativas crescentes, a transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio prejudica o bem-estar dos estudantes. Essa é a conclusão de um estudo conduzido pela Universidade de Adelaide, na Austrália, com base na experiência de mais de 20 mil alunos da Austrália do Sul.
A pesquisa apontou que o bem-estar dos alunos diminuiu em todos os aspectos avaliados, incluindo felicidade, otimismo, perseverança, regulação emocional, engajamento cognitivo e satisfação com a vida. Por outro lado, a tristeza e a preocupação aumentaram. Os pesquisadores também descobriram que os impactos negativos podem persistir por mais de dois anos após a mudança, especialmente entre alguns grupos analisados, como mulheres e estudantes residentes em áreas remotas, que apresentaram declínios maiores do que seus colegas do sexo masculino e de áreas urbanas.
Vale destacar que, como o estudo acompanhou dois grupos de alunos que iniciaram o Ensino Médio simultaneamente em 2022 — um grupo no sétimo ano e o outro no oitavo ano —, os pesquisadores puderam diferenciar o que era reflexo da faixa etária do que estava relacionado à transição escolar.
A coordenadora pedagógica da EAI Educa, Maria Tereza Ramos, pontua que a entrada no Ensino Médio é um momento muito importante na vida dos adolescentes, porque eles estão vivendo uma fase cheia de mudanças, tentando entender quem são, onde se encaixam e o que querem para o futuro. Ao mesmo tempo, chegam a uma nova etapa escolar com mais exigências, novos professores, novas responsabilidades e, muitas vezes, novos grupos sociais.
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“É comum que apareçam sentimentos como ansiedade, insegurança e medo de não conseguir acompanhar as expectativas. Muitos jovens também se preocupam em fazer amigos, serem aceitos pelos colegas e encontrar o seu lugar dentro da escola. Tudo isso faz dessa transição um período que exige atenção e acolhimento”, explica Maria Tereza.
A especialista em neurociência e educação e líder do departamento de Governança Educacional da Fundação Bradesco, Katia Chedid, comenta que o início do Ensino Médio acontece em um momento de profundas transformações cerebrais, emocionais e sociais, quando o adolescente está construindo sua identidade, buscando autonomia e, ao mesmo tempo, lidando com novas exigências acadêmicas.
“Do ponto de vista da neurociência, o córtex pré-frontal — região responsável pelo planejamento, organização, controle emocional e tomada de decisões — ainda está em desenvolvimento. Isso significa que o jovem precisa lidar com uma carga maior de responsabilidades justamente quando as funções executivas ainda estão amadurecendo”, diz Katia.
Maria Tereza Ramos frisa que dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada em 2024, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que três em cada 10 estudantes afirmaram sentir-se tristes sempre ou na maioria das vezes, e uma proporção semelhante relatou já ter tido vontade de se machucar de propósito. O estudo ouviu 118.099 adolescentes de 13 a 17 anos em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Entre as meninas, os índices foram ainda mais elevados: 41% relataram tristeza frequente, contra 16,7% entre os meninos, o que reforça a necessidade de um olhar atento nesse momento de transição escolar.
A especialista do EAI Educa comenta que a comunidade escolar tem um papel muito importante no combate ao adoecimento psicológico dos alunos, uma vez que convive diariamente com os estudantes. Ela acrescenta que os dados da PeNSE 2024 confirmam a urgência da identificação precoce de sintomas que apontem para um quadro de ansiedade e depressão.
De acordo com a pesquisa, 26,1% dos estudantes relataram sentir constantemente que ninguém se preocupa com eles, sinalizando o quanto o vínculo de confiança com adultos da escola pode ser decisivo para esse público.

“Mais do que observar esses sinais, é importante que a escola crie espaços onde os adolescentes sintam que podem falar sobre o que estão vivendo sem medo de julgamentos. Quando existe uma cultura de acolhimento, diálogo e escuta, os jovens tendem a procurar ajuda com mais facilidade. Muitas vezes, uma conversa atenta feita no momento certo pode fazer toda a diferença”, diz Maria Tereza.
Foco nas habilidades socioemocionais
As habilidades socioemocionais ajudam os adolescentes a lidar melhor com os desafios do dia a dia. Maria Tereza afirma que, quando um jovem aprende a reconhecer suas emoções, entender seus limites e expressar o que sente de forma saudável, ele desenvolve mais segurança para enfrentar situações difíceis. Além disso, ela sublinha que habilidades como empatia, respeito, cooperação e comunicação contribuem para relações mais positivas dentro e fora da escola.
“Não estamos falando de eliminar os problemas ou as emoções difíceis, mas de desenvolver recursos para enfrentá-los de maneira mais equilibrada, e isso tem um impacto muito positivo na saúde mental e na qualidade de vida dos estudantes”, comenta.
As redes sociais exercem influência direta sobre a autoestima e a saúde mental dos jovens. Contudo, a coordenadora pedagógica da EAI Educa, Maria Tereza Ramos, afirma que elas não podem ser vistas apenas como algo negativo e que o desafio é ajudar os adolescentes a utilizarem esses espaços de forma consciente.
“Muitos jovens acabam se comparando constantemente com imagens e estilos de vida que nem sempre refletem a realidade. Isso pode gerar frustração, sensação de inadequação e baixa autoestima. Por isso, famílias e escolas precisam conversar abertamente sobre esses temas, ajudando os adolescentes a desenvolver um olhar crítico sobre o que consomem na internet”, diz.
Além disso, ela ressalta que também é importante incentivar experiências fora das telas, como atividades esportivas, culturais, momentos em família e convivência com amigos. Quanto mais diversificadas forem as experiências do jovem, menor será a dependência da validação recebida no ambiente digital.
Outro ponto de atenção levantado pela PeNSE 2024 refere-se à relação com o próprio corpo, que é fortemente influenciada pelo ambiente digital. O estudo aponta que a satisfação dos estudantes com a própria imagem corporal caiu de 66,5% (em 2019) para 58% em 2024. Mais de um terço das meninas relatou insatisfação com a própria aparência e, embora 21% se considerassem acima do peso, mais de 31% estavam tentando emagrecer, dado que aponta para pressões estéticas reforçadas pelas redes sociais e que devem ser abordadas de forma direta por famílias e escolas.
Katia Chedid destaca que é preciso estar atento aos sinais de perda do sentimento de pertencimento dos alunos. Segundo ela, quando o estudante deixa de se sentir conectado à escola, aos colegas ou aos seus objetivos, o risco de sofrimento emocional aumenta.
“Por isso, é fundamental que professores, orientadores, famílias e equipes especializadas mantenham uma observação cuidadosa. Quanto mais cedo as dificuldades forem identificadas, maiores são as chances de oferecer o apoio necessário para uma adaptação saudável”, indica.
Maria Tereza Ramos comenta que o primeiro passo para transformar a escola em um espaço de acolhimento, escuta e promoção da saúde mental durante o Ensino Médio é entender que saúde mental não deve ser um assunto discutido apenas quando surge um problema, mas precisa fazer parte da rotina escolar.
Ela diz que as escolas podem investir em programas de desenvolvimento socioemocional, rodas de conversa, projetos de convivência, formação de professores e ações que fortaleçam o sentimento de pertencimento dos estudantes. Também é importante criar canais de escuta acessíveis e fortalecer a parceria com as famílias.
“Quando o adolescente sente que é respeitado, ouvido e valorizado, ele se conecta mais com a escola, aprende melhor e desenvolve maior bem-estar emocional. Uma escola acolhedora não é aquela que não tem conflitos, mas aquela que sabe lidar com eles de forma humana e construtiva“, frisa.
Para Katia Chedid, a palavra-chave é parceria. A especialista diz que as escolas podem investir em programas de acolhimento, mentorias, orientação educacional, desenvolvimento socioemocional e espaços de escuta. As famílias, por sua vez, devem demonstrar interesse genuíno pela experiência do adolescente, valorizando o esforço e o processo de aprendizagem, e não apenas os resultados.
Na Fundação Bradesco, o acolhimento aos alunos ocorre por meio de diferentes frentes. O trabalho de Socioemocional e Projeto de Vida ajuda os estudantes a desenvolverem autoconhecimento, propósito, planejamento e competências para lidar com os desafios da adolescência. Paralelamente, o time de Governança apoia as escolas em temas relacionados à saúde mental, inclusão e proteção dos estudantes, fortalecendo uma rede de cuidado essencial nessa fase de transição.
Katia Chedid explica que essa atuação integrada ocorre por meio do trabalho articulado entre equipes pedagógicas, socioemocional e governança. Essa rede de apoio contribui para que os estudantes se sintam acolhidos, compreendidos e preparados para enfrentar os desafios acadêmicos e pessoais dessa nova etapa.
“Família e escola precisam atuar juntas para criar um ambiente de segurança emocional e desenvolvimento da autonomia. Mais do que aumentar cobranças, é necessário ensinar habilidades como planejamento, organização, gestão do tempo, autorregulação e estratégias eficazes de aprendizagem”, finaliza.
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