Sobre leitura, o sentido da arte e o cotidiano
Neste artigo, a escritora Chris Cidade Dias reflete sobre como a literatura humaniza e cura, atuando como o ritmo que ressignifica as nossas travessias cotidianas

Chris Cidade Dias, escritora
Na esquina da minha rua, um vendedor de frutas, todo o dia, traz uma caixa cheia de bandejas de morango e espera sua clientela. Ele se acomoda em frente a um hospital bem movimentado, que tem uma sinaleira exclusiva para pedestres, tal a quantidade de gente que costuma frequentar.
Depois de acomodar tudo nas prateleiras da banca, o homem, que deve ter uns 30 anos, pega a caixa de plástico que estava sobre o seu colo e começa a batucar.
Aquele ritmo convida a cantar. Então ele escolhe canções bem conhecidas e cantarola, embalado naquele ritmo, até as frutas acabarem e ele ir embora com sua caixa-instrumento vazia.
Me detive um dia desses para ver o que aquilo fazia com as pessoas. Será que gostam? Será que escutam? Será que incomoda?
Enxerguei uma criança que, ao passar ali, começou a pular, acompanhando o ritmo. Normal. Pensei. Depois vi uma senhora que se demorou escolhendo e cantarolou junto alguns versos.
Também observei adolescentes que pararam ao lado do homem e acompanharam com palmas aquelas batidas. Mas foi o senhor parado diante da faixa de segurança, esperando a sinaleira, que me surpreendeu. Ele usava uma máscara de proteção e carregava exames numa pasta. Tinha os olhos molhados e nenhum fio de cabelo. Ouvindo aquele som, pôs-se a mexer o corpo enquanto o sinal não o autorizava a seguir. Batia o pé no chão, acompanhando o ritmo, balançou os braços e dançou. Atravessou a rua brincando com os desenhos da faixa no chão, seguindo o ritmo, embalando aquela travessia com arte.
Aquele homem viveu um parêntese, um hiato da sua vida com aquela música.
A leitura literária na sala de aula é como essa batucada. A gente até pode viver sem, pode até achar que não é importante, mas, mesmo que a gente não queira, ela é cura.
Não há cura para resolver grandes problemas da humanidade, mas há o atalho para lembrar do que a gente é feito, apesar do que temos que atravessar.
Ela nos ajuda a ver o que mais ninguém enxerga dentro e fora da gente.
Ela humaniza, mesmo quando o tema não é esse. Mesmo que a gente esteja na aula de matemática, que nos ajudará a comprar morangos numa esquina, ou numa aula de geografia, que orienta nossos passos dentro de uma cidade.
A literatura é o que vai deixar o caminho ser mais seguro, pleno e encher todo o resto de significado.
Esse é o sentido da arte e pode estar em qualquer esquina.
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