Nomofobia: o medo de estar desconectado
Fobia tem transformado as relações humanas, criando uma divisão entre os mundos real e digital, com o desafio de superar a dependência da tecnologia
“Nomofobia” pode até soar como um termo recente, especialmente com a nova lei de restrição ao uso de celulares em sala de aula, que entrou em vigor em 2025. Tão presente no cotidiano brasileiro, a palavra foi incorporada ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) em fevereiro deste ano, refletindo a crescente conexão – e dependência – da sociedade com a tecnologia.
No entanto, o termo não é novo. Ele surgiu em 2008, criado pelo pesquisador Patrick O’Neill, a partir da expressão em inglês “no mobile phone phobia”, que descreve o medo irracional de ficar sem celular.
Segundo o psiquiatra de Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Thiago Gatti Pianca, já nos anos 2000, quando os celulares ainda eram utilizados apenas para chamadas e mensagens de texto, esse medo de ficar incomunicável já era uma preocupação. “Naquela época, essa ansiedade era mais comum entre pessoas altamente requisitadas, como executivos e jornalistas, que precisavam estar sempre disponíveis para tomar decisões”, ressalta.
Com a evolução da tecnologia, essa ansiedade se intensificou, inclusive no Brasil. Uma pesquisa conduzida pelo portal nomophobia.com – criado por O’Neill – revela que 60% dos brasileiros experimentam algum grau de ansiedade sem o celular, e 87% se consideram dependentes dele para as atividades diárias. O estudo, divulgado em 2024, que entrevistou mais de 3 mil latino-americanos da Argentina, do Chile, da Colômbia, do México e do Peru, contou com 758 participantes do Brasil.
Embora a nomofobia ainda não seja formalmente reconhecida nos manuais de transtornos mentais, como a Classificação Internacional de Doenças (CID), a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a dependência digital como transtorno desde 2018.
Pianca complementa que os manuais médicos já reconhecem a dependência de jogos eletrônicos como um transtorno, mas a dependência de tecnologia como um todo ainda não possui um diagnóstico formal. Ele acredita que essa categoria poderá ser incluída nas classificações médicas no futuro. “Muitas pessoas se tornam tão ligadas às tecnologias que sentem falta delas quase como se fossem uma droga”, afirma.
O psiquiatra destaca que a nomofobia está mais associada aos transtornos de ansiedade do que a uma fobia propriamente dita. Enquanto aquelas mais convencionais, que envolvem aversão e o desejo de evitar determinado objeto ou situação, como o medo de altura, no caso da nomofobia, o sentimento é oposto, a pessoa não quer se afastar do celular, porque teme estar perdendo algo importante.
Esse fenômeno está diretamente ligado ao conceito de FOMO (Fear of Missing Out, ou “medo de ficar de fora”). De acordo com Pianca, trata-se da angústia de não estar atualizado, de perder informações ou de não acompanhar as tendências das redes sociais. Esse comportamento está intimamente ligado ao transtorno de ansiedade generalizada, no qual a pessoa se preocupa excessivamente com diversos aspectos da vida, incluindo o digital.
Apesar de que existam preocupações legítimas sobre os impactos do uso excessivo das telas, Pianca ressalta que a questão é complexa. O conteúdo acessado faz toda a diferença. “O problema não está necessariamente na tela em si, mas no que ela substitui. Se o tempo de uso está reduzindo a prática de atividades físicas, o convívio social presencial ou o tempo de sono, os efeitos negativos são evidentes”, explica.
A manifestação da fobia
A professora em cursos de especialização em Neuropsicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Luciana Tisser, esclarece que a ansiedade proporcionada pela nomofobia pode se manifestar de diversas formas, como sensação de isolamento, pânico e até sintomas depressivos. Esse impacto é ainda mais significativo entre adolescentes, cuja interação social acontece predominantemente no ambiente digital.
A necessidade de pertencimento, que antes se concretizava em encontros presenciais, hoje se expressa por meio das redes sociais e da troca constante de mensagens. O receio de estar “fora” dessa dinâmica social digital contribui para um ciclo de dependência.
Do ponto de vista neurobiológico, Luciana, que também é colaboradora do Instituto de Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer), ressalta que o uso excessivo do celular impacta o desenvolvimento cerebral, especialmente em crianças e adolescentes. “O córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisão, controle de impulsos e foco atencional, segue em desenvolvimento até aproximadamente os 24 anos de idade”, esclarece.
O excesso de exposição às telas leva a uma liberação intensa de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de recompensa, criando um ciclo de hiperestimulação. Conteúdos como vídeos curtos nas redes sociais condicionam o cérebro a mudanças rápidas de estímulo, o que pode prejudicar a capacidade de concentração em atividades que exigem foco prolongado, como o aprendizado em sala de aula.
Os problemas no cotidiano
A dificuldade em manter o foco é um dos principais desafios da atualidade, algo amplamente evidenciado pela neurociência. Segundo a doutora em Psicologia Clínica e professora do curso de Psicologia da Uniftec, Márcia Pinheiro Schaefer, o hábito de realizar múltiplas atividades simultaneamente compromete o desempenho, tanto no ambiente escolar quanto no profissional, e o uso excessivo da tecnologia está diretamente relacionado a essa queda de rendimento.
Quando uma pessoa é privada de algo do qual depende, os impactos podem ser significativos. Márcia explica que os sintomas e comprometimentos são semelhantes para jovens e adultos, podendo incluir crises de pânico. Em casos mais severos, a dependência pode levar a episódios recorrentes de ansiedade, tornando inviável a permanência em sala de aula ou em um escritório, por exemplo.
Com relação ao mercado de trabalho, a especialista em tecnologia educacional e professora do curso de Pedagogia da UniRitter, Vanessa Dal Castel, percebe os efeitos da nomofobia. Os problemas acarretados envolvem produtividade e concentração.
É o caso de um funcionário que não consegue ficar mais de cinco minutos sem mexer no celular. Ao realizar uma tarefa mais complexa, que leva mais tempo, muitas vezes, ele traz erros ou atrasos na entrega de relatórios ou demandas. “Uma outra questão importante é que a constante interrupção pela questão das notificações e mensagens tira e afeta a capacidade de tomar decisões”, aponta.
Outro aspecto, trazido por Márcia, é o descontrole causado pela fobia, que pode levar a situações perigosas. Como se trata de um comportamento compulsivo, muitas vezes a noção da realidade se perde. Um exemplo clássico é o uso do celular ao dirigir. “Se essa pessoa tem nomofobia, não conseguirá se controlar para ignorar uma notificação naquele momento. Em vez de esperar um momento seguro para verificar a mensagem, pode agir impulsivamente, colocando-se em risco”, conta.
E isso tem sido comprovado em ruas e avenidas brasileiras. O uso de celular ao volante continua sendo uma das infrações mais registradas no trânsito do Rio Grande do Sul. Em uma análise da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego do RS (Abramet/RS), baseada nos últimos dados do Departamento Estadual de Trânsito do RS (Detran/RS), até dezembro de 2024, aponta que foram contabilizadas 89.513 infrações relacionadas ao uso do celular enquanto se dirige.
Para ampliar esses problemas do cotidiano, Márcia relata que a exposição precoce de crianças aos dispositivos eletrônicos tem se tornado cada vez mais comum, com bebês já interagindo com telas. Esse processo foi intensificado pela pandemia, que tornou a tecnologia a principal forma de comunicação entre as pessoas. “No meu consultório, observei um aumento significativo de casos relacionados ao uso excessivo de tecnologia e dependência digital”, diz.
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O uso da tecnologia na escola e na universidade
A tecnologia pode ser uma ferramenta de libertação ou de aprisionamento, dependendo de como é utilizada. A especialista em tecnologia educacional da UniRitter recorda que, durante o seu mestrado, pesquisou o uso da tecnologia na formação de futuros professores. Ela percebeu que muitos estudantes iniciantes nas licenciaturas se sentiam inseguros em relação ao uso da tecnologia e, em alguns casos, não tinham acesso adequado a ela.
Para Vanessa, existe uma crença por parte de algumas pessoas de que a tecnologia é universalmente acessível e sempre facilita a aprendizagem, mas isso nem sempre é verdade. O equilíbrio no uso da tecnologia é essencial para que ela se torne uma aliada, e não uma barreira. “A escola e a universidade precisam buscar formas de tornar a tecnologia mais funcional, evitando que ela contribua para o isolamento de jovens e adultos”, aconselha.
E, devido à lei de restrição dos celulares em sala de aula, em fevereiro deste ano, o Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Básica (SEB), lançou guias para conscientizar sobre o uso responsável de dispositivos digitais e apresentar estratégias e diretrizes para apoiar a implementação da nova legislação, com foco no uso pedagógico. Um guia é voltado para as escolas de todo o país e o outro para as redes de educação.
As soluções para a superconexão
Causado pela falta de conexão com o mundo físico, as pessoas com nomofobia começam a ter pensamentos e sentimentos de vazio, de que existe uma escassez de algo e, assim, a vida fica em uma superfície, sem um propósito. Por isso, Vanessa sinaliza que é importante reconhecer esses desafios e buscar estratégias para que essa conexão tecnológica não atrapalhe a conexão humana e não seja levada para uma introspecção.
Uma indicação é a prática da atenção plena, conhecida por mindfulness. Essa pode ser uma estratégia para melhorar a concentração e o aprendizado, tanto jovens como adultos. “Assim como treinamos nosso corpo na academia, precisamos exercitar nossa capacidade de estar totalmente presentes nas atividades do dia a dia”, sugere.
Luciana ressalta que a necessidade de limitar o tempo de exposição a telas, e incentivar atividades para liberar a dopamina de maneira mais saudável, como esportes e interações presenciais. “Em alguns casos, a psicoterapia pode ser necessária para reverter padrões de dependência digital”, indica.
Com relação ao ensino, Vanessa aponta que a tecnologia deve ser pensada como um meio e não um fim. Por exemplo, ao utilizar o ChatGPT em sala de aula, é possível estimular os alunos a irem além das respostas fornecidas pela Inteligência Artificial, desenvolvendo o pensamento crítico e aplicando o conhecimento em diferentes contextos.
O aprendizado precisa ultrapassar as fronteiras do celular. Atividades que envolvem resolução de problemas, metodologias ativas e trabalho em equipe promovem um ensino mais dinâmico e envolvente. É fundamental incentivar experiências vividas e o desenvolvimento de repertório pessoal. Vanessa, como professora, acredita que não se pode ensinar o que não se vive.
Atividades ao ar livre, o contato com a natureza, a cultura e a interação social são essenciais para o desenvolvimento integral dos alunos. “O grande desafio para educadores e pais é proporcionar experiências que ampliem o repertório dos jovens, ajudando-os a encontrar sentido na vida além das telas”, conta.
Os professores também terão que manter os estudantes engajados e focados no processo de aprendizagem. Crianças e jovens estão habituados a dividir a atenção entre várias atividades simultaneamente, o que prejudica a concentração. Por isso, é essencial desenvolver estratégias que promovam o engajamento total dos alunos na sala de aula.
E o papel do gestor escolar segue fundamental, com a missão de orientar professores e alunos sobre seu uso pedagógico. “É necessário criar estratégias para aproveitar a tecnologia de maneira produtiva, sem comprometer a aprendizagem”, reforça.
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