Tecnologia e planejamento estratégico elevam nível da segurança escolar

Especialistas debatem o uso de IA e a importância da cultura de prevenção para qualificar a proteção nas instituições de ensino

por: Jean Peixoto | jean@padrinhoconteudo.com
imagem: Imagem gerada pelo Gemini

A segurança escolar deixou de ser um tabu e passou a ser um critério competitivo na hora da escolha de uma instituição de ensino. Assim como pais e responsáveis estão cada vez mais atentos ao tema, os gestores de escolas também vêm desenvolvendo mecanismos de monitoramento ativo, com foco em um planejamento estratégico de proteção. 

“As famílias entenderam que segurança é um conforto. Isso porque elas entenderam a importância de um colégio organizado e bem estruturado no controle de acesso”, comenta o CEO da Prot Consultoria em Segurança, André Steren. 

Steren participou de um bate-papo com o presidente do SINEPE/RS, Oswaldo Dalpiaz e o especialista em segurança patrimonial Fernando Salama, no qual apontaram caminhos para qualificar a segurança nas escolas privadas e debateram sobre a importância de se adequar aos recursos tecnológicos disponíveis no mercado.

Salama pontua que a incidência de sucessivos casos de violência em escolas foi um dos fatores que despertou o olhar das famílias para a necessidade de ampliar a segurança nas instituições de ensino. O especialista explica que um sistema de proteção robusto não se baseia apenas em tecnologia, mas em quatro pilares fundamentais que devem atuar em conjunto: a segurança física, a segurança eletrônica, a segurança humana e, por fim, os procedimentos operacionais. A eficácia do sistema, segundo ele, depende do equilíbrio entre esses elementos, e não apenas da instalação isolada de dispositivos tecnológicos.

A tecnologia, que outrora se restringia aos sistemas de videomonitoramento, hoje dispõe de recursos que permitem aos pais monitorar em tempo real a entrada e saída dos filhos das escolas. Conforme os especialistas, o mercado de tecnologia de segurança hoje é forte e crescente, apresentando dois níveis de solução: os produtos de “prateleira”, que são sistemas prontos e formatados, e as soluções customizadas. Salama exemplifica a customização citando casos de colégios de Porto Alegre que exigem dupla checagem para a saída de crianças menores de sete anos, onde o sistema impede a liberação do aluno caso o pai não esteja presente. Ele ressalta que o sucesso dessas ferramentas depende da adesão participativa do público.

“Você coloca uma tecnologia que tem um formato de trabalho. Se o público e o colégio não colocarem essa cultura junto e entenderem para que foi feito aquilo e como é aplicado, você não vai ter sucesso. Agora, se isso é trabalhado com professores, com pais e com os próprios alunos, você começa a ter uma adesão e um entendimento. A partir do momento que o processo flui corretamente, você tem um ganho agregado muito grande”, diz Salama. 

Segurança x comodidade

Dalpiaz sublinha a existência de um paradoxo: por um lado, as famílias buscam por segurança e monitoramento tecnológico, por outro, em alguns casos, oferecem resistência para aderir às normas previstas pelo sistema. Na visão de Salama, “segurança é controle, é saber o que está acontecendo”. Ele frisa que a segurança é inerentemente “chata” porque exige controle e procedimentos rigorosos que, muitas vezes, afetam o conforto imediato, como a transição do simples cumprimento ao porteiro da escola para o uso de reconhecimento facial e cadastros administrativos. O especialista enfatiza que a estratégia para evitar rupturas com o público é demonstrar que essas medidas não são arbitrárias, mas respondem a uma necessidade estratégica de proteção.

Monitoramento ativo

Salama diferencia o uso reativo das câmeras (apenas para registro de incidentes) do monitoramento preventivo e estratégico. Ele ilustra a importância do monitoramento ativo com um caso real em que um diretor retardou a saída dos estudantes ao perceber, pelas câmeras, que ocorria um assalto na esquina da escola. Essa ação preventiva evitou que o público fosse exposto ao risco. O especialista defende que a tecnologia, seja ela básica ou de ponta, só gera resultados positivos quando aplicada como uma ferramenta de antecipação e mitigação de problemas.

“Quando a gente coloca uma câmera, por exemplo, eu tenho uma imagem. O que eu faço com essa imagem se chama segurança. Não adianta ter câmera e não ter um trabalho de retaguarda”, frisa.

Planejamento 

Antes de executar um projeto de segurança escolar é necessário planejar. Os especialistas explicam que é preciso considerar a estrutura física do colégio, sua planta e seus pontos de acesso para desenhar uma estratégia que seja adequada às especificidades do local. Para além do portão principal, por exemplo, é preciso prestar atenção aos acessos secundários como saídas de lixo e entradas para prestadores de serviço. Eles alertam que são justamente esses locais menos vigiados que exigem maior atenção.

Além disso, a segurança deve considerar o entorno do colégio. Se a instituição está próxima a uma via rápida, o foco pode ser a prevenção de atropelamentos, e não apenas a intrusão. Para um planejamento eficaz, a planta da escola é essencial, servindo de base para a distribuição estratégica de alarmes, câmeras, comunicadores e sirenes.

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Salama enfatiza que, embora a maioria das escolas já possuam sistemas ativos, o grande desafio é o aproveitamento total dos recursos disponíveis, transformando o investimento passivo em uma ferramenta de gestão ativa. Ele cita como exemplo escolas que possuem tecnologias instaladas, mas não as operam corretamente, como portas monitoradas que permanecem abertas sem que ninguém perceba. Além da vigilância interna, ele menciona a importância de estender a segurança para atividades fora do colégio como saídas a campo e passeios, garantindo que a instituição saiba exatamente o que ocorre com seus alunos em diferentes contextos e grupos.

IA como ferramenta de apoio

A Inteligência Artificial (IA) tem revolucionado o monitoramento escolar através da interpretação de imagens. Salama exemplifica que a IA pode detectar objetos que se assemelham a armas de fogo com alta precisão, emitindo alertas imediatos. Além do reconhecimento facial para identificar pessoas com histórico de ocorrências, ele destaca a IA comportamental, que identifica padrões suspeitos, como um indivíduo que circula várias vezes em frente à escola antes de uma possível ação, permitindo uma resposta preventiva.

A segurança também é considerada uma área de apoio administrativo que gera eficiência para toda a escola. Por meio da IA, é possível monitorar aglomerações em recepções, auxiliando na decisão de contratar mais funcionários para horários de pico, por exemplo. Nesse contexto, Salama introduz o conceito de Business Intelligence (BI), em que dados de ocorrências são analisados para identificar padrões temporais e geográficos, como o aumento de incidentes em uma esquina específica entre um determinado horário. Isso permite investimentos embasados em dados e a comprovação da eficácia das medidas adotadas por meio da comparação de indicadores anuais.

Integração com a Segurança Pública

Os especialistas enfatizam que a segurança da escola não deve se limitar aos muros da instituição e que depender apenas do número de emergência (190) em momentos de crise é insuficiente. Eles sugerem uma postura proativa dos diretores para estabelecer vínculos diretos com as forças policiais locais, conhecendo os comandantes dos batalhões e convidando-os para conhecer a rotina da escola. Essa aproximação permite um canal de comunicação mais eficiente, como o contato direto com a viatura da região, agilizando o tempo de resposta. Além disso, mencionam que a tecnologia pode auxiliar o poder público ao fornecer dados precisos, extraídos das câmeras, sobre o fluxo de veículos e gargalos de trânsito no entorno escolar.

Restrição de acessos

Os especialistas também abordam um tema sensível na administração escolar: a entrada de pais nas salas de aula. Embora seja uma decisão de gestão interna, Dalpiaz e os convidados concordam que, caso a escola opte por permitir o acesso, este deve ser rigorosamente controlado por meio de cadastros e limites físicos. 

“Se for entrar, tem que ser cadastrado. Inclusive, tem colégios que fazem ambientes segregados. A pessoa pode entrar até certo ponto e esperar dentro da escola. Além daquele ponto, não pode passar”, comenta André Steren.

Os especialistas ressaltam também a importância do respeito aos horários, evitando que a presença dos pais interfira na dinâmica escolar antes do término das aulas. Por fim, o presidente do SINEPE/RS traz uma reflexão sobre a tecnologia e a humanização. 

“Há muitas opções no mercado que atuam na instalação de equipamentos que visam gerenciamento de acesso. O mais sensível e o mais importante é capacitar a equipe que irá atuar na operação. Ou seja, fazer a gestão da ferramenta sem perder de vista o atendimento humano respeitoso e cordial. Sem uma equipe acolhedora, treinada, capacitada e equipada, o investimento se tornará ineficaz”, finaliza. 
O bate-papo completo pode ser acessado no Sinepe Play, portal de conteúdo audiovisual do SINEPE/RS.

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