Escalada do bullying no mundo digital requer ações proativas das escolas
Profissionais de diversas áreas propõem letramento emocional e parceria com famílias para prevenir agressões nas redes
A alta nos casos de cyberbullying soa um alerta para famílias e escolas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, a prática cresceu 18% nos últimos cinco anos, afetando 27,2% dos estudantes. Para conter esse avanço, especialistas em educação e segurança defendem que as instituições de ensino não devem apenas reagir aos incidentes, mas atuar como pólos preventivos, focando no uso responsável da tecnologia e no desenvolvimento da inteligência emocional dos alunos.
Cada vez mais, esse tipo de violência rompe as fronteiras do pátio e do horário das aulas. Ao migrar para as redes sociais, ela perpetua um ciclo de humilhação que atinge desproporcionalmente o público feminino: 30,1% das meninas relatam sofrer com provocações persistentes, em comparação a 24,3% dos meninos.
Ao mesmo tempo em que as adolescentes são os principais alvos de ofensas e exposições virtuais, os meninos aparecem com mais frequência como os autores das agressões, representando 16,5%. Isso reforça a ideia de que comportamentos de exclusão também atravessam questões de gênero, ampliando o debate sobre prevenção.
Para a psicóloga e professora da Escola de Humanidades da PUCRS, Andreia Mendes dos Santos, os dados da PeNSE refletem uma cultura de vulnerabilidade das meninas e mulheres que ainda é enraizada. “Compreendemos que existe, desde a infância, a transmissão da cultura do machismo, misoginia e de uma certa autoridade e domínio sobre o corpo feminino. Muitos dos motivos do bullying contra as meninas se relacionam à sua aparência, vestuário e forma de se apresentar, o que reforça essa perspectiva cultural”, afirma.
Ao contrário de uma ofensa dita no corredor da escola, o cyberbullying cria um desconforto que se repete a cada visualização na tela. Para Andreia, a vigilância constante de curtidas, comentários e o medo do cancelamento contribuem para que o efeito seja ainda maior.
“É o fato de a exposição ser continuada. Não se trata de um episódio único, mas de perder o controle de todas as formas e ver aquilo se propagando em outros espaços. É como se todo dia eu sentisse a mesma dor. E, por haver um registro, é possível acompanhar o impacto disso em tempo real”, destaca a docente.

O aumento dos casos pode ser associado ao novo comportamento digital adotado durante a pandemia de Covid-19. Segundo a promotora de justiça do Ministério Público do RS Cristiane Della Méa Corrales, o isolamento facilitou que crianças e adolescentes tivessem acesso a dispositivos eletrônicos e redes sociais de forma precoce.
“Mais de 90% dos jovens usam celular com acesso à internet; isso está intimamente ligado ao aumento do bullying e, principalmente, do cyberbullying. O excesso de telas faz com que eles tenham menos interação social e menos pertencimento em relação aos demais – esse é um dos sentimentos presentes nos autores de bullying”, afirma a promotora.
De acordo com Cristiane, o sofrimento interno muitas vezes é reproduzido na forma de violência contra colegas de idades próximas. O ambiente virtual, que antes servia como um refúgio, tornou-se o principal palco para a agressão.
“Nós precisamos olhar tanto para a vítima, que precisa ser imediatamente acolhida, quanto para o agressor, ou seja, aquele que pratica o bullying, e até mesmo para aqueles que, de alguma forma, servem de plateia para o fato.”
Cristiane Della Méa Corrales, promotora do MPRS
Nesse contexto, é preciso entender a diferença entre as situações conflituosas que permeiam os jovens em idade escolar. A professora Andreia Mendes dos Santos explica que o conflito, por exemplo, é uma parte natural e até saudável das relações, pois ensina a lidar com divergências. Já o bullying e o cyberbullying são violências intencionais e persistentes. “Não se trata de um episódio isolado. É a perda do controle sobre a situação, que se propaga por diversos espaços e toma proporções imensuráveis”, pontua.
Cristiane alerta que, desde 2024, o bullying e o cyberbullying foram incluídos no Código Penal e, se praticados por adolescentes, configuram ato infracional. Essa atualização jurídica reflete a necessidade de proteger o ambiente escolar também no mundo virtual. Nesse sentido, Andreia ressalta que a legislação evoluiu para acompanhar a tecnologia. “O ECA digital surgiu justamente para complementar o Estatuto da Criança e do Adolescente, já que nos anos 1990 não tínhamos essa preocupação com o mundo digital”, explica a docente.
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>> Bullying e cyberbullying: como identificar, agir e proteger os estudantes
>> Invista em medidas preventivas para combater o cyberbullying
>> Impactos da Lei 14.811/2024 no ambiente escolar
Em um contexto em que o bullying ainda é apontado como um desafio em muitas escolas brasileiras, iniciativas que integram o desenvolvimento socioemocional ao cotidiano escolar têm ganhado espaço nas redes de ensino pelo país. Pensando em uma proposta educativa de combate ao bullying, o Instituto Ayrton Senna criou o programa Diálogos Socioemocionais, que atendeu mais de 303 mil alunos no Rio Grande do Sul, em parceria com a Secretaria de Educação do Estado (Seduc).
O projeto busca fortalecer as competências socioemocionais dos estudantes, como tolerância à frustração, autoconfiança, determinação, responsabilidade e respeito, contribuindo para uma formação que vai além do aprendizado acadêmico.
Segundo Maria Lucia Voto, gerente de conteúdos educacionais do instituto, essas competências funcionam como uma defesa para os jovens. “Quem confia em si e respeita os demais dificilmente terá momentos de agressividade com o outro. Aquele que tem letramento socioemocional, que é conhecer as competências, saber identificá-las, consegue regular melhor suas emoções e atitudes”, explica.
O programa utiliza instrumentos de autoavaliação para que os próprios estudantes identifiquem seus sentimentos e aprendam a resolvê-los sem recorrer à violência. Estudos do instituto mostram que o desenvolvimento socioemocional é um dos principais caminhos para promover um clima escolar mais saudável, seguro e acolhedor e para a construção de vínculos de confiança.
“Nossos dados indicam que estudantes que se percebem mais desenvolvidos para construir relações de confiança apresentam um senso de pertencimento cerca de 40% maior em relação àqueles que se percebem pouco desenvolvidos nessa competência”, avalia Maria, elencando o pertencimento como elemento importante associado ao bem-estar, ao aumento do engajamento e à prevenção de violências.
Para desenvolver essas competências na prática, a gerente do instituto sugere que os professores promovam debates, atividades em grupo, análise de conteúdos que abordem situações em que essas habilidades emocionais aparecem ou são requeridas. “O importante é que o estudante reconheça as competências e compreenda quando não está mobilizando determinada competência, por que e como deveria fazê-lo”, afirma Maria.
Muitas escolas se veem em um dilema ao intervir em conflitos que ocorrem no WhatsApp ou redes sociais fora do horário escolar. No entanto, a orientação jurídica é de que, se o conflito envolve estudantes e impacta a convivência na sala de aula, a escola pode agir.
Para a professora Andreia, a instituição deve estar atenta aos sinais silenciosos, como um estudante que era participativo e se torna quieto, tem queda no rendimento, se isola ou recusa ir às aulas. Ela sugere às escolas uma atuação em três frentes: a mediação, a prevenção e a intervenção. Andreia propõe que as instituições usem os momentos de conflito para ensinar a convivência, priorizando o diálogo e a criação de regras coletivas que façam sentido para os estudantes.
“Precisamos falar sobre o bullying e o respeito, mostrando que não é legal ‘brincar’ com o que incomoda o outro, como muitas vezes ouvimos em justificativas”, afirma. A recente implementação do ECA Digital, por exemplo, pode ser um dos temas levados para dentro das disciplinas para que os alunos compreendam as consequências reais do cyberbullying.
O movimento de conscientização deve ultrapassar os muros da escola e alcançar as casas dos estudantes. Cristiane reforça que o controle parental é indispensável e que a instituição de ensino tem um papel orientador nessa parceria.
“A escola deve orientar os pais para que haja esse diálogo em casa sobre os riscos do ambiente digital. Não apenas sobre o bullying e o cyberbullying, mas também sobre outros perigos, como o acesso de predadores e pessoas que praticam violências. Já vimos muitos delitos acontecerem a partir do ambiente virtual, no qual crianças e adolescentes ficam mais suscetíveis”, alerta.
Esse esforço requer uma preparação constante de toda a comunidade escolar. Cristiane sugere que as instituições desenvolvam momentos de capacitação para profissionais e alunos, adaptando sempre a linguagem à faixa etária de cada grupo.
“A escola tem o papel de orientar e promover espaços de conversa sobre os riscos das plataformas e do ambiente digital. Além da instrução aos alunos, é fundamental orientar os pais sobre as responsabilidades e os perigos no universo virtual”, conclui, reforçando que o combate ao cyberbullying é uma construção coletiva entre o Direito, a educação e a família.
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