A maior tecnologia ainda é o professor!

Neste artigo, Nádia Gonçalves reflete sobre a Bett Brasil 2026 e traz uma certeza: nenhuma máquina substitui o vínculo humano frente à IA  

Nádia Gonçalves, diretora do SINEPE/RS e da Escola Vinicius de Morais
imagem: Freepik

No início de maio estivemos em São Paulo, na Bett Brasil 2026, o maior encontro de educação e tecnologia da América Latina, que chegou à sua 31ª edição sob o tema “Inteligências individuais, coletivas e artificiais”. Foram dias de plenárias, arenas e centenas de estandes, onde vimos de tudo: de catracas com reconhecimento facial a plataformas de agenda digital. A plenária de abertura reuniu nomes como Priscila Cruz e Débora Garofalo e teve até um robô interagindo com a plateia. 

Mas, no meio de tanta inovação, a mensagem que atravessou quase todas as palestras foi sobre aquilo que nenhuma tecnologia consegue automatizar. A inteligência artificial dominou a programação, sempre acompanhada de um alerta. 

Na abertura, o pesquisador chileno Cristóbal Cobo mostrou o reverso da conveniência: delegar tarefas cognitivas à máquina cobra um preço de longo prazo. “O tempo que se economiza na criação se perde na correção”, resumiu, defendendo que a nova era nos obriga a repensar a taxonomia de Bloom e a decidir quais habilidades queremos terceirizar e quais precisam seguir humanas.

David Luz, da USP, trouxe o debate para o chão da escola ao falar de IA confiável. Para ele, o risco da IA generativa é que “ela alucina com elegância”: quando não sabe, inventa com a convicção de quem sabe. Na educação, uma resposta errada dita com autoridade vira aprendizado errado. Sua aposta é o modelo RAG, em que a IA não responde de memória, mas consulta um acervo escolhido pela escola e cita a fonte de cada resposta. A provocação ficou no ar: adotar a IA nos termos do Vale do Silício ou nos nossos termos? “Conteúdo, pedagogia e autoridade continuam sendo da escola.”

Se a IA foi o meio, o professor foi o fim. O psicólogo Rossandro Klinjey lembrou que o vínculo emocional precede o pedagógico: nenhum aprendizado se sustenta sem presença humana. A máquina, disse, jamais lerá o não dito: a emoção no rosto, a troca de olhares. Competir com ela no terreno da velocidade e dos dados é derrota certa; o caminho é usá-la para potencializar o que só o humano faz. A ideia ecoou em Leandro Karnal, que comparou os educadores a uma espécie rara e cobrou a superação do modelo de ensino do século 19, preso a conteúdo e disciplina. Ao seu lado, o cantor Léo, da dupla Victor & Leo, deu um testemunho sobre como a educação socioemocional o reconectou à família depois de anos de estrada. 

Não por acaso, uma das frases mais repetidas no evento foi a de que a maior tecnologia educacional ainda é o professor competente e motivado, acima de qualquer sala high-tech. 

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O terceiro eixo deslocou o foco para o aluno. Diversas falas defenderam o protagonismo juvenil e a escuta autêntica, não protocolar, como condição para uma escola que faça sentido a quem nasceu neste século. Um jovem ex-presidente da UBES relatou como a educação pública transformou sua trajetória, da rede estadual a um programa internacional. 

A educadora Andrea Ramal emocionou ao mostrar o peso duradouro de uma palavra: o “você pode mais” de uma professora que moldou sua carreira décadas depois. Voltou ainda a questão da relevância: os jovens não aceitam mais horas passivas sem entender o porquê de cada conteúdo.

Priscila Cruz foi direta: “o currículo atual não cabe no tempo da escola nem na vida do aluno” e não é opinião isolada. A OCDE estudou mais de 50 países e concluiu que quase todos aumentaram a quantidade de conteúdos nas últimas duas décadas. Em 2020, lançou o relatório Curriculum Overload: A Way Forward, a primeira vez que uma autoridade global admitiu: currículo excessivo não é solução, é problema. 

E, tema tão urgente quanto delicado, a saúde mental dos jovens apareceu com dados preocupantes e um chamado à responsabilidade compartilhada entre escola, família e Estado. A saúde mental dos próprios trabalhadores da educação também ganhou espaço: em palestra dedicada ao tema, a jornalista Izabella Camargo provocou a plateia com a pergunta “cadê os EPIs da saúde mental?”, lembrando que a NR1 não é pauta exclusiva do RH, mas responsabilidade de toda a instituição, e atinge diretamente os educadores.

Outro destaque foi o ECA Digital, lei recente voltada à proteção de crianças e adolescentes, que determina idade para ambientes digitais, define responsabilidades de quem cuida dos jovens e impõe cuidados na manipulação de imagens infantis.

Voltamos de São Paulo com uma síntese clara para gestores e educadores gaúchos: a tecnologia entrou na escola para ficar, e ignorá-la não é opção. Mas adotá-la sem critério também não. A pergunta certa não é qual ferramenta utilizar, mas a serviço de qual projeto pedagógico?

Entendemos que inovar é investir no básico que a máquina não faz: professor bem formado, aluno ouvido de verdade e currículo que conecta com a vida. Porque, no fim, a Bett Brasil 2026 reafirmou o óbvio que às vezes esquecemos: nenhuma tela substitui o olhar de um professor que diz “você pode mais”.

*Estiveram presentes na Bett, juntamente com a diretora Nádia, representando o SINEPE/RS, o presidente Oswaldo Dalpiaz, os diretores Inácio Reinehr, Milton Gehrke, Ir. Celassi Dalpiaz, a assessora de comunicação Carine Fernandes e o assessor comercial Bruno Pinheiro.  

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