Muitos acreditam ter TDAH sem ter a condição, alerta neurologista
Presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, Rubens Wajnsztejn explica erros e falhas no diagnóstico do transtorno e mostra seus sinais
Falas sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ganham cada vez mais espaço no dia a dia. Se por um lado as redes sociais ajudam a aproximar as pessoas do tema, por outro, especialistas lembram que muitos casos ainda passam despercebidos.
De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), entre 5% e 8% da população geral tem TDAH. Na infância, a condição afeta de 5% a 7,6% das crianças, enquanto atinge 5,2% dos adultos de 18 a 44 anos e 6,1% das pessoas acima de 44 anos.
Neurologista infantil e professor do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Rubens Wajnsztejn aponta que diagnósticos precisos ainda são um desafio no Brasil. Segundo ele, o país enfrenta um subdiagnóstico e precisa de avaliações mais criteriosas, já que muitas consultas ocorrem de forma apressada e sem a participação de todos os profissionais necessários.
Em conversa exclusiva com o Educação em Pauta, o neurologista infantil e presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) indica os principais sinais de alerta para o TDAH em crianças e adultos. Ele também aborda como a escola pode ajudar os estudantes que possuem o transtorno.
Confira a entrevista na íntegra:
Ao mesmo tempo em que as redes sociais parecem promover uma alta de diagnósticos de TDAH, especialistas alertam que muitos casos reais continuam subdiagnosticados. Como você analisa esse cenário?
Inicialmente, existem informações inadequadas tanto para super quanto para subdiagnósticos, mas o acesso a diagnósticos precisos ainda é pequeno, considerando o tamanho do país. Acredito que os critérios ficaram mais definidos, mas também existe uma divulgação maior do quadro.
Hoje, temos um subdiagnóstico e, na verdade, precisaríamos ter mais gente diagnosticada. E, nesse caso, precisaríamos ter uma qualidade de avaliação melhor, porque, senão, vamos para o superdiagnóstico – que é quando há várias pessoas sendo identificadas sem ter o TDAH –, pois o diagnóstico acaba se tornando popular e as pessoas o fazem de qualquer maneira. Nisso, temos um lado negativo da história, em que muitas pessoas acabam se considerando com TDAH sem ter o transtorno. Mas acredito que temos uma possibilidade de melhora; basta melhorar a qualidade das avaliações e trabalhar de maneira correta.
Embora agora exista uma outra discussão para mudar o nome do TDAH. Houve um grande estudo sobre a questão da atenção e notou-se que ela não estava tão alterada quanto a motivação. Ou seja, os pesquisadores acreditam que o problema maior não é nem a atenção, é a motivação. Por exemplo, se você tem interesse no assunto, você presta atenção. Se você não tem interesse, você não presta atenção. Essa é uma discussão internacional porque, para mudar o nome, teria que mudar os critérios e os guias de orientação. Não é tão simples, mas, por exemplo, o pessoal que cria o diagnóstico, que elabora a CID [Classificação Internacional de Doenças], a classificação, esse grupo está discutindo isso fortemente.
Com o uso massivo de telas, a hiperestimulação digital e o aumento dos níveis de ansiedade e depressão, a falta de atenção tornou-se uma queixa frequente. Como se diferencia essa mera distração do TDAH clínico?
Ansiedade e depressão são quadros que se associam muito com o TDAH e também têm diagnósticos diferenciais importantes. A avaliação por especialistas é fundamental, com preferência por uma equipe multidisciplinar. O ideal para o TDAH é com a área de psicologia, mais especificamente a neuropsicologia. Podemos pensar no médico – o neurologista e o psiquiatra –, junto com os testes que a neuropsicóloga vai aplicar.
Depende também de caso a caso. Se você suspeita que a criança possa ter uma dislexia, é preciso uma avaliação psicopedagógica e uma avaliação da fonoaudióloga. Aqui na Universidade [FMABC], a equipe é formada pelo médico psiquiatra, psicóloga, neuropsicóloga, psicopedagoga e fonoaudióloga; esse é o núcleo central da avaliação. Porém, depende muito. A maioria, se você pensar só no TDAH, é o neuropsicólogo. Se você pensar que tem diagnóstico diferencial como ansiedade, depressão ou dislexia, então é preciso uma equipe maior.
Não estou dizendo que o TDAH não possa ser identificado pelo médico sozinho. O problema são as comorbidades e os diferenciais. Muitas vezes, a ansiedade é mais importante que o próprio TDAH. Então, na hora que você vai tratar, é melhor tratar a ansiedade, não o TDAH de primeira, por exemplo.
Leia também:
>> TDAH em adultos: quando o diagnóstico chega na fase adulta
>> Entender o autismo pelo lado clínico pode ajudar em sua alfabetização
>> Altas habilidades e Superdotação: múltiplas inteligências ativadas
É muito comum vermos vídeos curtos com listas rápidas do tipo “5 sinais de que você tem TDAH”. Quais sinais devem ser levados em consideração para que a pessoa comece a suspeitar de um diagnóstico de TDAH? E quanto tempo leva para o paciente ter esse diagnóstico?
Essas listas são tecnicamente chamadas de instrumentos de rastreio, isto é, triagem para esses distúrbios, mas não de diagnóstico. O principal sinal que engatilha a procura de atendimento é por conta da falta de atenção. A concentração das crianças menores e a questão da hiperatividade e impulsividade. Em adultos, seria a inquietação motora e a desatenção, sem dúvida. Em geral, a desatenção é o carro-chefe.
A equipe do FMABC já tem um modus operandi e, em torno de 15 dias, temos o diagnóstico. Isso porque temos uma equipe estruturada, ou seja, já existem os dias certos de avaliação. Em relação a outros locais, existe uma demora maior, mas deve levar no máximo um mês. Por exemplo, com uma consulta semanal, seriam em média seis consultas e, se houver uma consulta por semana, vai demorar seis semanas. As consultas com a neuropsicóloga são as que mais demoram. Mesmo que você tenha uma psicopedagoga, fonoaudióloga, elas vão fazer duas ou três consultas. A neuropsicóloga não; serão em torno de seis. Às vezes me surpreende, porque tenho pacientes que chegam e falam: “Demorou seis meses para fazer um diagnóstico”. Isso não é o normal, pois geralmente é mais rápido.
Qual é o papel e o limite seguro da medicação no tratamento do TDAH hoje?
A medicação para o TDAH é segura quando bem indicada e seguindo os protocolos internacionais, como avaliações de função cardíaca e pressão arterial feitas por toda essa equipe que comentei. O uso de medicação é indicado para muitos pacientes que têm prejuízos funcionais importantes associados aos sintomas, e é recomendado para estruturar o funcionamento cerebral.
E, em relação às instituições de ensino, como elas podem contribuir no processo de identificação de diagnóstico? Qual é o seu principal conselho?
O papel do educador é a porta de entrada para o diagnóstico na infância e na adolescência. Por isso, é necessário promover a inclusão dos alunos utilizando leis e procedimentos diferenciados quando necessário, como a aplicação de avaliações adaptadas para a criança que não consegue acompanhar o ritmo da sala.
Vou dar um exemplo simples: o professor vai fazer uma avaliação com dez questões e o aluno com TDAH vai fazer só sete. Ele seleciona um número menor ou então faz uma prova realmente adaptada, com um enunciado menor que a criança consiga superar, mas isso é quando ela não consegue render.
Por outro lado, muitos estudantes com TDAH são o oposto: eles vão muito bem nas disciplinas. Antigamente, se orientava fazer a prova em um local separado e com mais tempo. Hoje, já consideramos que não é tão eficaz porque exclui a criança do grupo e, em muitos casos, as outras ficam incomodadas. Normalmente procuramos alguma adaptação quando é necessário, a partir do diagnóstico comprovado.
TAGS
E fique por dentro das novidades