Professores e criadores de conteúdo unem forças na educação

Em vez de disputar atenção com as telas, docentes podem utilizar vídeos curtos sobre ciência como disparadores para a pesquisa e o pensamento crítico

imagem: Reprodução Instagram

“Você sabe que a mamãe do canguru guarda o filhote na bolsa, mas você sabia que ele nasce assim?” É com essa provocação – acompanhada da imagem surpreendente de um recém-nascido tão pequeno que lembra um ursinho de goma – que a bióloga Eduarda Melo dá início a um de seus vídeos no perfil Biologueirinha. Nas redes sociais, ela traduz conceitos científicos complexos em explicações dinâmicas e acessíveis. O que antes parecia uma disputa pela atenção dos alunos vem se convertendo em algo muito mais promissor: uma aliança estratégica entre criadores de conteúdo voltados à educação e professores.

Longe de substituir o livro didático ou o papel do docente, essa convergência revela um novo capítulo no ensino: a curadoria pedagógica. Se por um lado os vídeos curtos despertam o encantamento e a curiosidade inicial dos estudantes, por outro, a escola e os educadores podem contribuir significativamente para transformar esse entusiasmo em investigação científica e reflexão crítica. 

A professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRGS Patrícia Fernanda da Silva aponta que o desafio não é competir com o ritmo das mídias digitais, mas usar o repertório que os alunos já consomem nas redes como ponto de partida para debates muito mais profundos em sala de aula. “Nós não precisamos competir com o influenciador. O criador muitas vezes traz o tema de forma mais atrativa e engajadora; o papel do professor é pegar esse gancho e trazer o debate para o contexto científico, histórico, social e ético, fazendo as perguntas certas”, afirma a docente. 

O primeiro passo para integrar os materiais digitais às aulas exige uma avaliação criteriosa por parte dos professores. Diante do grande volume de produções nas redes, os docentes precisam diferenciar métricas de engajamento do verdadeiro rigor teórico. “Nós não podemos confundir popularidade com autoridade científica. Ter muitos seguidores, ter muitas visualizações e curtidas não significa que aquele conteúdo tenha rigor acadêmico”, destaca Patrícia. Segundo ela, o professor precisa primeiro investigar quem é o criador, qual é a sua formação e, principalmente, se aquela formação é pertinente ao tema que ele está abordando.

Da mesma forma, a coordenadora do curso de Pedagogia da PUCRS, Rosane Zimmer, ressalta que o educador precisa desenvolver uma dupla competência para realizar essa seleção com segurança: domínio fluente da sua disciplina e conhecimento sobre como a informação é produzida nos meios virtuais.

“O professor não pode fazer o mesmo papel do estudante, que apenas consome o recorte superficial; ele precisa navegar, analisar o perfil do criador e fazer uma curadoria aprofundada”, aponta Rosane.  

Conteúdo digital como disparador de debates 

Para os criadores de conteúdo, usar uma linguagem simples é a melhor forma de aproximar a ciência da rotina dos estudantes. Ao roteirizar seus vídeos – centrados em temas sobre a fauna, curiosidades do reino animal e fenômenos evolutivos –, Eduarda Melo procura evitar termos técnicos complicados para despertar a curiosidade do público antes de entregar o conceito científico. “Eu tento explicar o processo em vez de dar o nome do processo. O meu ‘superpoder’ é pegar um negócio que pode parecer impossível e transformar numa coisa que vai instigar. E essa explicação vai ser científica”, conta a bióloga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Com foco no reino animal, vídeos da bióloga alcançam quase meio milhão de visualizações | Crédito: Reprodução Instagram 

Para ela, na sala de aula, esse tipo de material pode funcionar como um gancho para introduzir o conteúdo curricular. “O vídeo serve de introdução a um tema que já vai tirar a criança do zero. O professor vai pegar o aluno já um pouquinho pronto e dizer: ‘Gente, vocês viram esse vídeo? Agora vamos conversar melhor sobre ele”, pontua Eduarda.

Essa utilização é validada pelas especialistas, desde que o vídeo não substitua a aula do professor. Para explicar esse cuidado, a professora Rosane Zimmer recorre ao conceito de “transposição didática”, formulado pelo teórico francês Yves Chevallard. A teoria descreve o caminho que o conhecimento científico precisa percorrer até se transformar em um saber escolar. Na internet, como essa adaptação é feita para caber em vídeos muito curtos, a informação corre o risco de se tornar superficial se o docente não fizer a devida contextualização pedagógica em aula.

“Um vídeo de um minuto, dois minutos é raso. Ele pode ser usado como uma ilustração ou para abrir um debate, mas esse ofício do conhecimento é do professor. A curadoria não é simplesmente fazer a transposição, pegar o vídeo, passar e estar pronto. É um pedaço, tem que ter uma sequência pedagógica”, explica a docente.

Para evitar que a exibição de conteúdos digitais mantenha o aluno em uma postura passiva, Patrícia orienta que a mediação do professor deve propor um olhar investigativo sobre a própria publicação. “Se eu colocar um vídeo, o aluno vai assistir e depois responder perguntas; ele vai continuar no consumo passivo. Mas, se eu transformar aquele conteúdo em um objeto de investigação, isso muda de perspectiva. Podemos perguntar: quais as evidências que o autor tem? Quem é aquele autor? As fontes que ele citou são verdadeiras? Existem outras fontes que confirmam ou contradizem essa informação?”, pondera. 

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Diversidade de vozes 

Além de servir como objeto de checagem, a curadoria digital permite diversificar o repertório e trazer representatividade para a sala de aula. É o caso do trabalho desenvolvido por Kananda Eller. Formada em Química e mestre em Ensino de Ciências Ambientais pela Universidade de São Paulo (USP), a comunicadora criou o projeto Deusa Cientista, canal em que resgata a história da ciência, a ciência afro-brasileira, a ciência indígena e as contribuições de pesquisadores negros e mulheres historicamente invisibilizados.

“Nos meus conteúdos, eu busco descentralizar o conhecimento científico vindo do continente europeu para trazer essa realidade para o Brasil. Isso é um fator não só inovador, como de formar um pensamento crítico nessas novas gerações, que possam buscar teorias, teóricos e referências que se aproximem mais da realidade delas”, conta Kananda. 

Vídeo de Kananda sobre o primeiro presidente negro do Brasil conta com quase 50 mil visualizações | Crédito: Reprodução Instagram 

Para a pesquisadora, o papel das plataformas digitais é acender o interesse pelo saber formal, funcionando como uma ponte para o estudo aprofundado. “Costumo dizer que eu tenho um conteúdo que não substitui a sala de aula, a pesquisa, o trabalho do estudante; ele é uma luz que mostra qual é o caminho. Às vezes a indiferença ou a falta de interesse vira curiosidade, que é a alma de todo pesquisador e cientista”, acredita. 

Embora a aproximação com divulgadores científicos traga frescor ao ensino, ela também expõe o desafio do letramento midiático. A criadora Eduarda Melo relata que percebe em parte do seu público uma transferência de confiança cega: em vez de desenvolverem o senso crítico, muitos jovens passam apenas a acreditar de forma incondicional nos criadores educativos. 

“Eles deixaram de confiar cegamente na galera da desinformação e passaram a confiar em mim e em outros criadores. Claro que é um problema menor, porque a gente se preocupa com o embasamento, mas a parte difícil a gente ainda não conseguiu chegar totalmente lá, que é o desenvolvimento desse senso de questionamento, de desconfiar antes de se certificar”, destaca.

Essa urgência de comunicar com clareza ganhou força durante a pandemia de covid-19, quando o avanço da desinformação provou que o distanciamento da academia tem um preço alto. Kananda observa que traduzir o rigor conceitual para uma linguagem acessível deixou de ser uma escolha para virar uma necessidade. Do contrário, para ela, o apagão científico afeta o desenvolvimento do país. “A ciência pode perder o seu papel, que é trazer soluções para a sociedade, e pode perder com investimentos também”, alerta a química. Para ela, abandonar o pedestal acadêmico é o único caminho viável. “Não existe um outro futuro que não seja se aproximar da sociedade”, conclui.

É justamente nessa divisão de papéis que a curadoria digital ganha força no ensino. Enquanto o divulgador científico usa o feed para resgatar o encantamento da juventude de forma rápida e atrativa, a escola entra para garantir a densidade que a tela não permite. 

Para a professora Rosane Zimmer, a sala de aula não deve ser refém do ritmo frenético da internet. “O papel da escola dentro da sociedade é dar uma freada em relação a essa velocidade e não replicar o que a gente comumente faz”, pontua. Nesse contexto, transformar uma simples curiosidade em conhecimento real exige um recurso escasso no mundo digital. “Observar, analisar, ouvir e comparar precisa de tempo. E esse é o nosso papel”, conclui a pedagoga.

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