Os desafios da escola na construção de uma masculinidade saudável
Profissionais de saúde e educação apontam a inteligência emocional e a confiança como caminhos de transformação
É visível que a educação de meninos enfrenta um momento complexo. De um lado, há uma geração de homens que sobreviveu às antigas expectativas sociais que cobram autossuficiência e contenção emocional. Do outro, emerge um mundo em transformação, que traz debates sobre empatia, diálogo e respeito à diversidade.
No centro disso tudo, meninos em formação encontram-se isolados em seu próprio sofrimento, muitos sem acesso a ferramentas emocionais para pedir ajuda – uma vulnerabilidade silenciosa cujos impactos mais graves são refletidos nas estatísticas. E, para balizar essa situação, um estudo realizado pela Fiocruz, de 2024, aponta que, no Brasil, os meninos representam cerca de 70% das mortes por suicídio registradas entre crianças e adolescentes.
No livro “Homem Fora da Caixa: Guia para uma masculinidade mais saudável“, o psiquiatra Jairo Bouer questiona os limites dessa criação tradicional. Para ele, que há mais de 30 anos trabalha com jovens, a falta de flexibilidade na formação dos meninos tem gerado um desencontro direto com as demandas da sociedade atual. Tal situação abre margem para um risco crescente: o refúgio em comunidades virtuais extremistas que promovem o resgate de um machismo caricato.
Bouer comenta que, na ausência de um modelo, os meninos copiam fórmulas prontas que encontram em bolhas das redes sociais ou de grupos que fazem parte de uma tentativa de resgate dessa masculinidade ainda mais tradicional do que a que hoje é oferecida. “Esses garotos, muitas vezes, se sentem acolhidos, o que acaba sendo complicado, já que eles têm uma dificuldade de lidar com o mundo que está em transformação”, alerta.
A repressão das emoções, de acordo com Bouer, não é apenas um traço comportamental, mas um catalisador de crises psíquicas graves. Ao associarem a vulnerabilidade emocional com fraqueza, muitos meninos respondem com o isolamento ou com a exteriorização da dor por meio da violência.
“Muitos garotos têm uma dificuldade muito grande de entrar em contato com a dimensão emocional. É como se isso não pudesse existir. Quando enfrentam alguma crise, a resposta é o silêncio, e isso cria um espaço para que essas angústias e conflitos cresçam. Eles se tornam impulsivos e agressivos, com eles mesmos e com as meninas. Não é à toa que os quadros de saúde mental em meninos, quando acontecem, são muito mais graves”, explica o psiquiatra.
Diante desse cenário, pais e educadores precisam desenvolver um olhar atento a comportamentos silenciosos, que muitas vezes mascaram pedidos de socorro. A dificuldade de aprendizado, por exemplo, pode ser consequência de um sofrimento psíquico. Com a necessidade crescente de prevenção da violência e de promoção do bem-estar, as instituições de ensino ocupam um espaço central. Para Bouer, a inteligência emocional não é um dom inato, mas uma competência que precisa ser ensinada e exercitada de forma contínua no ambiente escolar.
“Professores e gestores devem estimular a construção de espaços de conversa com os meninos desde cedo, mostrando que essas questões são importantes de serem sentidas e compartilhadas. É preciso trazer para o campo do real a possibilidade de entrar em contato com as emoções e vulnerabilidades”, defende.
Segundo ele, é necessário mostrar que as mulheres podem ser aliadas, e não inimigas, no processo de construção da masculinidade; é uma estratégia que pode ser utilizada inclusive por professores homens. “É importante mostrar para meninos e meninas que existe um compartilhamento muito maior de atribuições, de trocas e de escuta dos dois lados”, ressalta.
Combater condutas misóginas, machistas e violentas entre os estudantes é um desafio quase diário para as instituições de ensino e devem ser compreendidas para além de acontecimentos pontuais. O psicanalista Julio Walz afirma que, por não se tratarem de construções puramente cognitivas ou lógicas, os preconceitos operam como escudos emocionais contra a percepção do próprio desamparo.
“O agressor ataca e discrimina para mascarar o próprio medo da vulnerabilidade, mas ele não sabe e não sente assim. Portanto, não combateremos esses preconceitos apenas com belos discursos intelectuais ou nos escandalizando”, afirma.
A resposta estrutural preventiva da escola para essas situações deve ser a construção diária de relações de confiança. “O filósofo Baruch Spinoza afirmava que o melhor para um ser humano é outro ser humano sem preconceito. Transpondo isso para as relações humanas, o problema em si não é a fragilidade do menino, mas a intolerância do adulto diante dessa fragilidade. Quando pais e educadores não suportam as dificuldades ou a dúvida de uma criança, cria-se uma bomba-relógio relacional”, pontua o psicanalista, que apresenta o podcast Cuidar não é Educar.
Promover a construção de uma sociedade menos machista e também a saúde mental dos estudantes exige, na visão de Walz, o resgate de uma premissa básica: a instituição e seus educadores precisam gostar da infância e da juventude.
Para ele, sem um afeto de base, qualquer projeto pedagógico pode virar mera disputa de controle ou uma luta de forças. Sem o “gostar”, a intolerância assume o comando e a escola passa a reproduzir a lógica punitiva do olho por olho, mesmo que não perceba isso. “Gostar do aluno é um princípio de auto-observação indispensável para que as soluções operem sob a lógica do cuidar, e não do educar baseado na intolerância”, orienta.
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A transformação definitiva na prevenção do assédio, do machismo e da misoginia passa pela participação ativa da própria juventude. Ao criar canais abertos de escuta e mediação de conflitos, a escola capacita os alunos a assumirem uma postura empática e colaborativa. Um exemplo vem do Colégio Marista Rosário, de Porto Alegre, que tem integrado a reflexão sobre o papel do homem e a expressão saudável dos sentimentos às dinâmicas pedagógicas da instituição.
De acordo com a coordenadora pedagógica dos Anos Finais do colégio, Graziela Zanotta Acosta, a intervenção do ambiente escolar é crucial para a mudança cultural. “Educar integralmente significa também criar espaços para que os estudantes reconheçam, expressem e acolham suas emoções, desenvolvendo recursos para lidar com o novo, com as frustrações, diferenças e conflitos de maneira respeitosa e não violenta. Nesse sentido, entendemos que é importante questionar modelos culturais que, historicamente, associaram a masculinidade à força, à repressão das emoções ou à agressividade”, destaca.

Para os Anos Finais do Ensino Fundamental, o colégio desenvolve ações intencionais para aproximar o conhecimento formal da realidade social. Um dos destaques foi a sequência didática promovida com os estudantes do 9º ano, conectando múltiplos componentes curriculares da área de Linguagens. Ao longo do projeto, os alunos analisaram a Lei do Feminicídio, estudaram a biografia de Maria da Penha e discutiram o impacto das desigualdades de gênero. A iniciativa incluiu ainda um painel de diálogo com uma delegada da Polícia Civil.
Entre os meninos, especificamente, houve um reforço em atitudes que auxiliam no combate à misoginia e à violência contra a mulher, como a escuta ativa das colegas. A receptividade das turmas revelou a disposição dos jovens em debater os temas. “Percebemos que, quando a temática é trabalhada com intencionalidade pedagógica e espaço para a escuta e o diálogo, os estudantes conseguem ampliar seus olhares, questionar ideias naturalizadas e ressignificar situações que muitas vezes fazem parte de seu cotidiano”, avalia Graziela.
Para que a temática não fique restrita a momentos pontuais, a instituição adota uma perspectiva transversal. Os debates atravessam as diversas disciplinas do currículo, os projetos comunitários e também os próprios momentos de convivência do ambiente escolar, como os intervalos e os tempos de mediação de conflitos. A consolidação desse processo exige também uma ponte com as famílias, garantindo que o aprendizado sobre o respeito e a gestão de emoções tenha continuidade dentro de casa.
“Quando escola e família se reconhecem como parceiras na formação de crianças e adolescentes, ampliamos as possibilidades de construir relações mais saudáveis e uma sociedade mais empática, justa e respeitosa”, conclui a coordenadora.

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