Jairo Bouer orienta sobre como acolher as vulnerabilidades dos jovens

Psiquiatra analisa os impactos do modelo tradicional de criação e o papel da família e da escola na saúde emocional das novas gerações

imagem: Divulgação

Ao abordar temas centrais como educação sexual, abuso de telas, consumo de substâncias e misoginia digital, o psiquiatra Jairo Bouer defende uma postura integrada entre família e escola. Isso pautado pelo diálogo e pela construção de redes de apoio que permitam aos jovens acolher suas próprias vulnerabilidades. 

Essas provocações ganham ainda mais profundidade em sua obra mais recente, Homem Fora da Caixa: Guia para uma masculinidade mais saudável, em que Bouer traz reflexões importantes para o desenvolvimento de uma nova forma de ser homem no mundo. Seu objetivo é propor caminhos para superar estereótipos pautados pela agressividade e pela negligência com a saúde mental.

Com mais de 30 anos de atuação na comunicação voltada para saúde, comportamento e sexualidade, o médico é referência no país e já colaborou com veículos como Folha de São Paulo, TV Cultura e a extinta MTV. Atualmente, marca presença no UOL, na Rede Globo, na BandNews FM, na Rede Atlântida, em rádios por todo o Brasil e nas principais mídias digitais.

Confira a entrevista exclusiva ao Educação em Pauta:

No seu último livro, você questiona regras rígidas sobre o que é “ser homem”. A partir da tua experiência de escrita e também trabalhando com jovens, o que mais tem adoecido os nossos meninos no modelo tradicional de criação?

Essa rigidez no modelo de se criar meninos tem deixado muitos jovens meio perdidos. Eles percebem que existe um modelo tradicional, que é reforçado pela sociedade, pelas estruturas sociais, e muitos deles não se encaixam nesse modelo, especialmente na dificuldade de relacionamento com as garotas. Eu tenho a sensação de que existe certo descompasso entre o modelo tradicional e o que eles encontram hoje. A garota que eles procuram não existe mais, e as garotas esperam um garoto que ainda não chegou, ainda está em desenvolvimento, se descobrindo. Esse descompasso incomoda e aí é o risco de que, na ausência de um modelo, eles copiem fórmulas prontas. 

Essas fórmulas podem ser encontradas, por exemplo, em bolhas das redes sociais e grupos que fazem parte de uma tentativa de resgate dessa masculinidade tradicional, ainda mais tradicional do que a que hoje é oferecida. Esses garotos se sentem forçados e acolhidos dentro dessas possibilidades. O que acaba sendo complicado para eles, porque têm uma dificuldade de lidar com o mundo que está em transformação.

A educação sexual nas escolas é um tema que ainda divide opiniões. Como alinhar família e escola para abordar o tema de forma natural e focada em consentimento, autoproteção e respeito?

Este é um tema que, em teoria, não deveria dividir opiniões. Se a gente pensar nos anos 1990, falava-se muito mais de sexualidade nas escolas do que a gente fala hoje, porque tínhamos a epidemia de HIV e AIDS. Era preciso falar de prevenção, e isso foi um aspecto imperativo para que essas discussões acontecessem. Houve aí, no meu entender, nas últimas décadas, uma associação completamente inadequada de discussão de sexualidade e política. Houve uma politização dessas discussões. Então, educação e sexualidade não são de um lado ou de outro, de um partido ou de outro; são de todo mundo, são do humano. E a gente tem que educar para começar de novo em casa e continuar na escola, porque esse é um tema que está presente na vida dos estudantes. 

Temos o papel de educá-los para essa vivência, porque, senão, eles se educam nas redes sociais e na pornografia.  Eles seguem com dúvidas, com ansiedades e inseguranças, com uma construção completamente distorcida da realidade, muito mais focada em performance do que em afeto. Com isso, a vida sexual deles e delas vai ser muito mais complicada. 

A questão de consentimento, de autoproteção, de respeito acaba passando batido. Devemos utilizar esses temas como ganchos para uma discussão bem completa de sexualidade. Sexualidade não é só o sexo, não é só a questão biológica, mas todos os aspectos comportamentais, emocionais, sociais que envolvem essa discussão.

Jairo Bouer marcou uma geração na TV e nos jornais, abordando assuntos relacionados à saúde e à sexualidade, sempre com uma linguagem acessível | Crédito: Divulgação

O consumo de cigarros eletrônicos (vapes), álcool e outras drogas continua presente na juventude. Como abordar a prevenção de substâncias, superando discursos moralistas ou alarmistas que já não funcionam com os jovens?

Tendo a acreditar que essa é uma discussão que deveria estar presente não só na escola, mas também em casa. Prevenção ao abuso ou uso inadequado de álcool e drogas, sexualidade, discussão de gênero, bullying, educação digital – tudo isso é um campo vastíssimo de discussão de comportamento sobre emoções e saúde com esses jovens na escola. Isso deve ocupar o espaço nessa grade desde cedo. Eles vão entrar em contato com álcool e outras substâncias ao longo da juventude e na vida adulta. Isso faz parte do processo de crescimento deles. 

Para superar discursos moralistas e alarmistas, a indicação é mostrar os impactos, discutir o que cada uma dessas substâncias pode afetar no que diz respeito às relações sociais, ao aprendizado e à saúde. O foco da prevenção tem que ser no uso abusivo, nas dependências e na percepção de como isso pode ser danoso. Esse padrão de uso abusivo pode ser danoso para a vida deles. 

Um ponto importante a ser lembrado é que o abuso do uso de álcool e outras drogas é mais frequente nos meninos do que nas meninas. Isso é reforçado pela questão de testar os próprios limites, de se provar no mundo como homem e como isso pesa para os garotos. 

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O uso excessivo de telas e redes sociais tem impactado o sono, o foco e a autoestima dos estudantes. Como construir uma relação saudável com a tecnologia? 

É fundamental, juntamente com a educação sobre o uso abusivo de substâncias e comportamentos agressivos, educar esses jovens para a tecnologia. Até que ponto esse uso é saudável e até que ponto ele prejudica a minha vida? Como eu consigo ter esse limite? 

O jovem vai dormir mais tarde, piora a qualidade do sono, do foco e, por consequência, o aprendizado pode piorar também. Também tem a questão da comparação com os outros, a questão da autoestima, que também tem impacto no desenvolvimento social e de aprendizagem. 

Tem se discutido no mundo inteiro a restrição do uso de celulares nas escolas e também do uso de redes sociais pelos jovens em diversos países. Em um momento em que a Inteligência Artificial está muito presente, os jovens precisam ser educados para tirar o melhor proveito das tecnologias e reconhecer os riscos. 

O cyberbullying e a agressividade no ambiente digital muitas vezes envolvem comportamentos de validação entre os próprios meninos. Como transformar a cultura escolar de uma postura punitiva para uma de acolhimento e responsabilidade?

Se a gente for pensar nas chamadas “machosferas” e no movimento red pill, que oferecem um formato de masculinidade e de ser homem no mundo de uma maneira completamente distorcida, elas acabam encantando o jovem que está meio perdido. E isso é muito fácil de acontecer no ambiente virtual, em que o algoritmo facilmente impulsiona os jovens para grupos com os quais eles podem se identificar. 

É preciso a construção de um processo em que eles percebam o papel deles e os riscos que estão presentes nas telas. Temos visto aí uma violência crescente, muitas vezes fomentada e escalonada pelas redes sociais, pelos grupos de misoginia. Por isso, a gente precisa que a escola e os próprios pais ofereçam um contraponto, mostrando que existe uma forma muito mais bacana e funcional de se relacionar com os outros.

Que conselho você deixa para pais e educadores que desejam formar meninos mais saudáveis emocionalmente?

O primeiro ponto é fazer com que eles reconheçam que o mundo das emoções existe e não é só das mulheres, mas de todos. A gente pode ter dúvidas e conflitos, e é importante que se enxergue isso. Eu costumo dizer que as pessoas se olham no espelho dez vezes por dia, e os adolescentes ainda mais. Para saber se o cabelo está arrumado, se tem espinha, se a maquiagem está ok, mas eles não se perguntam na frente do espelho como eles estão. É preciso trazer essa dimensão emocional, entender que meninos podem e devem entrar em contato com essas emoções. Quando eles não estiverem se sentindo bem, procure alguém em quem confiam para conversar sobre esse sentimento. 

As vulnerabilidades acontecem na vida de todos e, em algum momento da vida, homens e mulheres, meninos e meninas vão ter essas situações. É importante poder contar com uma rede de suporte; ter com quem falar sobre aquilo que se está sentindo pode mudar muito as posturas e os comportamentos da gente diante do mundo. Pais e educadores têm que construir isso de uma maneira estruturada para os jovens ao longo do desenvolvimento deles, da infância à adolescência. 

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