Dados não mudam escolas, pessoas mudam

Neste artigo, Rafael Korman defende que a verdadeira virada no colégio vem da cultura coletiva, e não dos dados

Rafael Korman, doutor em Educação (PUCRS/Harvard), fundador do Instituto DEEP Nexus e representante da metodologia Data Wise, da Harvard Graduate School of Education, no Brasil

Nunca tivemos tantos dados sobre a aprendizagem dos nossos estudantes. Avaliações externas, plataformas adaptativas, sistemas acadêmicos e, agora, a inteligência artificial (IA) colocam à disposição das escolas um volume de informação impensável há uma década. A IA permite análises que nenhuma equipe faria sozinha. Ainda assim, por que tantas escolas com dados abundantes seguem decidindo por intuição?

Porque persiste uma ilusão: a de que a escola mais preparada é a que tem o melhor “observatório de dados”, a planilha mais completa, o painel mais bonito. Não é. A tecnologia evoluiu de forma espantosa, mas isso não significa que saibamos usá-la para o propósito certo. Pesquisas da RAND Corporation já alertavam: ter dados não garante boas decisões. Algoritmos revelam padrões; dar sentido a eles ainda é trabalho humano.

Os casos de sucesso apontam na mesma direção. Sobral (CE) virou referência em alfabetização não por um sistema sofisticado, mas por metas claras, avaliação regular e acompanhamento próximo da sala de aula. Nos Estados Unidos, redes como Boston e Prince George’s County, e no Brasil, municípios como Barão do Triunfo e Encantado, que adotaram o Data Wise, de Harvard, mostram que o salto acontece quando equipes de professoresinvestigam juntasas evidências e assumem um foco comum de melhoria. 

O conceito por trás disso é a eficácia coletiva dos professores: a crença compartilhada de que, juntos, fazemos diferença na aprendizagem de todos. Nas sínteses de John Hattie, ela aparece entre os fatores de maior impacto no desempenho dos alunos, acima do nível socioeconômico. E ela não nasce de um decreto: cresce quando a equipe define metas em comum, conhece a prática dos colegas e vê, nos dados, o efeito do próprio trabalho.

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Criar uma cultura de dados exige três pilares. Tecnologia: o quanto dominamos as ferramentas e elas facilitam o trabalho. Pessoas: o quanto professores e gestores estão dispostos e conectam seu propósito ao uso crítico das evidências. Processos: o quanto há marcos e rotinas na vida da escola para isso acontecer. Não é uma palestra pontual na jornada pedagógica, mas uma implementação contínua, do propósito compartilhado à mudança da cultura organizacional.

É assim que a gestão pedagógica se torna o núcleo da excelência acadêmica. Quando a aprendizagem vira o indicador central da instituição, os dados deixam de ser burocracia e passam a revelar quem as médias escondem. Políticas de inclusão e equidade começam exatamente aí: enxergar, aluno a aluno, quem está ficando para trás, e agir a tempo.

Trabalho com o Data Wise aqui no Brasil há quase dez anos. Aprendi que as mudanças mais significativas não estão nas ferramentas, mas nos comportamentos. As ferramentas mudam rápido. Os comportamentos e a cultura se enraízam.

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