Parceria com as famílias nasce da empatia

Instituições de ensino promovem momentos de construção coletiva para aproximar os elos da comunidade e deixar os papéis bem definidos

imagem: Colégio Marista Rosário, divulgação

A família precisa ser um parceiro importante na construção de um ambiente favorável para o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Aliás, é um dos pilares para essa construção. Cientes disso, gestores e educadores promovem espaços de convivência, troca de informação e reforço dos laços entre toda a comunidade escolar. 

Esse fortalecimento do vínculo pauta a terceira e última reportagem da série “Família e Escola”, do Educação em Pauta, que já abordou temas como novos limites, transparência e alinhamento.

É natural que alguns responsáveis demonstrem maior interesse em relação a outros, mas isso não é motivo para esmorecer. Ao contrário: focar nesse público é importante porque eles se tornam replicadores da mensagem. São os mais frequentes que ajudam, em grupos de Whatsapp ou encontros informais, a compreender a visão da instituição. Ao mesmo tempo, essa relação mais estreita ajuda a escola a se colocar no lugar das famílias.

“De todas as instituições que existem, a escola ainda é um espaço de diálogo e de construir junto. O ímpeto da família no sentido de ter algo resolvido imediatamente, ou a insatisfação caso a solução não seja da forma que ela gostaria, é porque também confia que esse espaço é onde ela pode colocar sua irritabilidade, trazer seus dramas pessoais. Então, a escola acaba dando acolhimento, mas também colocando limites”, analisa a psicóloga escolar do Colégio Santa Doroteia, Ana Paula Machado. 

Ana Paula entende que, dentro desse acolhimento, existem questões relacionadas ao desenvolvimento dos estudantes que devem ser discutidas entre as partes. Para fazer esse trabalho, a escola não pode personificar questões como as que ela exemplificou antes, ainda que haja famílias mais incisivas, que consideram a escola um prestador de serviços destinado a cumprir os desejos dos clientes. “Com o convívio, vamos mostrando que a escola sabe o que está fazendo”, frisa.

Isso é trabalhado em espaços como o Grupo Laços, criado na instituição em 2024, a partir de um grupo de estudantes que já debatiam temas da sociedade contemporânea. Eles promoveram uma palestra sobre bullying e, depois do evento, alguns pais se sentiram motivados para montar um grupo dentro da própria escola.

Os encontros são quinzenais, às quartas, no fim do dia. São momentos de formação e discussão para criar outras atividades e chamar mais famílias. O grupo continua promovendo palestras, em um movimento pensado para ser “de pais falando para pais”, como define Ana Paula. 

Grupo Laços se encontra quinzenalmente para debater temas da sociedade contemporânea e organizar eventos para outras famílias | Crédito: Colégio Santa Doroteia, divulgação

Cada nova ação é divulgada, abre-se um período para inscrições e toda a dinâmica fica a cargo dos integrantes do grupo. “Percebemos que os pais que fazem parte do grupo acabam tendo um movimento mais orientativo, nos próprios grupos de WhatsApp. Eles incentivam [os outros] a conversarem com a escola, informam quem é o responsável por determinado setor e indicam os profissionais. As próprias palestras eles vão colocando nos grupos de pais”, conta a psicóloga.

A percepção é que muitos pais começaram a ver melhor o lado da escola. No momento em que a família compreende determinados contextos, entende tomadas de decisões por parte da gestão e ajuda a evidenciar isso para outros responsáveis. O Grupo Laços é uma oportunidade para que eles experimentem isso. Até mesmo problemas pontuais e complexos são levados ao conhecimento desses pais, guardados os dados sensíveis e a identificação dos envolvidos, para que compreendam o quão desafiador pode ser o dia a dia de uma instituição de ensino.

“Entendo que a distância faz com que se criem muitos imaginários: que a escola não resolve algo por falta de vontade etc. Quando os pais estão imersos nas formações, discutindo o desenvolvimento dos filhos, a gente consegue unir forças, ter esse olhar em prol da criança e do adolescente”, observa Ana Paula. O quórum muitas vezes fica aquém do que a gestão do colégio gostaria – são mais de dois mil alunos e os eventos reúnem, em média, entre 30 e 50 interessados, em média. No entanto, o entendimento é que fortalecer as pessoas que realmente querem buscar conhecimento, estar junto da escola e pensar nas melhores formas de resolver problemas é uma maneira de fortalecer toda a comunidade.

Angústias familiares

Não são apenas os estudantes que carregam suas incertezas para dentro da escola. Os pais também têm inseguranças que demandam acolhimento. No Colégio Concórdia Porto Alegre, os gestores identificaram que a mudança do segundo para o terceiro ano do Ensino Fundamental assustava os grandes e os pequenos – especialmente a troca na fórmula de avaliação, que deixa de ser por parecer e passa a receber notas.  

“Os pais começam a ficar angustiados, pensando se os filhos vão passar. Esta foi a primeira turma que nós chamamos para conversar, trabalhando mais as questões de aprendizagem”, conta a coordenadora pedagógica da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental do colégio, Denise Caldeira Zschornack. O trabalho foi de conscientização sobre como organizar a rotina de estudos, quanto era preciso estudar e a importância de acompanhar as lições de casa.

A ideia deu tão certo que surgiu daí o Projeto Conexões, abrangendo até o quinto ano. “É um momento em que eles precisam ensinar autonomia, que isso também se ensina. Quando se fala sobre autonomia para os pais, eles falam ‘então se vira’, mas não ensinaram”, alerta Denise. A conversa acompanha as demandas de cada ano: no quarto, entende-se que eles já devem ter mais autonomia, então a conversa é sobre rotina de estudos, provas e avaliações. No quinto, os estudantes – e as famílias – começam a se preparar para o ano seguinte, quando passam a ter 12 professores.

Depois de consolidado, o projeto chegou à Educação Infantil. O diálogo foi para que dessem mais segurança para as crianças no ambiente escolar, confiando no processo de adaptação e de acolhimento oferecido pela instituição. Os marcos de desenvolvimento também entraram na pauta, orientando as famílias sobre a importância de não fazer comparação entre os pequenos, pois cada um tem seu tempo. 

No último nível da Educação Infantil, a conversa já parte para a pré-alfabetização e a alfabetização. As famílias conhecem o material didático e entendem como acompanhar o andamento das atividades. 

Projeto Conexões nasceu da angústia dos pais em relação às mudanças inerentes ao ciclo de aprendizagem dos estudantes | Crédito: Colégio Concórdia Porto Alegre, divulgação

Enquanto o primeiro semestre foi dedicado à rotina de estudos e aprendizagem, com apoio em casa, o segundo ganha uma perspectiva de orientação educacional. Temas como o uso consciente de telas entram na pauta, até porque a escola utiliza sistemas digitais como suporte para a aprendizagem. A legislação sobre o uso de telas na escola e a capacitação para uso consciente por parte dos professores completam o conteúdo previsto.

“Como é um projeto pioneiro, ainda não tem muita adesão. Mas os pais que vieram ficaram muito satisfeitos e passaram para os outros, cobrando que venham também, para enxergar que ‘não é só na minha casa que acontece, não é só com meu filho’. Isso foi muito interessante. Acredito que o salto seja no próximo ano. Vamos repetir essa rodada de palestras com esses temas, mas mudando um pouco para ter novidade para os pais e expandir o projeto”, garante Denise.

Leia também:
>>
Transparência e alinhamento devem pautar relação com as famílias
>> Os novos limites entre a família e a escola
>> Psicóloga defende diálogo mais frequente e aberto entre família e escola

Momentos formativos

Prestes a completar 70 anos, em 2027, a Associação de Pais e Mestres do Colégio Marista Rosário (Apamecor) promove, em parceria com a direção da escola, encontros de conscientização sobre pautas da sociedade contemporânea. São abordados temas que impactam diretamente na relação entre estudante, família e escola – como cyberbullying, ECA Digital e o uso de telas.

Os encontros são divididos por segmento, mas abrangem da Educação Infantil até o Ensino Médio. Com quase três mil alunos, o colégio consegue encher (por vezes, até lotar) o salão de atos, que comporta 1,2 mil pessoas. O coordenador de turno dos anos finais do Ensino Fundamental, Daniel Gomes de Lima, estima que entre 600 e 800 famílias sejam representadas nesses momentos formativos (a maioria com mais de um integrante, daí o número total).

“Temos um movimento muito interessante da família para se sentir pertencente ao espaço, desejando acompanhar a formação do filho. Há um distanciamento dos filhos e dos pais para alguns diálogos, em função da cultura geracional. Quando compreendemos algo que é da realidade do estudante, isso diminui. A família está buscando se apropriar melhor do que é próprio do adolescente de hoje, para se aproximar do filho”, analisa Lima.

Legenda: Gestão do Colégio Marista Rosário considera ótima a adesão das famílias aos encontros formativos, que chegam a reunir mais de mil pessoas | Crédito: Colégio Marista Rosário, divulgação

Aproveitando esses momentos, a gestão do colégio faz com que não sejam apenas formativos. O primeiro momento é dedicado à reflexão, por meio de uma palestra ou atividade afim, e depois os responsáveis de cada turma têm um encontro reservado com o professor conselheiro, que dá devolutivas para as famílias, que estão desejosas de escutar sobre seus filhos. O sucesso de público, inclusive, é atribuído a este segundo momento.

Além disso, Lima, que cuida da disciplina dos estudantes do sexto ao nono ano, atende em média 30 famílias por semana. “Falamos com as famílias diariamente, por meio de notificações em nossos canais, e, quando necessário, chamamos para refletir sobre os caminhos que podemos traçar para ajudar esse estudante a se desenvolver da melhor maneira, seja comportamental ou relativo à aprendizagem”, explica o coordenador.

Esse trabalho, acompanhado de outras atividades que envolvem a participação das famílias na escola, vem mostrando bons resultados. Segundo Lima, o afastamento disciplinar de estudantes em função do comportamento no dia a dia caiu mais de 400% nos últimos três anos. “Hoje temos um perfil diferente de estudante, presença significativa da família no acompanhamento de seu filho dentro do colégio e com ações diretas dentro de casa para o filho entender seu papel em casa e na escola. Tudo isso se reflete no dia a dia”, comenta.

A experiência também evidencia o que não funciona. Lima destaca que é fundamental ter transparência para que a família sinta segurança em relação à escola. Objetividade e clareza nos encaminhamentos fazem esse papel. Ao mesmo tempo, demonstrar acolhimento e uma escuta efetiva faz a família entender que tem na gestão uma parceria com quem pode contar. Quando todos estão na mesma página, tudo fica mais fácil.

Influenciadores

O Colégio Marista Champagnat também entendeu que fazer com que a família seja uma engrenagem legítima no fluxo de comunicação gera resultados positivos. A instituição trabalha com um projeto chamado Champagnat em Família, composto por dois estudantes representando cada turma, além de um professor conselheiro e a figura dos pais representantes, também em dupla.

O papel dos pais é fazer a ponte entre a escola e a família. “Antes, em qualquer situação, todos os pais queriam ser atendidos. Hoje, eles têm os grupos, os estudantes também. Os pais representantes trazem a pauta para que a gente possa dialogar e contribuir com o processo educativo”, explica a orientadora educacional dos anos finais e do Ensino Médio, Clamarta Pasuck. 

A estratégia, segundo ela, melhorou muito a comunicação. Antes, os recados enviados para as famílias nem sempre eram acessados, por diversos motivos. Agora, os pais representantes funcionam como porta-voz nos dois sentidos: informam as famílias e também trazem demandas já amadurecidas para que a gestão escolar busque soluções.

Dentro do Champagnat em Família também existem momentos formativos. Em setembro, por exemplo, o projeto optou por falar sobre saúde mental. Embalados pela campanha de valorização da vida do Marista Brasil e pelo Setembro Amarelo, os organizadores convidaram um profissional da área da psicologia para dialogar com os pais, a fim de que ajudem os estudantes nessa questão.

Colégio Champagnat optou por trabalhar com pais representantes de turma para estabelecer um canal direto de comunicação com as famílias | Crédito: Colégio Champagnat, divulgação

Segundo Clamarta, o resultado desse processo é bastante diverso: algumas famílias são parceiras, respeitam o papel do professor e compreendem os processos e desafios. Outras não veem dessa forma, querendo ditar as regras. “Temos muita clareza sobre nosso papel. Às vezes, precisamos retomar isso com as famílias para mostrar como e onde podemos nos ajudar”, destaca.

O que não deixa dúvida é que a presença da família na escola ajuda no desenvolvimento do estudante. Na visão de Clamarta, quando os pais se envolvem e conseguem dialogar, os filhos costumam ter ótimo rendimento. Já quando a família fica na defensiva, o estudante acaba reproduzindo esse comportamento e apresenta maior dificuldade de aprendizagem, problemas disciplinares e até mesmo de relacionamento com seus pares. 

Família perto da escola, bem acolhida e orientada, entende o dia a dia de uma instituição de ensino. A partir daí, gestores e educadores ganham fortes aliados para reforçar o diálogo entre todos os entes da comunidade e, assim, construir um ambiente seguro e positivo para o desenvolvimento do processo de aprendizagem. Cada um na sua, mas todos juntos.

TAGS





Assine nossa newsletter

E fique por dentro das novidades