Como planos de contingência protegem escolas em crises climáticas
Documentos elaborados por órgãos especializados preparam instituições de ensino para mitigar riscos e resguardar a comunidade escolar
Em 3 de maio de 2024, as chuvas intensas que atingiram o Rio Grande do Sul fizeram o nível do Guaíba ultrapassar os 4,6 metros, invadindo as ruas de Porto Alegre. Naquele dia, a cheia alcançou os corredores e salas de aula do Instituto São Francisco Santa Família, na zona norte da Capital, destruindo documentos, mobiliário, equipamentos e parte do ginásio. As aulas foram suspensas e a escola ficou semanas debaixo d’água.
“Nunca havia acontecido nada nem perto disso. Ali é uma região onde a água não chega. No primeiro momento, nosso foco foi ajudar nas três unidades do Santa Família que serviram de abrigo”, lembra o diretor pedagógico da escola, Gerson Luis Pessi.
Cerca de duas semanas depois, quando a prefeitura de Porto Alegre autorizou a retomada das aulas nas escolas que tivessem condições, o São Francisco iniciou, gradualmente, as atividades de forma remota para os alunos que tinham acesso à internet. Com apoio da comunidade e orientação dos órgãos competentes, a escola conseguiu se reerguer, apesar de não contar com protocolos específicos para enfrentar um evento climático daquele porte.
“Nós fomos aprendendo, no dia a dia, alternativas e soluções, porque não tínhamos nada organizado, nada planejado. À medida que os fatos foram acontecendo, nós fomos tomando decisões”, comenta Pessi.
Com os impactos cada vez mais severos e perceptíveis das mudanças climáticas, como o super El Niño previsto para este ano, os órgãos públicos vêm construindo cartilhas e manuais para auxiliar as instituições de ensino a se prepararem para eventos climáticos extremos. A União produziu o Protocolo Nacional para a Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, e o Governo do Estado lançou o Guia para Elaboração de Planos de Contingência Escolares para Eventos Climáticos.
Durante o Conversa com Associadas, evento promovido pelo SINEPE/RS em setembro, a coordenadora de comunicação da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, tenente Sabrina Ribas, compartilhou experiências e orientações com gestores de escolas gaúchas. Ela explicou o funcionamento dos avisos prévios e dos alertas emitidos à população pela Defesa Civil, salientando a importância de alinhar as diretrizes do Estado aos planos de contingência escolares.
“Uma situação que surgiu recentemente foi a de uma pessoa que está em um ambiente seguro e recebe um alerta da Defesa Civil sobre tempestades severas, com rajadas de vento intensas, próximo ao horário de buscar os filhos na escola. Como ela deve proceder? A orientação é que permaneça em casa, uma vez que, a princípio, a escola também é um ambiente seguro”, ressaltou a coordenadora.
A partir de 2025, o órgão adotou uma escala de cores (do verde ao roxo) com orientações específicas de comportamento para cada tipo e severidade de risco. Isso reforça que a proteção das pessoas depende da flexibilização das rotinas e do engajamento de pais, alunos e professores. A coordenadora destacou que a Defesa Civil quadruplicou seu contingente após os severos impactos dos desastres climáticos de 2023 e 2024 no Estado para aprimorar o monitoramento contínuo e a emissão de alertas. A tenente explicou como o órgão se organiza de forma descentralizada e enfatizou a relevância do plano de contingência municipal para mitigar riscos, coordenar abrigos e preparar a comunidade com antecedência, antes que as emergências ocorram.
Sabrina Ribas defendeu uma conscientização coletiva entre famílias, escolas e empresas para flexibilizar rotinas e evitar que as pessoas se exponham a perigos desnecessários em momentos de crise. Ela também reforçou a importância de uma comunicação efetiva entre as escolas e as famílias, com o objetivo de esclarecer quais passos seguir nesse tipo de situação.
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O guia produzido pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc) com orientações para a construção de um plano de contingência escolar traz normativas focadas em prevenção, gestão, contenção e recuperação após eventos climáticos extremos. Conforme o guia, a escola deve formar uma comissão ou equipe de liderança representativa, composta por gestores, professores, funcionários, estudantes e responsáveis, para coordenar a elaboração, a implementação e o monitoramento do plano de contingência escolar.
A instituição também deve realizar uma análise participativa para identificar ameaças locais, como proximidade de rios ou encostas, além de vulnerabilidades da estrutura física e social da escola e dos recursos disponíveis. Outro ponto importante ressaltado é a necessidade de articular uma rede de apoio intersetorial com órgãos públicos como Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, unidades de saúde, assistência social e órgãos de educação regionais.
De acordo com o guia do Estado, a escola deve realizar o mapeamento e a identificação clara das rotas de fuga, saídas de emergência e pontos de encontro seguros dentro ou fora do espaço escolar. Também é recomendada a organização prévia de equipes responsáveis por alarme, comunicação externa, primeiros socorros, evacuação e acolhimento.
O acompanhamento constante dos boletins meteorológicos e de avisos e alertas das autoridades é apontado como indispensável. Além disso, salienta-se a importância da realização periódica de treinamentos e simulações de desastres com estudantes e a comunidade escolar para testar a eficiência das rotas e protocolos.
Estabelecer diferentes níveis de acionamento também pode fazer a diferença em casos emergenciais. Por exemplo, o disparo de um alerta com notificação prévia (em geral, com até 12 horas de antecedência). Nesse caso, a escola deve ativar o estado de atenção, acompanhar os informativos oficiais e preparar os procedimentos operacionais.
Já em situação de evento iminente ou em curso, a escola soará um alarme e iniciará o acionamento imediato dos protocolos de resposta predefinidos. Na sequência, deve ocorrer a retirada rápida e organizada dos alunos e profissionais em direção às zonas de segurança estabelecidas no mapa de riscos.
O guia da Seduc também reforça a importância da definição de protocolos claros de comunicação para avisar pais e responsáveis de forma centralizada e sem pânico, estabelecendo onde e como será feita a entrega segura dos alunos. A escola também deve garantir a prestação de suporte imediato aos feridos e atenção especial à contenção socioemocional de crianças e jovens no ponto de encontro.
O documento indica ações específicas para a reconstrução e a retomada das instituições de ensino. A primeira medida proposta nesse sentido é a avaliação de danos e a proteção da infraestrutura. Recomenda-se a realização de uma vistoria detalhada do prédio escolar antes de autorizar o retorno das atividades, verificando os riscos elétricos, estruturais e sanitários.
A escola também deve garantir a continuidade pedagógica, elaborando estratégias para a rápida retomada do calendário escolar, seja por via remota temporária, remanejamento ou reorganização de conteúdos. O acolhimento socioemocional deve ser priorizado com suporte contínuo e foco no bem-estar psíquico da comunidade escolar após a crise.
As recomendações reunidas e divulgadas pelo guia estão em consonância com a Política Estadual de Proteção e Defesa Civil do Rio Grande do Sul (PEPDEC), com a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC) e com as diretrizes globais de educação para a redução do risco de desastres. Veja abaixo algumas das principais recomendações do guia:

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