Projetos escolares preparam alunos para enfrentar o Super El Niño

Da iniciação científica à vivência na terra, escolas incentivam o protagonismo dos estudantes para enfrentar os desafios da crise climática 

imagem: Escola Waldorf Querência, divulgação 

As notícias sobre a iminência de um Super El Niño – fenômeno climático que, de acordo com meteorologistas, pode castigar a região Sul do país com muitas chuvas e o Norte e Nordeste com secas severas – abrem um debate importante no mês dedicado ao meio ambiente. A crise climática, especialmente após a enchente ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024, passou a ser um assunto de extrema importância no ambiente escolar.

Diante de um cenário global que exige respostas imediatas, algumas instituições de ensino têm investido em projetos voltados à preservação ambiental. Essas iniciativas extrapolam a função de atividades extracurriculares e passam a funcionar como ferramentas de conscientização e construção de um novo cotidiano junto às comunidades.

No Estado, esse movimento ganha respaldo institucional por meio das diretrizes do Conselho Estadual de Educação (CEED/RS). Em suas normativas sobre Educação Ambiental, o órgão estabelece que o debate sobre a sustentabilidade e a proteção da natureza não deve ser tratado de forma isolada, mas sim como um eixo transversal que perpassa todas as disciplinas, conectando o conhecimento científico à realidade prática dos estudantes para formar cidadãos aptos a enfrentar e mitigar as transformações do planeta.

Na busca por atualizar a normativa para estar mais alinhado aos desafios climáticos contemporâneos, o Conselho está realizando uma consulta pública sobre o tema. Até o dia 10 de julho, por meio de um formulário, professores, gestores e entidades ligadas à educação e ao meio ambiente podem apresentar suas contribuições. 

Foco na adaptação escolar

A bióloga e professora do Programa de Pós-graduação em Ensino de Humanidades e Linguagens (PPGEHL) da Universidade Franciscana (UFN), Noemi Boer, destaca que a proximidade de um evento meteorológico de grande porte é uma situação em que a comunidade escolar precisa focar em uma palavra-chave de origem biológica, que é adaptação

Para transformar a teoria em prática, ela defende uma abordagem estruturada em três frentes: cognitiva, civilizatória e sensível. O primeiro passo consiste em munir os estudantes com a compreensão científica do fenômeno. Em paralelo, é preciso ressaltar a necessidade de tensionar o comportamento social contemporâneo baseado no consumo desenfreado e na geração exagerada de resíduos. 

“É preciso incentivar o consumo consciente por meio de questionamentos éticos sobre a real necessidade de cada compra, a composição dos produtos, a durabilidade das embalagens e os custos de descarte, aplicando a clássica filosofia dos três “R” (reduzir, reutilizar e reciclar) na gestão interna da água, do lixo e da energia”, esclarece Noemi. 

O pilar mais profundo desse ecossistema pedagógico, contudo, reside no afeto e na experiência empírica. Embora técnicas que envolvem música, teatro e poesia enriqueçam a sala de aula, a professora enfatiza que nada substitui o impacto das saídas de campo e do contato direto com a terra.

“O conhecimento ajuda na compreensão de um fato ou fenômeno, mas nada fica na inteligência sem passar primeiro pelos sentidos”, provoca a bióloga, resgatando o pensamento do ecologista Jean Dorst de que a natureza só poderá ser salva se o homem manifestar por ela um pouco de amor, simplesmente porque ela é bela.

Aprendizado em contato direto

Quem prioriza o protagonismo é a Escola Waldorf Querência. Localizada na zona sul de Porto Alegre e com uma estrutura de oito hectares de mata nativa, a instituição tem na relação viva com a natureza um dos pilares de sua proposta educativa. O processo de aprendizagem acontece entre trilhas, árvores e hortas, pautado pelas estações do ano e pela observação que cada uma delas provoca na paisagem.

Em junho, a escola teve uma conquista importante: a Sala Verde EWQ, vinculada à Associação Micael de Pedagogia Waldorf no Rio Grande do Sul (AMPWRS), foi certificada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança de Clima (MMA) como integrante do Projeto Salas Verdes. 

“Somos a primeira escola de Porto Alegre a receber esta certificação que é um reflexo direto da pauta ambiental que guia nosso processo político pedagógico. Mais do que ser um espaço certificado, toda a nossa escola é pautada pela relação com a natureza e o compartilhamento desse conhecimento com a comunidade, não apenas com os alunos”, explica a professora Ana Carmelita Lara.

A agroecologia guia a proposta político-pedagógica da escola, o que permitiu receber a certificação Sala Verde do Ministério do Meio Ambiente | Crédito: Escola Waldorf Querência, divulgação 

A Escola Querência também passou a integrar a Rede Escolas pelo Clima, que reúne mais de 1,5 mil instituições pelo país. Por apresentar uma proposta associativa e comunitária, onde famílias, professores e moradores das proximidades atuam para o desenvolvimento escolar, as trocas de experiências são essenciais e trazem inúmeras possibilidades para que o assunto da crise climática seja abordado com assertividade e propósito. 

“Nós possuímos uma composteira que recebe os materiais orgânicos advindos dos lanches dos alunos. Participar de atividades como a Semana do Lixo Zero do município promove a melhoria dos nossos processos e vai muito além do destino dos resíduos da escola. Isso nos motiva a ter uma relação mais ampla com a comunidade”, aponta o professor de agricultura e jardinagem, Sebastian Cálquin. 

Consciência ambiental e futuro

Também com um currículo pautado na vivência diária da consciência ambiental, a Escola Amigos do Verde promove aulas de agroecologia para todas as turmas, desde a educação infantil até o quinto ano do ensino fundamental, incentivando o contato direto com a terra, a compostagem e a separação de resíduos. Fundada há 42 anos, a ideia que move a escola, segundo a diretora Luna Carneiro Behrends, é tornar os cuidados com o meio ambiente uma prática intrínseca e espontânea no cotidiano das crianças. “Nossos alunos vivenciam a natureza e passam a compreender a importância da sua preservação de uma forma orgânica, que se torna parte da vida deles e das suas famílias”, destaca. 

Toda essa dedicação ganha ainda mais presença dentro da escola a cada dois anos, com a realização da Mostra Científica Sustentável, que convida a comunidade escolar e também alunos de outras instituições para conhecerem e apresentarem projetos. Uma iniciativa recente foi a instalação de um painel de energia solar para iluminar uma casinha localizada no pátio da escola, com o auxílio de um familiar e da equipe de manutenção da instituição.

“Também realizamos todas as sextas-feiras, das 10h às 14h, uma feira ecológica, com produtos orgânicos e hortaliças produzidas por agricultores locais. É mais uma forma de incentivar o consumo consciente e a alimentação saudável”, lembra Luna. 

Escola Amigos do Verde realiza a cada dois anos uma Mostra Científica Sustentável, apresentando propostas de alunos e instituições convidadas | Crédito: Sandro Carvalho

Práticas de consumo consciente

Pensar propostas sustentáveis como algo que vai fazer a diferença nas profissões do futuro é algo que guia os anos finais do Ensino Fundamental e também o Ensino Médio do Colégio Sinodal de São Leopoldo. Além da oferta de uma oficina de sustentabilidade no contraturno, o segundo ano do Ensino Médio conta com a disciplina de Biodiversidade em seu currículo, onde a temática das mudanças climáticas é fortemente abordada.

Leonardo Stahnke, professor responsável pela disciplina, explica que, em função de ser uma das grandes problemáticas da redução da biodiversidade no mundo, as mudanças climáticas estão sempre presentes nos projetos apresentados pelos estudantes, especialmente após a enchente de 2024. 

“Esse ano estou orientando um grupo de trabalho que está fazendo uma proposta de contenção de erosão de solo, contra deslizamentos, e também um projeto sobre cidades-esponja, um conceito que se aplicaria para o local onde está localizado o colégio, tendo em vista a proximidade do rio dos Sinos e as áreas de banhado”, conta. 

Oficinas sobre sustentabilidade são ministradas para os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e também para o Ensino Médio no Colégio Sinodal, em São Leopoldo | Crédito: Colégio Sinodal, divulgação

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Ações no ensino profissionalizante

Projetos que transcendem a sala de aula estão presentes na educação gaúcha em diferentes níveis de ensino, incluindo o profissionalizante. Na Escola Técnica Cristo Redentor (ETCR) o debate ambiental não está restrito aos livros didáticos, e a instituição aposta na iniciação científica voltada a problemas reais da comunidade. O grande destaque é uma pesquisa que estuda a transformação de resíduos gerados pela atividade pesqueira em subprodutos ecológicos e soluções sustentáveis, iniciativa que, atualmente, se encontra em fase de testes laboratoriais sob a orientação da professora Letícia Zanchet. 

Para a vice-diretora pedagógica da ETCR, Jéssica Antunes, o projeto vai muito além do cumprimento de uma grade curricular, pois conecta diretamente a ciência ao impacto socioeconômico. “Além do potencial de contribuição ambiental, o projeto proporciona aos estudantes uma vivência prática de pesquisa e inovação, estimulando a busca por soluções que aliem conhecimento científico, sustentabilidade e impacto social positivo”, pontua. 

Na ETCR, os temas ecológicos são costurados diretamente nas disciplinas dos cursos técnicos, como ocorre na disciplina eletiva de Políticas Ambientais e Sustentabilidade, disponibilizada no Ensino Médio Integrado. Os estudantes realizaram um mapeamento geográfico e social do entorno da escola, aplicando formulários com colaboradores e moradores para diagnosticar gargalos na qualidade de vida local. De acordo com Jéssica, incentivar o protagonismo dos alunos é a chave para moldar as próximas gerações de profissionais e cidadãos. 

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