“Autonomia é a principal competência do futuro”, diz Rafael Parente

Pesquisador em educação com formação pela Universidade de Nova York aponta caminhos para a construção de um ensino mais participativo 

por: Jean Peixoto | jean@padrinhoconteudo.com
imagem: Crédito: Mateus Camargo

Um diretor bem preparado atua como um multiplicador de talentos. Nesse contexto, os papéis de gestores e professores precisam ser reconsiderados diante da IA. Ela não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma ferramenta para libertar o educador de tarefas burocráticas, permitindo que ele foque no que é essencialmente humano: a mediação do conhecimento e o desenvolvimento da autonomia do estudante.

Essas são algumas das premissas de Rafael Parente, diretor do Instituto Salto — organização dedicada a impulsionar a qualidade e a equidade na educação pública brasileira — e colunista de GZH, onde escreve com foco em pedagogia e tecnologia.

Nascido e criado em Brasília, ele encontrou dentro de casa os pilares que moldaram sua carreira: o pragmatismo da economia, herdado do pai, e a paixão pelo ensino, vinda da mãe, professora. Embora tenha iniciado a vida acadêmica na Economia da Universidade de Brasília (UnB) — após conquistar o primeiro lugar no vestibular —, a falta de conexão com os “números frios” o fez abandonar o curso no segundo semestre. O destino, porém, já estava traçado nas salas de aula, onde começou a lecionar inglês aos 17 anos.

Contudo, o divisor de águas não veio dos livros, mas de uma creche comunitária na periferia de Brasília. Como voluntário, conheceu de perto a segregação social da capital federal. Ao ser chamado de “pai” por crianças em vulnerabilidade e testemunhar a miséria a poucos quilômetros do centro onde vivia, entendeu que seu propósito ia além do ensinar: a educação deveria ser a ferramenta para quebrar ciclos de pobreza.

Após passagens pela Comunicação e pelo Marketing, Parente buscou respostas para os problemas estruturais do país na Universidade de Nova York (NYU). Entre 2005 e 2009, no doutorado em Educação Internacional, investigou como projetos acadêmicos financiados pelo setor privado poderiam se converter em políticas públicas eficazes.

Essa visão estratégica foi refinada após sua experiência como secretário de Educação do Distrito Federal, em 2019. Ali, Parente consolidou seu perfil essencialmente técnico e transformador, optando pela influência estratégica em vez da política partidária.

É com esse foco na liderança capaz de transformar anos letivos em saltos de aprendizado que o Educação em Pauta entrevistou Rafael Parente. A entrevista exclusiva você confere a seguir:

Que experiências internacionais podem servir de modelo para o Brasil e quais práticas de alta performance podem ser “importadas” e adaptadas para as escolas particulares brasileiras?

Tem um tema que tem crescido bastante na educação, que é a questão das metodologias ativas de aprendizado. Como você cria atividades e experiências nas escolas em que os estudantes não se veem e são tratados como pessoas que estão ali só recebendo? Não é uma escola transmissiva, não é uma escola que está ali para transmitir, mas é uma escola que cria um ambiente propício para que essa criança ou esse jovem possa atuar de forma que seja protagonista do seu desenvolvimento

Na aprendizagem baseada em projetos, fala-se, inclusive, na criação de discussões que envolvam os alunos para que eles digam como querem ser avaliados. Uma avaliação mais autêntica, de um processo que reconheça esse indivíduo como uma fonte de experiências, conhecimentos e saberes. A questão da metodologia ativa é muito forte no mundo todo hoje, e nós temos visto que há vários países avançando bastante nessa transformação das atividades em sala de aula, de uma aula que era mais centrada no professor, expositiva, para uma aula que é mais parecida com uma oficina, com um lugar onde todo mundo precisa pensar e atuar e tomar decisões e falar sob a sua perspectiva. Ou seja, não é só um lugar onde eu vou para ouvir, ler ou receber informações. É um lugar para ser atuante.

Você tem exemplos de países onde essas mudanças vêm sendo trabalhadas de uma forma mais ampla, mais incisiva?

O Chile está muito forte na formação dos diretores e dos professores nessa questão da metodologia ativa e também tem avançado na questão tecnológica. Agora, principalmente nessa nova era que estamos entrando, vamos precisar parar para rever o modelo de escola. Como é que as crianças e os jovens aprendem? E o que é que eles aprendem? Se eles são ensinados só para responder uma prova, isso já não vale mais, porque a inteligência artificial já responde tudo e vai responder cada vez melhor. Não é mais questão de responder certo. Nós não precisamos mais disso. Precisamos de pessoas autônomas, porque a autonomia é a principal competência do futuro

E como você desenvolve a autonomia? Muito disso vem também de você desenvolver um papel de protagonismo. Você pode exercer o protagonismo em lugares diferentes, tanto sendo cidadão quanto trabalhando num governo ou numa empresa, como autônomo ou empreendedor. Mas você pode exercer o seu protagonismo, ter a sua visão, ter a sua voz, e eu acho que é muito do que está sendo discutido no mundo hoje. 

Por exemplo, o Uruguai é quem lida melhor com essa questão tecnológica, não pensando só numa integração de tecnologia, mas em como a gente muda a cultura da escola. Como a gente muda a cabeça das pessoas que trabalham com educação? Como é que muda um sistema de crenças? E até o que os pais esperam, porque quando a gente fala de escolas particulares, uma questão crítica é que a escola precisa responder aquilo que os pais demandam. Mas será que os pais estão entendendo que é urgente também essa transformação da escola? É mais urgente uma transformação da universidade, por exemplo, do que uma transformação da escola. Só que a transformação da escola também é urgente. Não é só uma questão de como integrar tecnologias, mas como você muda culturas. 

O uso da IA sem perder o foco na saúde mental e nas competências socioemocionais é um desafio crítico para o ano letivo de 2026. Como as melhores escolas do mundo estão encarando esse cenário?

Temos ótimos exemplos no nosso país, tanto de escolas particulares quanto públicas. Por exemplo, o LIV (Laboratório Inteligência de Vida), um currículo socioemocional que, inclusive, está sendo levado para outros países porque tem tido bons resultados nas escolas brasileiras. Lidar com tanta informação e com mudanças tão aceleradas é cada vez mais complexo, o que acaba adicionando muitos desafios e criando problemas de saúde mental. Por isso, vemos crianças cada vez mais jovens lidando com questões como crises de ansiedade. E essa questão não é só para o psicólogo, é um trabalho para toda a equipe escolar. 

Tenho evoluído num conceito sobre o qual ainda não escrevi, que é dos educadores e professores, em especial como defensores de um “tempo lúcido”. Essa tendência da gente estar cada vez mais envolvido em redes e lidar com os algoritmos e não ter um tempo de reflexão, aquele tempo que a gente para e olha para o nada e dá uma viajada. O tempo do tédio, porque é nesse tempo que a gente organiza aquilo que está lá dentro da nossa cabeça. E esse tempo também é essencial para tudo isso que a gente está falando, para não ter tanta ansiedade, organizarmos o que está passando dentro das nossas cabeças. Para organizarmos as nossas emoções, aquilo que a gente quer, nosso projeto de vida, o que somos, o que pensamos, o que os outros querem que pensamos. Esse tempo lúcido é um tempo que a gente tem perdido e tende a se perder ainda mais com essa terceirização do pensamento para as IAs.

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De que forma o diretor pode equilibrar as tarefas administrativas e burocráticas com o exercício de uma liderança focada em resultados de aprendizagem e engajamento da equipe docente?

A formação pedagógica do gestor tem um impacto gigantesco no resultado da escola. Um exemplo são aquelas escolas em que a equipe olha para os diretores e fala assim: “Esse diretor tem foco pedagógico” Um diretor que entende, prioriza e discute o pedagógico, além de observar as aulas. Nas nossas formações, por exemplo, colocamos como meta que os diretores precisam observar cinco aulas por mês. Mostramos uma ferramenta para observar a aula que deve ser usada também para dar um feedback para o professor e vai ajudar o diretor a fazer uma comunicação mais customizada para cada família.

Na parte burocrática, a prestação de contas toma um bom tempo dos diretores. Estamos começando a experimentar ferramentas de IA que façam essa automatização. Com isso, você vai liberando um tempo, que precisa ser deslocado para duas coisas principais. Uma é o foco pedagógico, e a outra é a qualidade das relações. O diretor não pode se entender como o síndico da escola, como uma pessoa que está ali para resolver a infiltração, contratar, fazer compras e tal. Não, o diretor também é um diretor pedagógico e o foco dele precisa ser esse, porque a missão da escola é pedagógica. A missão da escola é formar pessoas.

Não é porque é um bom professor que vai se tornar um bom diretor. São competências muito diferentes. A matriz de competências de professores é uma, a de diretores é outra. E tem essa questão do “diretor ampliado”. Como ele pode se apropriar das tecnologias, de inovações, para ser uma liderança pedagógica melhor, para incluir mais a comunidade?

A qualidade das relações dentro de qualquer espaço interfere muito na qualidade de qualquer outro processo. Na educação, isso é mais verdadeiro ainda. A qualidade educacional depende muito da qualidade das relações que se estabelecem naquela escola.

Você já escreveu sobre como uma metodologia de ensino punitiva acabou gerando no aluno o medo de errar e como a IA vem se tornando uma ferramenta para driblar esse sentimento. Gostaria que você comentasse sobre a importância de se permitir errar.

No sistema educacional atual, nos afastamos da paixão pelo conhecimento, pela descoberta, pelo conhecer. Fomos direto para a preparação. A educação hoje é uma constante preparação para as próximas etapas. Eu estou na Educação Infantil me preparando para o Fundamental. No Fundamental, estou me preparando para o Ensino Médio. No Ensino Médio, estou me preparando para o Enem ou para o vestibular, para fazer um bom curso universitário, e na universidade estou me preparando para o mercado de trabalho. Mas eu nunca vivi aquilo ali como uma experiência de aprendizagem realmente. 

É preciso que se permita explorar, descobrir, entender o que é que o aluno gosta, que tipo de livro, que tipo de assunto, se deixar ver coisas diferentes. Isso é um pouco da ideia de algumas escolas pelo mundo, em que você tem mais opções, inclusive curriculares. Você tem o básico que é preciso para entender de linguagem, de matemática, de ciências, etc, mas também tem o cardápio de opções, justamente para incentivar isso. Você precisa explorar o mundo, o conhecimento e entender o conhecimento como algo que, em si, é prazeroso. Você não está estudando só porque tem que tirar uma nota, ou porque é uma obrigação, ou porque você tem que se preparar para o vestibular, mas porque é bom aprender. 

Essa questão do “é bom aprender” é que a gente perdeu e precisamos recuperar. Daqui a pouco a tecnologia vai avançar tanto que não teremos mais como controlar quando o aluno está usando a IA ou não. Hoje mesmo já é difícil de saber. Vamos precisar repensar toda a educação, não apenas a avaliação. Mas a avaliação criou esse lugar de que, se você não erra, você não aprende. Só que a gente vai sendo ensinado que errar é ruim, que é uma vergonha. Nós participamos das experiências e ficamos acanhados de falar alguma coisa com medo de errar. O erro virou um tabu gigantesco e, com isso, as experiências de aprendizagem se enfraquecem demais.

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