“Tecnologia não deve ser usada como máquina de ensinar”

Doutor em Informática na Educação, André Raabe acredita que a tecnologia pode transformar a sociedade ao colocar o jovem no papel de autor e criador

por: Bianca Zasso | Especial
imagem: Arquivo Pessoal

Desde o surgimento das primeiras possibilidades tecnológicas voltadas para a educação, uma discussão se faz presente: como utilizar a tecnologia na prática pedagógica de uma maneira inteligente e que colabore para uma aprendizagem mais dinâmica e inclusiva? Após a pandemia de Covid-19, que trouxe a necessidade do uso de plataformas digitais para ambientes educacionais, refletir sobre o assunto passou a fazer parte do cotidiano de muitos professores e gestores. 

Doutor em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pós-doutorado realizado na Universidade de Stanford, na Califórnia, o professor André Raabe é um dos principais autores e pesquisadores sobre o tema no Brasil. Além de ministrar aulas na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), ele é coordenador do LITE – Laboratório de Inovação Tecnológica na Educação, um espaço dentro da universidade que integra a pesquisa e o desenvolvimento de produtos e processos tecnológicos voltados a atividades educacionais.

Em recente passagem por Porto Alegre, palestrando no encontro Sesi Com@Ciência, que reuniu profissionais de diversas áreas para pensar a ciência e a educação no Brasil atual, Raabe conversou com a reportagem do Educação em Pauta sobre o uso prático da tecnologia na educação, seu entusiasmo pela cultura maker e o incentivo à criatividade.

Educação em Pauta – Recentemente, a reformulação proposta pela Base Nacional de Formação dos Professores trouxe modificações importantes para os cursos de Licenciatura do país. Como a tecnologia está presente nessa nova orientação para futuros professores? O senhor acredita que seja necessária uma renovação dos currículos e de metodologias de ensino para a área de computação na educação? 

André Raabe – A BNFP define competências, distribuídas ao longo de três eixos. No texto original do documento, na parte que define o uso tecnológico de ferramentas com propósito educativo, podemos perceber que há uma visão da importância da tecnologia não só como material para informar e trazer boas referências de pesquisa, mas também como material de construção, didático, que ajuda o professor a desenvolver a sua atividade. Agora, como isso se desdobra em curso de formação inicial de professores é um outro movimento, uma outra parte. É preciso um pouco mais de tempo para saber como isso vai ser traduzido na prática. 

Educação em Pauta – Incorporar tecnologia à prática pedagógica é um desafio vivido por muitos gestores de escolas. Quais seriam, na sua opinião, as melhores formas para implementar projetos nestas áreas? Como as escolas podem aliar a teoria com a prática? 

André Raabe – Eu entendo, como um construcionista, que a melhor forma de usar a tecnologia é como material de construção. A tecnologia é uma ferramenta para nos ajudar a construir coisas novas, a colocar o estudante em um papel de autor. Muitos deles já têm mais fluência tecnológica que seus professores e pode-se usar isso como uma forma de construir parcerias entre professores e estudantes, principalmente em atividades no formato de projetos. Quando pensamos a escola de uma forma muito tradicional, com a divisão de disciplinas e aulas expositivas de 40 minutos, não há muito espaço para a inovação, para um uso potente da tecnologia. Precisamos de aula com mais tempo, baseadas em projetos que envolvam os interesses dos alunos, em que eles possam personalizar ou escolher partes do projeto, se sentirem autores e usarem a tecnologia para potencializar a pesquisa, a criação e as composições que eles fazem nesse movimento. 

Educação em Pauta – Falando sobre gestão, qual seria o papel do gestor de escola frente às novas tecnologias e como fazer para incorporar à prática pedagógica? 

André Raabe – O papel do gestor é fundamental em todos os níveis no sentido de que a inovação se torne perene, que ela seja constante e não seja só o foco de um professor entusiasta, inovador, que quando muda de escola, a inovação acaba. A inovação tem que entrar no plano político-pedagógico da escola. Além disso, tem que ter uma política adequada de formação de recursos humanos, de aquisição e manutenção dos equipamentos, com uma visão estratégica. Se apoiar em ferramentas para auxiliar os gestores, como as desenvolvidas pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), que apoiam efetivamente que a inovação e a tecnologia cheguem na escola. 

Educação em Pauta – Você é um entusiasta da cultura maker na educação. Quais os impactos que propostas como essa trazem para o ambiente educacional e para a aprendizagem?

André Raabe – A cultura maker inverte vários processos que acontecem na escola. Quando ela é bem-feita, coloca os estudantes com a possibilidade de gerirem um currículo individual, de desenvolverem projetos de interesse próprio e de usarem tecnologia como material de construção. Não só o computador, mas expandindo para outras tecnologias, desde as mais tradicionais, como costura, marcenaria, eletrônica, até as de fabricação digital como a impressão 3D, corte laser, uso de controle numérico por computador (CNC). Portanto, a criação de projetos que envolvem, muitas vezes, protótipos que se aproximam de produtos reais. As aprendizagens são muitas e são diversificadas. E não necessariamente vinculadas aos conhecimentos do currículo tradicional. Eu entendo que o principal benefício do maker é que ele muda a relação do estudante com a escola. Ele encontra no maker um local onde ele pode se apaixonar por suas ideias, quer ir para a escola para desenvolver os projetos, dá significado para as aprendizagens teóricas que ele tem em outros ambientes e ele começa a pensar como um cientista ao invés dele ser ensinado sobre as invenções.  

Educação em Pauta – Você coordena o LITE – Laboratório de Inovação Tecnológica na Educação, na Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Conte-nos um pouco sobre o surgimento desse projeto e as principais atividades desenvolvidas. 

André Raabe – O LITE é um laboratório que a gente construiu a partir de uma reformulação de um laboratório já existente de desenvolvimento de software. Primeiro, fizemos uma reforma do layout, conseguimos adquirir uma impressora 3D e começamos a trabalhar com atividades mão na massa, ensinando robótica e pensamento computacional para jovens do Ensino Médio das escolas do entorno da Univali. Aprendemos muito com as primeiras edições do projeto e expandimos para atender o Colégio de Aplicação da Univali, além de estudantes com altas habilidades e superdotação da região dos municípios da foz do Rio Itajaí. Desenvolvemos atividades de enriquecimento, além de currículos individualizados. A gente vivencia na prática os benefícios do maker, colocando o estudante como protagonista do processo. Um lugar onde ele pode criar, inventar, ele pode errar – e o erro é algo comum e algo a ser melhorado na próxima versão – onde ele socializa. Professor e aluno estabelecem uma relação bem diferente. O professor senta do lado do aluno para fazer junto, seu papel é ajudar o aluno a conseguir fazer. Fomos aprendendo tudo isso na prática dentro do laboratório, com o apoio da universidade, que foi muito importante, e temos muito orgulho de receber várias visitas de municípios que querem conhecer o nosso trabalho, em alguns casos levando para escolas públicas da região e conseguindo impactar a educação. Eu tenho muito orgulho desse projeto. 

Educação em Pauta – Em 2020, você organizou, junto com os professores Avelino F. Zorzo e Paulo Blikstein, o livro “Computação na Educação Básica: Fundamentos e Experiências”. Como você avalia as pesquisas desenvolvidas na área da computação na educação no país?

André Raabe – A construção do livro foi um momento bem importante porque conseguimos reunir obras de pesquisadores e entusiastas no uso de computação na educação básica em todas as regiões do país e em todas as etapas da educação básica, com projetos que são factíveis, que são reproduzíveis por pessoas que podem se inspirar e fazer algo semelhante em sala de aula. Além disso, incluímos fundamentos para dar um subsídio teórico um pouco mais sólido para as pessoas que querem se engajar nesse caminho. Eu entendo que ainda está na infância o processo de computação na educação no Brasil. No último dia 5 de outubro, foi homologado pelo Ministério da Educação (MEC) a norma de computação para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Portanto, a computação vai entrar efetivamente no currículo da educação básica e as escolas vão precisar de bastante gente para ajudá-las a traduzir os conhecimentos e habilidades que foram referidos no documento para a realidade das escolas. O livro ajuda muito nessa direção, mas ainda há muito a ser feito. Há a necessidade de muitas relações serem estabelecidas com entidades que podem apoiar nesse processo, inclusive o mercado.

Educação em Pauta – Você também é um dos organizadores do e-book “Educação criativa: multiplicando experiências para a aprendizagem”. Qual a importância do incentivo à criatividade na prática pedagógica?

André Raabe – Sou entusiasta da cultura maker e a minha experiência tem mostrado o quanto é importante o estudante assumir o papel de autor do seu processo de aprendizagem. A autoria permite que o estudante saia de um papel passivo, de consumir informação e responder aquilo que se espera que ele responda em testes e provas, para ele colocar um pouco da sua essência, um pouco da sua história, colocar em movimento competências que ele já possui e normalmente não são valorizadas pelas atividades em papel. Além disso, você ter um currículo flexível que permita que projetos de interesse da comunidade, de interesse dos alunos que estão conectados com a realidade possam ser desenvolvidos, e atrelados ao currículo quando possível, mas colocando em primeiro plano a ideia de ter um estudante engajado, entendendo o que ele está fazendo, porque ele está aprendendo, faz toda a diferença. Este livro que publicamos tem várias experiências nessa direção de professores inovadores que estão tentando fazer isso no Brasil.

Educação em Pauta – Jovens estudantes utilizam tecnologias diariamente, mas, de acordo com estudos recentes, eles pouco produzem conteúdo ou utilizam essas tecnologias para fins educacionais. Que propostas você considera interessantes para incentivar um uso mais inteligente e crítico da tecnologia entre os estudantes da Educação Básica?

André Raabe – É verdade que os estudantes usam tecnologia com frequência, mais como consumidores e têm a fluência tecnológica deles muitas vezes mais voltada ao entretenimento. Ainda assim, existem muitas aprendizagens envolvidas nesse entretenimento. A gente tem que ampliar um pouco a visão de educação, não só olhando para a educação formal, curricular, e percebendo muitos tipos de aprendizagem que decorrem do uso de jogos e redes sociais que, muitas vezes, não tem propósito educacional, mas que envolvem muitas aprendizagens também. Mas é possível a gente trazer a tecnologia com um papel mais relevante para dentro da educação, principalmente se a gente parar de insistir no mesmo erro que vem sendo feito a quase 40 anos, que é usar a tecnologia como forma de substituir professor, substituir aula ou como máquina de ensinar. A tecnologia tem alguma contribuição nessa direção, mas ela é muito limitada, ela não é transformadora. O verdadeiro papel da tecnologia de transformação na sociedade é de colocar o jovem no papel de autor, de criador de tecnologia. E, para isso, o pensamento computacional, o conhecimento de como funcionam os computadores, como resolver problemas com algoritmos, com abstração, com reconhecimento de padrões, são fundamentais para que eles possam tirar proveito da tecnologia, deixando de serem meros consumidores e tornando-se consumidores mais críticos, que sabem como as coisas são feitas. E também criadores de inovação tecnológica ou de processos que se utilizam da tecnologia para poder atingir resultados que não seriam possíveis sem ela. 

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