A principal lição do PISA para a gestão escolar
Como os resultados da avaliação internacional podem ajudar as escolas a repensar práticas e estratégias de aprendizagem
Avaliações que envolvem estudantes de diferentes países e realidades atraem as atenções de gestores e educadores, especialmente quando os resultados não se apresentam muito favoráveis. O mais recente retrato da educação global traçado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) 2025, divulgado em 8 de setembro de 2026, revelou uma crise estrutural no Ocidente, ao mesmo tempo em que escancarou a distância que separa o Brasil do restante do mundo.
Enquanto países desenvolvidos membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pela realização do programa, sofreram um declínio histórico nas pontuações médias de Leitura, Matemática e Ciências, países da Ásia oriental, como Cingapura, Japão e Coreia do Sul, ocupam o topo do ranqueamento.
No cenário nacional, o Brasil segue estagnado no terço inferior da tabela global, ocupando posições como o 65º lugar em Matemática, o 52º em Leitura e o 61º em Ciências entre mais de 80 países e territórios avaliados. Mais do que a classificação geral, o dado mais alarmante indica que cerca de 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingem o nível mínimo de proficiência em Matemática, e mais de 50% não conseguem interpretar textos simples.
Em nota técnica publicada para avaliar o desempenho do país dentro do ciclo recente do PISA, a ONG Todos Pela Educação alertou que a falta de avanço estrutural nos últimos dez anos não é apenas um reflexo de desigualdades históricas, mas um sinal de alerta urgente sobre a necessidade de priorizar a alfabetização na idade certa, a recomposição de aprendizagens e o fortalecimento do Ensino Médio para evitar o colapso do capital humano do país.
Para a doutora em Educação, professora e pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Ana Cristina Ghisleni, as reações aos dados do PISA costumam focar estritamente nas pontuações finais em detrimento de todo o processo de preparação e do contexto social no qual os estudantes participantes estão inseridos. Ela pontua que o PISA é um exame externo que mede proficiências generalizáveis, mas desconsidera as particularidades locais. Logo, a condução de políticas públicas e diretrizes orientadas primariamente para o desempenho em exames padronizados prejudica a dimensão formativa.
“As políticas educacionais em níveis municipal, estadual, federal e em escolas privadas têm sido conduzidas excessivamente em função de testes, gerando práticas restritas em que se educa unicamente para passar em avaliações. Isso empobrece a dimensão cognitiva e formativa integral, dificultando a percepção dos estudantes em sua inserção cidadã e social apenas por meio de notas numéricas”, avalia a pesquisadora.
No campo global, Ana Cristina correlaciona os resultados às mudanças estruturais da industrialização. Países como a Inglaterra e o Reino Unido enfrentam a desaceleração em seus investimentos de base, enquanto a China e outros países asiáticos intensificaram aportes em tecnologia e infraestrutura industrial. No Brasil, a pandemia de covid-19 aprofundou uma desigualdade sistêmica que já existia na rede pública e também afetou a rede privada de ensino.
Diante do impulso de alguns gestores em tentar importar modelos de ensino do exterior para garantir melhores resultados, a pesquisadora indica que as instituições precisam definir seus próprios objetivos pedagógicos de forma clara, sem tratar avaliações externas como um problema ou mesmo algo que apresente uma solução mágica.
“A principal lição do PISA para a gestão é definir objetivos educacionais claros, estudar detalhadamente os critérios exigidos pelo teste e compreender a prova como um instrumento isolado e não como o único norte pedagógico”, orienta Ana Cristina.
Leia também:
>> Aprendizado e saúde mental na transição para o Ensino Médio
>> Design de experiência pode transformar a gestão e o cotidiano escolar
>> O impacto do novo ECA Digital na rotina das escolas
A análise dos indicadores numéricos sob a ótica da prática em sala de aula revela a severidade da estagnação brasileira. A mestra em Educação, consultora educacional e coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Antonio Meneghetti (AMF), Luciana Idiarte, aponta que o país permanece em patamar inferior a vizinhos latino-americanos com capacidade econômica similar, como Chile e México.
Ao examinar os dados mais recentes, a consultora enfatiza que a maior parte dos alunos brasileiros sequer domina conceitos básicos para o exercício da cidadania. “O que podemos concluir a partir disso é que o que fazemos não é o suficiente. Metade dos nossos estudantes não atinge o nível básico, e isso vai acarretar diversos problemas e dificuldades na vida diária, como falta de autonomia para leitura, para decisões, para análise financeira e até a vulnerabilidade às fake news”, indica Luciana.
Para explicar o recuo observado em países desenvolvidos, ela levanta hipóteses ligadas ao hábito de leitura, à dispersão causada pelo uso inadequado da tecnologia e ao esgotamento da atenção sustentada, um pilar indispensável para a fixação de memória e aprendizado. “A aprendizagem é fruto de memória e atenção. Se eu não tiver uma atenção sustentada, há prejuízos de aprendizagem. E a tecnologia, que pode ser uma grande aliada, quando não tem um uso adequado, impacta exatamente o tempo de leitura e a sustentação da atenção”, explica.
Dentro do cenário internacional, Luciana lembra que a liderança da Ásia Oriental pode ser uma boa referência para os gestores, mas que cada país tem as suas particularidades e não se pode pensar em um único modelo asiático de ensino. Buscar ideias em outros casos de sucesso, como o da Estônia, que conquistou resultados favoráveis ao integrar a tecnologia de forma estruturada dentro das escolas, pode ser o início de um caminho para as instituições brasileiras. “A Estônia faz um uso proveitoso da tecnologia, com adaptações, por exemplo, da Inteligência Artificial dentro dos cenários da escola. Não uma IA liberada com acesso total, mas uma IA bem utilizada por alunos e professores”, indica Luciana.

TAGS
E fique por dentro das novidades