E se liderar fosse conectar as perguntas que a escola mantém separadas?
Neste artigo, Marguit Goldmeyer mostra como a escuta ativa e o questionamento contínuo redefinem a cultura organizacional na escola
A cultura organizacional sustenta a capacidade de uma escola de se reinventar e de qualificar, continuamente, a experiência de quem aprende e de quem ensina. Essa tarefa ganha urgência quando a disputa pela atenção atravessa a aprendizagem de crianças, jovens e adultos. O que mobiliza o interesse? Que práticas favorecem a compreensão? O que as perguntas de um profissional recém-chegado revelam sobre rotinas já naturalizadas? E as perguntas que ficam perdidas nas entrelinhas dos diálogos de profissionais dos diferentes segmentos? Uma liderança nexialista aproxima essas vozes, lê os sinais que emergem em diferentes espaços e transforma as perguntas em matéria de reflexão coletiva. Em uma escola onde elas brotam a todo momento, escutar precisa constituir uma prática da cultura organizacional e de estímulo aos pensamentos oriundos da dinâmica do “e se…”.
E se, primeiramente, nos perguntássemos o que compreendemos por cultura organizacional? A frase conhecida de Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café da manhã”, provoca uma questão para a gestão escolar: o que acontece com um plano quando as práticas cotidianas apontam em outra direção? Para Gisele Lotz e Lorena Gramms, cultura organizacional é “como a organização, ao longo do seu ciclo de vida, passa a conceber suas práticas com base nos valores estabelecidos pelo conjunto de pessoas, procedimentos e recursos destinados ao desenvolvimento de uma atividade-fim”. Na escola, isso nos leva a examinar quem participa das decisões, como se recebem as perguntas e que condições se oferecem ao desenvolvimento dos talentos que, muitas vezes, representam os sujeitos questionadores.
A cultura institucional se forma no encontro entre a história de seus fundadores, os valores compartilhados e as práticas de gestão. Sua força aparece na coerência entre os princípios anunciados e a proposta pedagógica vivida no contexto escolar. Desse encontro, nascem expectativas que orientam comportamentos; pela repetição, estes se tornam hábitos e passam a influenciar as escolhas futuras. Quando deixam de ser examinados, até hábitos antes produtivos podem limitar a aprendizagem institucional. Como afirmam Sandro Magaldi e José Salibi Neto: “Para destravar essa armadilha, é necessário desenvolver estratégias propositivas que incentivem iniciativas concretas orientadas ao desenvolvimento de uma cultura que estimule o questionamento como recurso organizacional.”
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Para que o questionamento se torne um recurso organizacional, é preciso conectar as perguntas às decisões que moldam a escola. Por que fazemos o que fazemos? Qual legado queremos construir? Se o amanhã nos assusta, como reconhecer o vento favorável? O que precisamos fazer e o que a instituição pode promover que fará a diferença? De que valores não abriremos mão? Responder a essas questões requer uma liderança nexialista, capaz de ouvir diferentes atores antes de decidir e de relacionar dados, práticas pedagógicas, vínculos humanos e estratégia. Como afirmam Magaldi e Salibi Neto: “Não há expansão de repertório se o indivíduo não for capaz de conectar conclusões e indagações”. Essa articulação permite à escola examinar os hábitos que a constituem e escolher, coletivamente, quais deles devem orientar seu futuro.
Participar da cultura de uma escola é poder perguntar e reconhecer que a própria voz tem consequência nas decisões. Uma resposta pode abrir outras perguntas; é a proposta pedagógica institucional que lhes dá direção, e são os valores compartilhados que impedem a escola de se deixar levar por qualquer vento. A confiança entre os diferentes a(u)tores se constrói quando a escuta encontra ações conjuntas, as decisões são transparentes, suas razões podem ser justificadas e seus efeitos, acompanhados. Assim, o engajamento amadurece em responsabilização. Cabe ao líder agir como educador: aprender com a equipe, ensinar pelo exemplo e criar condições para que talentos recém-chegados ou ainda não reconhecidos encontrem espaço para contribuir. Conectar perguntas, pessoas e decisões é fazer da cultura uma obra coletiva, capaz de orientar a escola enquanto ela própria continua a aprender.
E o convite fica: vamos adotar o “e se”?
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