Os novos limites entre a família e a escola

Primeira reportagem da série “Família e Escola” discute os papéis de cada um e apresenta estratégias para fortalecer essa relação

imagem: Magnfic

A parceria entre família e escola é uma construção diária e, como toda boa caminhada a dois, traz seus aprendizados e desafios. Afinal, lidar com momentos delicados ou resolver pequenos conflitos do dia a dia fica muito mais fácil quando todos falam a mesma língua e caminham na mesma direção. É justamente para fortalecer esse laço que estreia a nova série do Educação em Pauta: “Família e Escola”.

Para abrir essa conversa, o sócio da MFO Advogados e consultor de escolas privadas, Luciano Escobar, especializado em Direito Educacional, lembra que essa união tem um ponto de partida especial previsto até na Constituição brasileira: o afeto e a responsabilidade começam em casa. “Não é aleatório: começa pelo dever da família e as escolas entram na parte do Estado. O dever primário é da família, até porque eles [os estudantes] nascem da família”, diz.

A regulamentação fica por conta de documentos como a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que retomam o assunto e reforçam a autonomia das escolas. Em contrapartida, os responsáveis têm o direito de saber como aquele indivíduo está se desenvolvendo.

E acompanhar esse desenvolvimento também significa entender o que os alunos aprendem dentro da sala de aula. A legislação educacional brasileira incorpora saberes essenciais para a formação cidadã dos estudantes na Educação Básica obrigatória, como a história e a cultura afro-brasileira e indígena, a educação em direitos humanos, a equidade de gênero e a inclusão.

A partir destas diretrizes, cabe à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traduzir esses princípios em competências, habilidades, trilhas de conhecimento e componentes curriculares que normatizam o currículo em âmbito nacional.

Em termos de estrutura, ao tratar da escolarização, a LDB define que a educação tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. É aí que se inserem a formação ética e a convivência democrática nas instituições de ensino. Afinal, toda sociedade é alicerçada sobre eles – e praticar a cidadania também requer conviver dentro de regras.

Conflito de conceitos

Uma série de leis e regras definem pontos mais específicos da formação de crianças e adolescentes, como a Lei de Prevenção e Combate ao Bullying, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Esse conceito, assim como outros, deve ser abordado transversalmente ao Projeto Político Pedagógico (PPP) em todos os anos da Educação Básica, trabalhando temas como empatia, respeito, educação e valores.

É aí que começa a ficar complexo. Trabalhar com os estudantes, em si, nem tanto. O problema é quando o trabalho em cima desses valores éticos e morais não encontra ressonância nos lares. “Para isso funcionar, é preciso que haja não só a parceria, mas o comprometimento da família. Ela tem esse papel”, frisa Escobar.

Uma comprovação disso é que o ingresso na Educação Básica é obrigatório a partir dos quatro anos. Escobar indica que os primeiros anos de vida são cruciais para a consolidação de bases socioemocionais e comportamentais, as quais continuam em plena expansão e aprimoramento durante a infância e a adolescência. Portanto, quando a família matricula o filho na escola, ele já precisa dominar alguns princípios morais. O papel da escola, por sua vez, é desenvolver a convivência entre pares, aprendendo a dividir os brinquedos e o espaço coletivo, por exemplo. O ambiente escolar atua complementando a educação familiar, ensinando a convivência em coletividade, a partilha e o respeito às regras sociais.

“As maiores dificuldades que temos enfrentado atualmente dizem respeito à perda de limites. As famílias entendem que a escola é boa até o momento anterior a ela fazer algo que as desagrade. E desagradar não é fazer algo errado: é literalmente não fazer aquilo que a família gosta”, comenta o advogado. Esse distanciamento se reflete também na participação: segundo ele, existe ainda uma falta de adesão dos responsáveis para comparecer a reuniões, palestras e momentos de formação, o que enfraquece o vínculo com a instituição.

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Parceria é o caminho

Para Escobar, há uma perda do entendimento, por parte das famílias, de que o cuidado com a formação do cidadão deve ser acompanhado em parceria com a escola. “A visão, em boa parte das vezes, é de que a escola não é mais uma escola, mas um negócio, está preocupada com seu faturamento – e está, porque, se não estiver, não paga professor, a estrutura que os pais escolheram e exigiram para que os filhos estivessem ali. Só que nenhuma escola, ao agir dessa maneira, deixou de olhar para o filho de alguém. Essas crianças passam mais tempo na escola do que dentro de casa, e ainda assim a influência dos pais é mais determinante do que o ensino ministrado na escola”, explica.

Nada é mais forte do que o exemplo trazido de casa. Não tem cartilha ou protocolo que resista a uma rotina de práticas duvidosas no próprio lar. A psicóloga Helena Maciel Nunes, presidente da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRPRS), destaca o fato de as famílias repassarem a obrigação de atividades parentais para a escola. “Como pedir para não usar tanto o celular em casa? É ele quem tem de assumir isso. Na sala de aula, o professor pode orientar, mas fora dela o estudante faz o que quiser. É justamente aí que entra o impasse. Como muitos pais trabalham o tempo todo, querem oferecer apenas coisas boas. O que eles não sabem é que dizer não é justamente o que eles têm a oferecer de melhor. Eles chegam cansados e também querem descansar, mas, se têm a responsabilidade por outro ser humano, é importante e necessário dar essa atenção”, afirma.

A falta de alinhamento e de acolhimento pode afetar de forma significativa o bem-estar de filhos e estudantes. A 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) apontou que 26,1% dos estudantes de 13 a 17 anos sentiram que “ninguém se preocupa com ele” na “maioria das vezes” ou “sempre”, nos 30 dias anteriores à pergunta. Essa percepção é maior entre as meninas (33,3%) em comparação com os meninos (19%). No recorte da região sul, o “sentimento de tristeza” no mesmo período foi relatado por 28,3% dos entrevistados.

Nesta edição, o estudo, feito em 2024, introduziu uma questão relacionada à vontade do adolescente de se “machucar de propósito” nos 12 meses anteriores. O percentual que respondeu afirmativamente foi de 32%, sendo mais uma vez maior entre as meninas (43,4%) em relação aos meninos (20,5%).

O ponto é que, entre os sobrecarregados educadores e gestores, o cenário não é diferente. Escobar relata que o esgotamento desse público é flagrante. “Estamos em julho. Eu nunca vi uma quantidade tão grande de profissionais doentes física e emocionalmente nesta época do ano. Está acontecendo cada vez mais cedo”, alerta.

O que tem funcionado

A comunicação é o ponto de partida para que família e escola estejam na mesma página. O diálogo é fundamental e pode começar pela constituição de um conselho participativo. Este grupo, por sua vez, elenca um formulário, que pode ser aplicado de forma virtual, para mapear as carências de toda a comunidade escolar e, com base em dados concretos, implementar melhorias.

Muitas vezes, essa medida ajuda os familiares a entenderem que a escola não apenas oferece muito além do básico, como também acaba sobrecarregada pela responsabilidade que recebe a mais. Além disso, a comunicação constante facilita o acompanhamento dos estudantes. “Quando não é possível ir até a escola, pode fazer videochamada, facilitar o acesso. É possível fazer algumas dinâmicas, que demandam equipe, investimento, mas são viáveis”, sugere a psicóloga.

O conselho participativo é composto por membros da comunidade, preferencialmente representando todas as pontas: estudantes, pais, professores, funcionários, direção e até mesmo algum voluntário que goste de se envolver com o dia a dia da instituição. A participação aumenta a visão que todos têm sobre os desafios uns dos outros, aumentando a empatia e facilitando a busca por soluções em conjunto.

Ao mesmo tempo, é imprescindível capacitar os professores. Afinal, são eles que atuam na ponta do processo, no dia a dia dos estudantes. Para isso, Helena sugere dinâmicas como rodas de conversa e momentos exclusivos para os profissionais, que ela chama de parada pedagógica. “Eu coloco para os educadores a importância da reserva cognitiva. A gente precisa estar bem para fazer nosso trabalho. Se o profissional estiver na defensiva, o aluno vem na defensiva também”, explica.

Outras medidas eficazes são o auxílio de psicólogos e assistentes sociais na mediação de conflitos e o estudo de temas como Comunicação Não Violenta (CNV). Em um mundo com informação fluida, em que as mudanças e os conflitos geracionais acompanham a velocidade exponencial do desenvolvimento tecnológico, a tendência é que esse tipo de desafio se torne cada vez maior e mais frequente. Dar ferramentas para que os profissionais lidem com isso é a melhor forma de mantê-los seguros e eficientes, de forma que as famílias compreendam e confiem no processo e voltem a respeitar a autonomia e a autoridade das instituições de ensino.

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