Escolas criam ações de apoio emocional para vestibulandos e alunos do Enem
Instituições promovem iniciativas de bem-estar, equilíbrio e autoconfiança para atenuar a pressão gerada pela intensa rotina de estudos e provas
O luto pelo fim do ciclo escolar, o ingresso na vida adulta e a escolha do rumo profissional são alguns dos fatores que podem impactar diretamente a saúde mental dos estudantes do Ensino Médio. Em meio a esse turbilhão de transformações, a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ocorre nos dias 8 e 15 de novembro, e para o vestibular ganha contornos ainda mais desafiadores. Por isso, a escola precisa ser uma aliada dos alunos na superação das adversidades trazidas por esse período extremamente complexo.
A psicóloga educacional da terceira série do Colégio Farroupilha, de Porto Alegre, Deise Gessinger, frisa que o terceirão faz parte de um rito de passagem que inclui a despedida da adolescência, da escola e dos laços afetivos construídos até então. Ela comenta que, como boa parte dos estudantes permanece na mesma instituição por diversos anos – alguns desde a Educação Infantil –, a saída da escola representa uma ruptura significativa.
“Alguns estudantes nem se reconhecem fora dessa rotina de acordar todos os dias e ir para a escola conviver com os mesmos colegas e professores. Acredito que a maior dificuldade nesse contexto seja conjugar essa despedida com esse momento que também é de início, em que o estudante precisa passar por uma série de tomadas de decisões importantes com um peso muito grande”, comenta a psicóloga, que é doutora em Educação.
A coordenadora pedagógica do Ensino Médio do Colégio Marista Rosário, Caroline Becker, pontua que um dos principais desafios é a pressão que os próprios estudantes exercem sobre si, muitas vezes associada à ideia de que estão diante de uma escolha definitiva para suas vidas. “Novembro tornou-se um mês de grande sobrecarga, considerando que o Enem e o vestibular da UFRGS ocupam praticamente todos os finais de semana, ao mesmo tempo em que os estudantes precisam conciliar a preparação para esses processos seletivos com as demandas acadêmicas e avaliações de encerramento do ano letivo”, sublinha.
Caroline acrescenta ainda que, além das cobranças individuais, o desejo de corresponder às expectativas sociais e familiares também exerce uma pressão significativa sobre o desempenho dos estudantes, intensificando a ansiedade e as preocupações em relação ao futuro.
Caroline Becker destaca que a escuta atenta dos estudantes é fundamental para compreender suas necessidades e construir estratégias que contemplem não apenas a preparação acadêmica, mas também as dimensões física e emocional envolvidas nesse período. Ela também ressalta a importância de estabelecer uma rede de apoio entre escola, estudantes e famílias, fortalecendo o diálogo e o acolhimento.
“Outro aspecto essencial é a organização do calendário escolar, considerando a realidade vivenciada pelos estudantes, especialmente a concentração de processos seletivos no final do ano. O planejamento institucional deve buscar conciliar as exigências acadêmicas com o cuidado integral, contribuindo para que os jovens atravessem essa etapa com maior segurança”, diz.
Pensando nisso, o Marista Rosário criou o projeto Novembro Especial, que é um mês inteiramente planejado para os estudantes do terceirão, contemplando as dimensões acadêmica, física e socioemocional. Os jovens também passam por processos de transição do ciclo escolar e experiências formativas que visam fortalecer os vínculos e a autoconfiança, além de se prepararem de maneira sólida para as provas.
“Com uma programação cuidadosamente planejada e personalizada, percebemos que o engajamento e os resultados crescem quando as propostas dialogam com a realidade, as necessidades e os interesses dos estudantes”, afirma Caroline.
No Colégio Farroupilha, o apoio ao estudante ocorre de diferentes formas. A instituição oferece experiências diversificadas ao longo do percurso escolar em áreas como saúde, tecnologia, direito, artes e comunicação, ao mesmo tempo em que organiza estruturas de apoio psicológico, convivência e saúde mental articuladas pelo Serviço de Orientação Escolar (SOE).
Durante os três anos do Ensino Médio, a Assessoria Vocacional é organizada em formato de Grupo de Orientação para a Escolha Profissional (GOEP). A iniciativa reconhece que o amadurecimento e a autoimagem dos jovens estão em constante transformação, permitindo que a escolha da carreira profissional não seja vista como algo rígido ou definitivo.
Além disso, vinculado ao GOEP, o colégio promove anualmente o Summit de Carreiras, um evento desenhado a partir dos interesses demonstrados pelos próprios alunos, além de incluir áreas estratégicas sugeridas pela equipe pedagógica. O programa articula três frentes de atuação para conectar a teoria à realidade:
Para além do direcionamento de carreira, o SOE do Farroupilha também conduz o projeto Plano de Voo, que utiliza a metáfora de uma viagem aérea para representar a travessia pelo Ensino Médio. Ao ingressarem na 1ª série, os alunos realizam um “check-in” simbólico e recebem um cartão de embarque, marcando a partida rumo a uma trajetória que terá seu “pouso” na 3ª série com a formatura, o vestibular e o ingresso definitivo nas responsabilidades da vida adulta.
Focado na estabilidade emocional dos estudantes, o projeto acolhe a ansiedade pré-exames somada a múltiplos simulados do Enem, incentivando o autoconhecimento na execução das provas. Desse modo, cada jovem descobre seu ritmo ideal (ordem das questões, descanso e estratégia), garantindo que o domínio pedagógico não seja anulado pelo bloqueio emocional no dia do vestibular.
“Às vezes, eles entram no terceirão e querem fazer cursinho todas as tardes, estudar todas as noites e revisar todos os conteúdos ao mesmo tempo, porque sentem que não têm tempo a perder. Então, o que fazemos aqui é um trabalho de ajudá-los a olhar para essa rotina e pensar, também, em momentos que eles tenham de descanso, de lazer, de convivência com os amigos, de prática de esportes”, comenta Deise Gessinger.
Em outra ponta de atuação, o colégio adota ainda um calendário exclusivo para o terceirão, equilibrando o suporte emocional com a reta final de preparação para as provas externas. Após o término das provas trimestrais, iniciam-se semanas de intensivos temáticos focados no Enem e nos vestibulares da PUCRS e da UFRGS, priorizando estratégias de exame e resolução de questões para dar suporte aos alunos nos dias que antecedem as avaliações.
Na escola AVAEC, de Veranópolis, a preparação para o Enem baseia-se na ideia de que a segurança e o equilíbrio emocional dos alunos devem ser desenvolvidos ao longo de toda a vida escolar, e não apenas nas vésperas do exame. Compreendendo que a confiança nasce do domínio dos conteúdos, do gerenciamento do tempo e da familiaridade com o formato da prova, a instituição adota uma abordagem pedagógica progressiva que fortalece a autonomia e reduz a ansiedade dos estudantes.
Esse processo tem início ainda nos anos finais do Ensino Fundamental (do 6º ao 9º ano), período em que os alunos realizam simulados adequados à sua faixa etária para aprender a preencher gabaritos, administrar prazos e desenvolver hábitos de concentração. No Ensino Médio, a preparação se intensifica com oficinas específicas, encontros com professores convidados e um foco expressivo na redação, que conta com produções textuais semanais e mentorias individuais personalizadas para aprimorar a argumentação e a escrita.
“O trabalho desenvolvido pela AVAEC expressa uma convicção: a tranquilidade não se constrói apenas com palavras de incentivo, mas também com oportunidades concretas de aprender, praticar, receber orientação e perceber a própria evolução. É com esse olhar que acompanhamos nossos estudantes na caminhada rumo ao Enem, compreendendo que cada etapa de aprendizagem representa mais um passo na construção da autonomia, da segurança e dos projetos de futuro de seus alunos”, diz a diretora Cleciane Moro.
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