Como a educação continuada redefine a sala de aula

No Dia do Estudante, a maturidade ganha espaço com adultos que voltam ao Ensino Superior para se reinventar 


Crianças ou adolescentes reunidos em uma sala de aula: essa costuma ser a primeira imagem que vem à mente quando se refere ao Dia do Estudante, comemorado em 11 de agosto no Brasil. A realidade, porém, é que ser aluno não é uma fase da vida com data para acabar, mas uma condição constante; o estudante está, por essência, sempre estudando.

Essa figura tradicional do aluno jovem, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior, já não reflete a pluralidade dos espaços educativos do país. Em um momento marcado por carreiras não lineares, avanços nas ferramentas digitais e o aumento da expectativa de vida, o conceito de lifelong learning (aprendizado ao longo da vida) deixa de ser um mero detalhe e se consolida como uma necessidade prática e uma filosofia de vivência diária.

Pensar nesta data é reconhecer a força desse novo perfil de estudante que emerge nas salas de aula (presenciais ou virtuais), trazendo uma trajetória de vida que enriquece tanto a sua própria jornada quanto a de quem está ao seu redor. Adultos de diferentes faixas etárias têm encontrado nos estudos um caminho movido por propósitos maiores do que um diploma. Para eles, aprender é sobre atualização, reinvenção, autonomia, novas redes de contato e o prazer contínuo de descobrir o novo. 

De acordo com os últimos dados do Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC/Inep), de 2024, a idade dos estudantes no Ensino Superior brasileiro vem passando por transformações contínuas, com expressiva representação de alunos acima dos 30 anos tanto nos cursos de graduação como nos programas que oferecem especialização, mestrado e doutorado. Esse movimento demonstra o crescimento da chamada “economia prateada”, uma tendência demográfica que valoriza e abre espaços para pessoas mais velhas dentro do mercado de trabalho e também nos ambientes acadêmicos. 

Adequação pedagógica no ensino 

Se cada vez mais adultos têm buscado a educação como forma de seguirem ativos no mercado e na vida, a adaptação das universidades a essas novas demandas exige flexibilidade curricular e sensibilidade pedagógica. A gerente de desenvolvimento do ensino e professora da Unisinos, Cristiane Schnack, explica que as instituições de Ensino Superior têm buscado integrar reflexões sobre o futuro das profissões e a diversidade geracional em suas matrizes curriculares. 

Um exemplo é o da disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Profissional (DPP), presente nos cursos de bacharelado da Unisinos, e ações conectadas ao Programa Pró-Maior, que promovem um diálogo direto entre estudantes jovens e o público 60+. Outro ponto destacado por Cristiane é a mudança social ocorrida nas últimas décadas, em que as carreiras deixaram de ser lineares e baseadas na fidelidade a uma única empresa. “Atualmente, as pessoas buscam propósito e, devido ao aumento da longevidade, veem o estudo como uma ferramenta para transições de carreira e para lidar com ciclos de vida que se estendem muito além dos 60 anos”, analisa.

Programa Pró-Maior da Unisinos promove atividades que unem jovens estudantes com pessoas 60+ dentro dos espaços da universidade | Crédito: Unisinos, divulgação

A professora também ressalta o movimento de mulheres que, após se dedicarem à maternidade e ao cuidado familiar, decidem retomar a trajetória acadêmica e profissional. “Observamos um crescente número de mulheres retornando ou mesmo buscando uma primeira graduação para retomar sonhos e buscar autonomia. A escolha de estudar deve ser celebrada em qualquer fase da vida, superando velhos estigmas”, aponta Cristiane.

Para atender à rotina complexa do estudante adulto, formatos como o EAD com foco na preservação da relação entre professor e aluno, cursos semipresenciais e oferta de microcertificações têm se mostrado decisivos. Para Cristiane, essas modalidades garantem acesso democrático e permitem suprir lacunas específicas de conhecimento sem necessariamente exigir uma longa graduação do profissional que busca atualização rápida.

Em busca do bem-estar 

Além do impacto direto na empregabilidade e no desenvolvimento econômico, a busca contínua pelo aprendizado atua como fator de proteção para a saúde mental dos estudantes. Manter o cérebro ativo, cultivar novos círculos de convivência e exercitar a curiosidade científica estimulam a neuroplasticidade e promovem o bem-estar psicológico.

Citando a perspectiva do filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey de que a educação não é uma mera preparação para a vida, mas a própria vida em processo, Cristiane reforça que o ato de estudar se consolida como uma ferramenta permanente de renovação humana. “Líderes e professores precisam aprender e reaprender continuamente para se manterem relevantes e acolhedores. Ter gerações diferentes aprendendo juntas em sala de aula é uma força potente que precisa ser potencializada pelas metodologias de ensino”, salienta.

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Educação em ritmo contínuo

Quem tem uma trajetória marcada pela busca constante pelo conhecimento é a violinista e professora Vivian Reis, de 36 anos. Ela iniciou seus estudos musicais aos 9 anos de idade e, quando chegou o momento de escolher um curso superior, não houve dúvidas de que a música seria a base de sua carreira.

Após concluir o curso de Licenciatura em Música, na Universidade de Passo Fundo, sua cidade natal, ela buscou a especialização em Arteterapia na mesma instituição. Mas, mesmo com uma formação sólida, ela percebeu que queria mais e ingressou no Bacharelado em Violino, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 

“Fiquei um tempo indo e voltando para Santa Maria, até me estabelecer na cidade, onde hoje atuo como professora. Foi importante intensificar minha formação em música, pois trouxe elementos importantes tanto para a minha carreira como docente quanto como pesquisadora”, explica Vivian. 

Vivian (à esquerda) defendeu sua dissertação de mestrado no final do ano passado e tem planos de ingressar no doutorado em breve | Crédito: Arquivo Pessoal

A inquietação intelectual, no entanto, não parou na segunda graduação. Em 2022, ela decidiu dar mais um passo e ingressou no mestrado, com uma pesquisa que uniu as quatro linguagens da arte (dança, artes visuais, música e teatro) ao conceito de educomunicação, confrontando as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Eu buscava uma pós-graduação que me permitisse conectar diferentes áreas do conhecimento e sair da minha zona de conforto da formação específica em música“, revela.

Movida pela curiosidade de transformar seu objeto de pesquisa em algo que contribua para a educação, Vivian já projeta o próximo capítulo de sua vida acadêmica, demonstrando que o estudo contínuo é uma postura diante da vida. “Tenho muito interesse em cursar o doutorado. Estou aguardando a consolidação de um tema que faça sentido para mim e que traga uma motivação clara para iniciar essa nova produção”, aponta.

Autonomia e redescoberta

Para a estudante de Psicologia da Sociedade Educacional Três de Maio (Setrem) Camila Witczak, de 44 anos, o conceito de lifelong learning é exercido na prática diária. Já formada em Comércio Internacional pela PUCRS e cursando também Educação Física na UniCesumar à distância, a decisão de dar mais esse passo aos 41 anos surgiu da necessidade de se reinventar e de produzir algo a mais.

“Em uma conversa, minha psicóloga perguntou em que as pessoas diziam que eu era boa. Respondi que sempre ouvi que sou uma boa ouvinte, que as pessoas confiam em mim. Foi ali que nasceu a ideia da Psicologia”, relembra Camila. 

A acadêmica afirma que o retorno às salas de aula representa uma busca por autonomia e realização pessoal. O receio de retomar os estudos depois de adulta nunca fez parte da sua trajetória. “Sempre gostei de estudar, aprender e estar em movimento. Nunca pensei que a idade fosse um motivo para deixar de fazer alguma coisa. Se eu parar de estudar, trabalhar e me exercitar, acho que as coisas perdem a graça”, afirma.

Estudante de Psicologia há três anos na Setrem, Camila compartilha a rotina acadêmica com as filhas, matriculadas no Ensino Médio da instituição | Crédito: Arquivo pessoal

Essa maturidade atua como um diferencial durante o aprendizado. Segundo Camila, vivências prévias facilitam a absorção dos conteúdos teóricos. Se, por um lado, os colegas mais jovens costumam ter mais rapidez para assimilar certas matérias, por outro, ela traz o olhar de quem já viveu as situações debatidas. “No fim, uma coisa compensa a outra: posso demorar um pouco mais para entender algo, mas enxergo as situações com um olhar diferente”, avalia.

A rotina acadêmica de Camila também integra a dinâmica familiar, já que suas filhas gêmeas, de 14 anos, são estudantes do Ensino Médio, também na Setrem. “A nossa dinâmica é muito tranquila. Elas são responsáveis e cada uma sabe das suas obrigações. Muitas vezes estudamos juntas, cada uma focada nas suas atividades, e isso funciona muito bem”, conta.

Em relação ao futuro, Camila mantém a cabeça aberta quanto ao que pretende fazer, mas com o pensamento de que a diplomação será apenas uma etapa de um caminho maior. “Tenho vontade de fazer trabalho voluntário, penso na possibilidade de unir a Psicologia com a Educação Física e também não descarto atuar em consultório. Quero conhecer melhor as áreas da Psicologia antes de tomar essa decisão”, projeta. 

Sem pretensão de desacelerar, a estudante enxerga a formação como apenas mais um passo em sua trajetória. “Quanto aos estudos, não pretendo parar na graduação. A ideia é continuar fazendo cursos e me atualizando ao longo da carreira”, conclui.

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