Entre o TikTok e a Lição: o desafio de educar na era digital
Vício em dispositivos eletrônicos e redes sociais impacta na capacidade de aprendizagem, mas solução pode vir justamente desse estilo de vida dos novos tempos
Cansaço, sono, vermelhidão nos olhos e dificuldade de socialização estão entre os sintomas do uso excessivo das redes sociais, por parte de crianças e adolescentes. Nessas condições, o foco e a concentração vão para o espaço e o professor tem no ato de ensinar uma tarefa ainda mais árdua. Assim como dão sinais de abuso no uso das telas, os mesmos estudantes trazem, de uma forma ou outra, dicas que podem apontar o caminho para uma solução. O segredo é ter atenção.
Primeiro, é preciso entender como as mídias digitais sugam com tanta força a atenção de toda a sociedade e, mais especificamente, dos jovens. Tudo é pensado com o único objetivo da retenção: alertas que levam diretamente aos aplicativos, grupos que não param de enviar mensagens, telas que rolam infinita e automaticamente, sem dar margem para bloquear a tela e desviar o foco. Os poucos segundos exigidos do usuário não são suficientes para destrinchar um assunto, exigindo cada vez menos raciocínio e causando prejuízos irreversíveis.
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O algoritmo tem a capacidade de “observar” o comportamento digital do usuário e entregar respostas cada vez mais rápidas e satisfatórias. “Você gosta de comer chocolate? Seria capaz de passar o dia comendo chocolate? Pois o algoritmo dá esse prazer”, compara a pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora da Rede E.S.S.E. Mundo Digital e também do grupo de trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Ela explica que essa sensação é causada pela liberação de um neurotransmissor chamado dopamina. Assim, o mecanismo de recompensa emite um sinal prazeroso ao organismo – que, por sua vez, vai pedindo cada vez mais. Imaginando um cenário reverso, quando um choque atingisse a pessoa que acabou de ver um vídeo, ela imediatamente largaria a tela. A questão é que, segundo Eisenstein, as grandes empresas de tecnologia, chamadas bigtechs, desenvolvem seus sistemas com base na dopamina.
Circuito circadiano
Outro efeito danoso vem da chamada luz azul – que tem comprimento de onda mais curto e emite carga maior de energia. Essa luz azul deixa a pessoa em estado de alerta, prejudicando o sono. Por isso, a dica é fazer a “higiene do sono”, que consiste no afastamento das telas cerca de duas horas antes de dormir.
A exposição a essa luz impacta diretamente no circuito circadiano da produção de neurotransmissores e neurormônios. Ele é constituído desde o nascimento, a partir da compreensão de que se acorda quando tem a luz do sol e, durante a escuridão da noite, vem o sono. Só que as telas chegam e subvertem essa lógica, emitindo essa luz de LED para bloquear outro neurotransmissor, a melatonina. Com isso, surge o primeiro sintoma de alteração de comportamento dos adolescentes, que é o transtorno do sono.
Essa privação desencadeia uma série de transtornos, até mesmo para o crescimento. Isso porque é entre meia hora a uma hora depois de dormir que o organismo libera o chamado pulso do hormônio do crescimento. “Esse adolescente que está no vídeo game ou qualquer tela dorme mal, não cresce bem, não faz o que a escola precisa, que são o foco, a atenção, e, principalmente, a memória a longo prazo. Ele esquece, dá o branco da prova, porque não conseguiu dormir e no dia seguinte não consegue focar porque está cansado”, observa a pediatra.
O sistema de recompensa pelo uso das telas causa, ainda, um outro problema grave: a falta de capacidade de socialização e de criar empatia. Isso sem falar em jogos baseados em metas violentas para alcançar patamares superiores, liberando cortisol e a famosa adrenalina. Para Eisenstein, essa mesma lógica orienta o trabalho das bigtechs, que apostam em vilões, heróis, e redes de ódio para prender a atenção dos usuários. Segundo ela, o efeito acaba sendo contrário logo em seguida, deixando a pessoa ansiosa e deprimida. Esse contexto culmina em uma pessoa isolada, que já não sabe interagir e se anula de qualquer atividade.
A médica defende que cada ente da sociedade tem seu papel na reversão desse quadro. “A gente precisa da família, das escolas e do governo. Mas a gente precisa, também, de um quarto pilar que é o compromisso das bigtechs. Elas devem ter compromisso social e com o artigo 227 da Constituição, que é a proteção da Criança e do Adolescente como prioridade absoluta”, aponta.
Diálogo é ferramenta potente
As instituições de ensino apostam na conversa e na observação dos estudantes, no cotidiano, para evitar problemas – ou identificá-los precocemente. O Colégio Salesiano Dom Bosco, de Porto Alegre, promove ciclos de conversas com pais, professores e alunos, em um projeto chamado Ideias em Pauta. A edição mais recente teve como tema justamente a Educação Digital.
“Trouxemos muitas informações sobre como o uso excessivo do algoritmo que nos prende atenção o tempo todo faz com que a gente fique com FOMO . O abuso das telas causa um estranhamento para eles no momento em que estão desconectados”, conta a orientadora educacional dos anos finais do ensino fundamental, Suzane Vitória. FOMO vem da sigla em inglês Fear Of Missing Out, que é o medo de estar perdendo alguma coisa, em tradução livre.
Quando há dependência, é natural que haja problemas com a abstinência. Isso acontece também no digital, com picos de ansiedade e síndromes como a FOMO ou o vício em jogos eletrônicos, que já recebeu inclusive um código internacional de doença, pela Organização Mundial da Saúde (gaming disorder – 6C51).
Segundo Suzane, a restrição do uso dos dispositivos na escola gerou comportamentos ansiosos, mas não tão evidentes quanto se imaginadva. No entanto, pondera, quando os estudantes saem da escola o uso é praticamente indiscriminado, não minimizando tanto assim os efeitos.
“Nosso grande desafio, atualmente, não é concorrer com as redes, mas como evitar a deterioração cerebral para que tenham concentração maior, com aprendizado. Não podemos gamificar a ponto de concorrer com a rede, mas, ao mesmo tempo, também não podemos perder o interesse do estudante”, reflete a orientadora.
A saída passa por metodologias ativas – que também requerem tecnologia, mas não o tempo todo. Usar livros didáticos físicos também é recomendado. Na Educação Infantil, lembra Suzane, as crianças chegam com motricidade fina pouco desenvolvida, porque só o que fazem é “rolar tela”. Neste caso, é indicado propor desafios com tarefas do dia a dia, como amarrar o cadarço, entre outras funções que estimulem o desenvolvimento.
Quando a conversa já não resolve mais
O Instituto Ivoti mantém, há alguns anos, um diálogo permanente com pais, estudantes e professores sobre o uso das mídias digitais. A partir de determinado momento, no entanto, isso não surtia mais efeito. Até que, em 2024, a coordenação partiu para uma medida mais drástica e deu início à restrição do uso dos celulares durante o período de aula.
“A intenção não é estar na escola sem acesso a nenhum tipo de eletrônico, mas fazer bom uso dele. Com a chegada da lei, aplicamos essa restrição conforme proposto, de forma ainda mais rígida”, comenta o diretor da Educação Básica do instituto, Júnior Tiago Ben. A primeira observação é que os estudantes têm participação mais ativa em atividades e debates.
Pedagogicamente, a instituição não perde de vista que o recurso dessas tecnologias vai fazer parte, cada vez mais, da vida de toda a sociedade. Portanto, é sempre sobre o que fazer com elas, e não evitá-las. Uma das reflexões propostas pela instituição, dentro do projeto chamado Ciclo Diálogos, é “Conectados, mas a que custo? O impacto da tecnologia no nosso dia a dia”. Com o apoio de médicos e psicólogos, a comunidade escolar se debruça em temas como esse.
“Por outro lado, também provocamos os nossos estudantes a participarem de atividades oferecidas dentro e fora da escola, como a prática esportiva”, destaca o diretor. Embora ressalte que durante o período em que os alunos estão fora da instituição não se tem qualquer ingerência sobre o uso, já é perceptível o ganho de qualidade e agilidade na produção em sala de aula. Sem distrações externas, o rendimento individual e coletivo vem crescendo.
Professores precisam estar preparados
O Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou, recentemente, a Resolução CNE/CEB nº 2/2025, com diretrizes que norteiam a restrição do uso de celular nas escolas. A docente da Faculdade Instituto Ivoti nas áreas de Letras e Pedagogia Marguit Carmem Goldmeyer, acredita que o documento formaliza e orienta, mas seu real efeito depende de como as instituições de ensino vão trabalhar a partir de agora.
“Pode engessar, por ajudar a manter tudo como estava, ‘já que a lei diz’. A lei está aí, o que vamos fazer com ela?”, questiona Marguit, que coordena o grupo de pesquisa em Inteligência Aumentada para Aprendizagem na faculdade. Ela, portanto, não vê problema no uso da tecnologia, de forma racional e que faça sentido. “A escola precisa recuperar o papel reflexivo”, pondera.
Despertar o interesse dos estudantes precisa passar, antes de mais nada, pelo conteúdo propriamente dito – uma vez que os meios preferidos deles estão quase inacessíveis durante as aulas. Buscar informações que criem vínculos e ensejem atividades estimulantes é uma possibilidade.
“Para os anos finais do fundamental, é interessante trazer uma notícia que diga respeito a eles, que se interessem, ou que choque – não pelo negativo, mas sendo surpreendente”, cogita. Para os pequenos, perguntas como “que animal você seria e por quê?” podem ser suficientes para tirá-los da obviedade e do tédio. Marguit entende que a grande sacada, no tempo do digital, é voltar à interação. Isso vai trazer maior concentração nas atividades.
Mas, além disso, também cabe aos já sobrecarregados educadores identificar sinais de que o uso das mídias digitais está tirando a capacidade de aprendizagem. O próprio documento publicado pelo MEC prevê que “as capacitações para educadores e equipes escolares devem habilitar os profissionais para identificar sinais de sofrimento emocional e promover a saúde mental dos estudantes, por meio de oficinas e seminários com especialistas e de parcerias para formação continuada em temas relacionados”.
Para Marguit, a escola que busca uma atuação mais humanizada deve começar pelos gestos da própria equipe, desde o bom dia, valores que devem ser bem trabalhados – e são muito fortes no ensino privado gaúcho. “Às vezes ouço de coordenadores que a manhã não rendeu, mas deu colo para vários professores. O professor que se sentir acolhido vai se sensibilizar um pouco, também”, acredita.
Lição vem do próprio mundo digital
Principal moeda de troca ou métrica de valorização (e valoração) das redes sociais, o engajamento tem tudo para ser o centro desse processo de captar a atenção e a concentração dos estudantes. Engajar, neste caso, pressupõe a participação ativa do aluno, em termos de tecnologia – que não é vista como um inimigo, mas requer um olhar cuidadoso.
Uma sugestão que a pesquisadora traz é que os estudantes façam perguntas a uma ferramenta de inteligência artificial como o ChatGPT. A seguir, anotem as respostas em bilhetes, que serão distribuídos aleatoriamente entre os colegas. Então, cada estudante deve pegar o bilhete, ler a resposta e pensar em qual a pergunta feita para que se chegasse naquele resultado. “Precisamos fomentar essa troca e o trabalho colaborativo entre os alunos”, conclui.
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