Robótica educacional exige foco no aluno, não na tecnologia

Fundamental para os estudantes, recurso não precisa priorizar os equipamentos tecnológicos mas, sim, estimular os jovens e proporcionar sentido para que se envolvam em seus próprios projetos

por: Eduardo Wolff | eduardo@padrinhoconteudo.com
imagem: Depositphotos

“Crianças aprendem melhor quando estão ativamente engajadas na construção de algo significativo para elas, seja um poema, um robô, um castelo de areia ou um programa de computador.”  

A frase acima é do desenvolvedor do construcionismo, o educador e matemático norte-americano Seymour Papert. Basicamente, a teoria foca no educando construir o seu próprio conhecimento por intermédio de alguma ferramenta.

Quando se fala em robôs, ainda existe certo receio em parte dos ambientes escolares, algum distanciamento, muito devido ao fato de que nem todas as propostas pedagógicas dão ênfase à prática, ao fazer. A robótica nada mais é do que o “mão na massa”, a exemplo do movimento maker, que é um potencializador de habilidades. 

Apesar da utilização da robótica educacional não ser uma prática nova, em muitos casos está em desuso ou com utilização equivocada. Apenas comprar equipamentos e aplicá-los sem fundamentos não é a forma mais eficaz de se obter bons resultados com esse recurso. 

O uso de robôs, seja físico, seja virtual (sim, um chatbot, aqueles de atendimento automático, é um exemplo), pode proporcionar uma aprendizagem mais divertida e com grandes resultados. 

No final das contas, não importa o meio (a tecnologia) e, sim, o como (a aprendizagem).

Descomplicando a robótica

Ao invés de um kit de robótica pronto ou apostilas que vão indicar exatamente o que vai ocorrer, a base de tudo são as atividades que precisam ser práticas e autorais. “É colocar em xeque qual o propósito e o que vamos atingir fazendo uma atividade por meio de um robô ou uma plataforma”, pontua o analista de Tecnologias Educacionais dos Colégios da Rede Marista, Guilherme Bilhalva.  

Apenas operar um drone e fazer uma gravação do pátio da escola pode ser algo curioso de se observar, mas como uma ação restrita a uma postagem de rede social. Segundo o especialista, o foco é na finalidade pedagógica, o que se aprendeu nesse mapeamento da região, se foram aplicados conhecimentos de matemática, física e geografia, por exemplo.

A criatividade para aplicar a robótica educacional é importante, pois faz diferença na hora de investir. Os valores podem variar, desde kits de robótica (como o Arduino) até projetos mais baratos, por meio da sustentabilidade. 

Bilhalva comenta que o reaproveitamento de materiais é algo a ser estimulado no ambiente escolar entre os alunos e seus familiares. “O descarte eletrônico é muito útil. Mesmo quebrados, um ventilador, uma impressora de papel ou um celular possuem muitos elementos a serem utilizados, barras de ferro e engrenagens, ganhos de força de motores. O próprio papelão e canos de PVC têm custo baixo e potenciais de criação muito elevados”, frisa.

Em um projeto no qual esteve à frente, há três anos, com alunos do oitavo ano do Ensino Fundamental, o especialista recorda da criação de um robô que auxiliava as pessoas com deficiências visual e/ou auditiva. A ideia foi de ajudar a se locomover sem outro tipo de suporte, como uma bengala. 

Com a criatividade em suas cabeças, os estudantes aproveitaram uma pequena caixa de madeira, uma braçadeira, um vibracall de celular antigo, um buzzer (um alto-falante, de R$ 12) e um pequeno sensor (de cerca de R$ 30). Com esse mix foi criada uma pulseira: se algum obstáculo estivesse à frente do usuário, o dispositivo começava a apitar e a vibrar, como em sensor de um carro ao estacionar. Todo esse desenvolvimento com baixo custo.

Para ampliar os horizontes no mundo da robótica, no site da Rede Marista, Bilhalva apresenta um percurso formativo, com diversos conhecimentos, como conceitos tecnológicos e eletrônica.

Estimular os desafios entre os jovens

Uma competição (saiba mais ao final da reportagem) ou um desafio faz com que os alunos realizem um planejamento, contem com uma colaboração coletiva e utilizem a lógica para solucionar os problemas. A robótica promove o letramento digital, pois tem estratégia, meio e fim na aprendizagem. É o que acredita o coordenador da Incubadora Acadêmica e do Núcleo de Inovação e Tecnologias Educacionais da Fundação Educacional Machado de Assis (Fema), Nedisson Luis Gessi.

Conforme o especialista, outro conceito ativado pela robótica é o pensamento computacional. Por estarmos em um século dominado por softwares, só vai se sobressair quem dominar essa habilidade. Esse método de ensino se encaixa muito na era digital, porém encontra barreiras. “Esse paradigma tem se quebrado. Existe toda uma linguagem visual e lúdica utilizada”, ressalta.

Adaptável em outras metodologias, a robótica serve de conexão a desafios. A Geração Z gosta de ser desafiada, e esse estímulo necessita ser promovido. “Aulas totalmente expositivas não garantem conhecimento. Botar a mão na massa, fazer os alunos buscarem soluções vão gerar mais resultados”, reforça. 

Recentemente, o coordenador conheceu presencialmente o ensino em Portugal. Naquele país, o foco é na educação empreendedora, não necessariamente para formar empreendedores ou empresários, mas sim no intuito estimular a proatividade. Habilidades não só para o mercado de trabalho, mas para sobreviver ao mundo digital.

Em sua conta no Instagram, o especialista incentiva a aprendizagem por meio de brincadeiras. Um dos sistemas de aprendizagem utilizado é o Lego Education.

Como instigar a cultura maker

A cultura maker tem como base empreender, utilizar as ferramentas para sua realidade, e a robótica proporciona esse tipo de desenvolvimento. Para o co-fundador do MundoMaker, Fabio Zsigmond, a escola precisa pensar quais atividades estão de acordo com a realidade dos estudantes. “Se será algum espaço físico, não precisa ser algo sofisticado, basta ter mesas para um trabalho coletivo e analisar quais outros recursos estão disponíveis”, explica. 

Os espaços makers presentes em algumas escolas foram tema de reportagem no Educação em Pauta.

A partir disso, a escola pode agregar valores que norteiam respeito e segurança para definir outros. Se o ambiente é favorável entre colegas, isso gera autonomia e a relação fica melhor.

No entendimento do especialista, o recomendado é adotar a teoria do construcionismo (a mesma do autor da frase inicial da reportagem), que é experimentar por meio do uso dos materiais. Melhor que um manual de passo a passo é proporcionar um sentido aos jovens para que se envolvam em seus próprios projetos.

Fomentar o pensamento lúdico também é essencial, trazendo os 4Ps da aprendizagem criativa, que são: Projetos, Parcerias, Paixão e Pensar brincando. Algo muito presente na criança e que se perde ao longo da vida, o que é importante para estimular a criatividade.

A robótica em si não só instrui, mas instiga os jovens a trabalhar. “O paradigma de lecionar muda, o professor é mais mediador, proporciona perguntas e aponta caminhos”, finaliza.

Competir para aprender

Com a proposta de fomentar o aprendizado, o pensamento criativo, a resolução de problemas em percursos processuais para materialização de projetos, o Festival Marista de Robótica vai para a sua 13ª edição, em 2022. O tema deste ano é “Ciências Básicas no Cotidiano”. A média é de 2 mil participantes por edição.

Nesse tradicional evento, os alunos são incentivados a participar de quatro modalidades: Cidade Laboratório, Desafio de Drones, Desafio de Robôs e Incubando Ideias. Apesar de ser promovido pela Rede Marista, participam estudantes tanto da rede pública como privada. 

Durante esses anos, o desenvolvimento das equipes, de diferentes faixas etárias, é motivo de orgulho. “É a possibilidade de concretizarem as suas ideias, criarem soluções para auxiliar a sociedade na qual estão inseridos. Existe um brilho muito incrível”, celebra o analista de Tecnologias Educacionais dos Colégios da Rede Marista.

TAGS





Assine nossa newsletter

E fique por dentro das novidades