A Copa do Mundo invade a sala de aula
Trocar figurinhas aproxima estudantes e professores, mas o torneio se mostra uma ferramenta muito potente dentro do projeto pedagógico
De quatro em quatro anos, mais da metade da população mundial dedica boa parte de seu tempo a acompanhar o campeonato de futebol que reúne as principais seleções do planeta. O torneio mais popular do esporte mais popular também faz sucesso entre os mais jovens. Se o interesse pela modalidade já é naturalmente grande no Brasil, intensifica-se com artigos como figurinhas, jogos eletrônicos e artigos esportivos especiais do evento.
É de se esperar, portanto, que isso invada as escolas. O tempo livre é dedicado a falar sobre o tema, trocar figurinhas e completar coleções. O assunto corre mais do que nunca. Por isso, muitas escolas optam por inserir o evento no programa pedagógico, por meio de atividades pontuais ou que atravessem o ano letivo.
Para a professora Daniele Gazola, da unidade de Roca Sales do Colégio Evangélico Alberto Torres (CEAT Região Alta), trata-se de uma oportunidade de se aproximar dos estudantes. “O aluno percebe que a gente também conhece sobre o assunto. Às vezes, o professor é aquele que surpreende quando se interessa pelas mesmas coisas que eles. Nós também podemos trocar figurinhas, entender de futebol, e tudo isso os traz para perto”, observa.
Daniele é uma das coordenadoras do projeto World Culture Fair 2nd Edition – Around the World Through Football. A feira cultural, lançada no ano passado, aproveitou o tema da Copa do Mundo para trabalhar com estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental à 2ª série do Ensino Médio, com o objetivo de unir cultura, pesquisa e prática da língua inglesa.
Cada grupo escolheu um dos 48 países classificados para o torneio. Depois, os estudantes foram atrás de informações e representações que contassem sobre a cultura, a história e outras características de cada nação. Por cerca de seis semanas, eles dedicaram um período de aula por semana, dentro do componente curricular de Língua Inglesa. Como o tempo não é suficiente, eles se reuniram nas casas, nos intervalos, e envolveram as famílias.
“Eles tinham dúvidas, conversavam com professores de Geografia, História; eu indicava quando não sabia algo. A Matemática também, em certo momento. Querendo ou não, todo tipo de conteúdo vai aparecendo. Tudo vai sendo envolvido”, conta Daniele. A criatividade é um dos pontos altos, segundo a professora. O grupo que falou sobre a Inglaterra reproduziu uma cabine telefônica típica de Londres, enquanto outros grupos desenvolveram (e até encarnaram o papel de) mascotes.
A apresentação ocorreu em horário escolar, mas, com o grande apelo do tema, ganhou sessão extra. No fim do dia, depois do trabalho, os pais e convidados também puderam ver de perto o resultado. Cada estação temática era composta por duas classes, espaço que foi decorado com bandeiras, flores, objetos que remetiam ao respectivo país — e ao futebol, obviamente: houve até quem levasse o jogador francês Kylian Mbappé ou o norueguês Erling Haaland impressos em tamanhos mais do que reais.

Ao todo, 23 países foram pesquisados por cerca de 85 alunos. Já a avaliação foi feita por meio de uma banca, que contou com alguns alunos da 3ª série do Ensino Médio. Como a instituição aplica testes de proficiência em Língua Inglesa da Universidade de Cambridge, os estudantes que alcançaram os níveis B2 ou C1 em 2025, ou seja, quando estavam no segundo ano, em 2026 fizeram parte do grupo de avaliadores da feira, que ocorreu no dia 14 de maio.
“Muitas vezes aparecem notícias ruins, haters, e esta é uma oportunidade de perceber que tem muita coisa boa envolvida. Se existe há tanto tempo, é porque faz sentido para a sociedade e cumpre um papel de socialização”, defende Daniele. Em função do fuso horário, os jogos não ocorrem quando os estudantes estão na escola. Mas isso não quer dizer que as atividades acabaram. O Grêmio Estudantil do CEAT Região Alta está preparando ações de engajamento para que o colégio continue no clima.
No Colégio La Salle Caxias, em Caxias do Sul, o torneio começa no planejamento do ano letivo e vai até novembro. Isso porque cada série conta com um professor de referência — responsável, entre outras coisas, por cuidar de projetos multidisciplinares. É esse profissional quem pensa, ainda durante a preparação do projeto pedagógico, na forma como temas latentes da sociedade vão aparecer na sala de aula.
Quando se trata de futebol, fica ainda mais entranhado na cultura da escola. O Grêmio Estudantil promove a Copa Recreio, que, como o nome sugere, se desenvolve durante os intervalos. Segundo o vice-diretor, Irmão Junior Schnorrenberger, o nível de competitividade é alto, inclusive oportunizando que os educadores trabalhem o espírito esportivo, a coletividade e até mesmo interfiram em alguma animosidade que surge naturalmente.
“Isso tudo faz parte do crescimento. Trabalhamos o emocional, o autocontrole, a frustração. O esporte nos ajuda muito, incluindo a Educação Física e os Jogos Escolares”, comenta o vice-diretor. Por tudo isso, o ano de Copa do Mundo é visto como mais uma grande oportunidade; afinal, professores e alunos já debatem muito o assunto e, inclusive — para surpresa de ninguém — trocam figurinhas.
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Durante os Jogos Olímpicos, estudantes desenvolveram trabalhos no espaço maker, como sensores que mediam a distância alcançada no arremesso de peso e informavam automaticamente pelo celular. Na perspectiva da inclusão, elaboraram mapas sensíveis ao toque e com explicação para cegos.
Nessa perspectiva, surgiu o projeto “Paixão pela Copa, responsabilidade pelo planeta”, já que a escola sempre tenta pautar os projetos dentro das diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). “Tem a questão da Copa do Mundo ser um evento mundial, que também gera muito lixo. Pensamos em como trabalhar isso com os estudantes”, explica Irmão Junior.
Este projeto envolve os estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental. O pontapé inicial foi dado na jornada pedagógica, em fevereiro, mas ficou definido que se esperaria até que o assunto fosse esquentado de vez. No dia 13 de maio ocorreu a abertura oficial do projeto, que propõe momentos de reflexão sobre os impactos ambientais gerados por grandes eventos esportivos e a importância de atitudes sustentáveis diante desses desafios. Cada turma sorteou uma seleção participante para nortear as atividades pelo restante do ano.
Na esteira da Copa do Mundo, diversos componentes curriculares devem aproveitar para trabalhar seus conteúdos. A estatística, na Matemática; a Geografia, sobre a localização e as características de cada país, suas diferenças, culturas, política interna e externa, economia; e a sustentabilidade como pano de fundo para tudo isso. “Organizamos o projeto de forma coletiva e interdisciplinar, envolvendo todos os professores do nível desde o início do ano letivo. A proposta foi estruturada em etapas distribuídas ao longo dos meses e trimestres, permitindo que cada componente curricular contribuísse de acordo com seus objetivos e habilidades específicas”, explica a professora Natália Bolfe, referência do sexto ano.
Não podemos ficar na superficialidade, na questão de comprar figurinha, que cai no consumismo, e não tomarmos consciência até mesmo do lixo que estamos produzindo. Em outras copas, tivemos investimento em estádios sem um projeto claro; em outra, tivemos estádio de contêineres que foram colocados em outras utilidades depois”, exemplifica o Irmão Junior. Para ajudar a pensar nessas questões, a escola recorre a ex-alunos como Daniel Randon, CEO da Randoncorp, que conversa com os estudantes e mostra que é possível ser um grande empresário e manter uma consciência ecológica enorme.
A professora Indiana Fochesatto, que também atua na coordenação do projeto, concorda. Segundo ela, trazer temas atuais para dentro da escola torna a aprendizagem mais significativa, pois aproxima os conteúdos escolares da realidade vivida pelos estudantes. Esse trabalho incentiva o desenvolvimento de um olhar mais crítico, participativo e consciente sobre o seu papel na sociedade. “Além do desenvolvimento acadêmico, trabalhar temas como a Copa do Mundo e a sustentabilidade contribui para o fortalecimento de habilidades socioemocionais, estimula a empatia, amplia o repertório cultural e favorece a construção de posicionamentos mais responsáveis e conscientes diante das questões sociais e ambientais do mundo contemporâneo”, acredita.
Enquanto a bola rola nos Estados Unidos, no México e no Canadá, o jogo não para nas salas de aula. Trazer a Copa do Mundo para a roda de conversa aproxima estudantes, educadores, gestores e as famílias. Além disso, serve como pretexto para falar de assuntos importantes para a sociedade de maneira mais próxima do que os alunos costumam consumir em termos de informação. Cada instituição traz sua cultura na forma de olhar para o torneio, já que é praticamente impossível ignorá-lo.
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