O desafio de ensinar conflitos globais e formar cidadãos conscientes

Colégio Marista Assunção adota estratégias para abordar a geopolítica e ajudar estudantes a entender o cenário mundial

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Freepik

Além de complexo, o tabuleiro da geopolítica global se movimenta intensamente e causa reflexos na vida de todos. Por isso, o assunto não pode passar batido em sala de aula, especialmente quando se fala de uma educação integral e que prepara, literalmente, para o mundo. A questão que surge é apresentar essa realidade aos estudantes sem suscitar debates polarizados ou mesmo causar apreensão.

Um exemplo interessante vem do Colégio Marista Assunção, de Porto Alegre. A instituição criou, em 2022, o Comitê de Relações Internacionais (Cori), por iniciativa de professores de sociologia e história, acompanhados por estudantes que tinham um interesse especial por geopolítica. O grupo, formado por alunos do 9º ano do Ensino Fundamental até a 3ª série do Ensino Médio, estuda temas da atualidade, com a perspectiva de entender como eles poderiam chegar a uma resolução. 

Os estudantes entendem como funcionam as organizações supranacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), seus órgãos, documentos oficiais, tratados, agendas e documentos de posicionamento oficial. A estrutura do próprio comitê reproduz, em parte, o funcionamento desses órgãos – atualmente, conta com secretário-geral, vice-secretário-geral, secretária-acadêmica e secretária de marketing.

Simulações com escolas

Grupos de estudos como o Cori vêm ganhando espaço nas instituições, a ponto de trocarem experiências em conjunto. Os estudantes do Marista Assunção participam de simulações em outras escolas, da própria rede ou não, em toda a região metropolitana. Escolas que contam com clubes como esse enviam delegados para atuar junto a outros comitês.

Este ano, o colégio promove a quarta edição da Simulação Internacional Marista Assunção (SIMA), que deve reunir cerca de 200 estudantes. Durante dois dias, eles participam de comitês temáticos conforme áreas de interesse e simulam encontros de órgãos como o Conselho de Segurança da ONU, entre outros. “A partir dessas simulações, eles acabam desenvolvendo muitas habilidades dentro da escrita, da oralidade, do respeito com o outro, da negociação, do saber ceder”, observa a professora de Geografia do Ensino Médio e coordenadora do Cori, Andrea Lemos.

Além de desenvolver tais habilidades, participar desse tipo de atividade faz com que os estudantes tenham outro olhar para os conflitos globais, ainda que seja um tema difícil de lidar. “Eles conseguem entender todos os braços que envolvem desde uma negociação, os motivos, começam a pensar de que forma essas negociações podem levar a uma outra construção de sociedade. Isso vem também com as simulações”, conta Andrea.

Ainda que a primeira coisa que vêm à cabeça sejam os conflitos, o Cori trabalha muito além disso. Os estudos e experiências abordam desde a estrutura das negociações, pensando na humanidade e no meio ambiente. Quando fala da ONU, por exemplo, traz uma perspectiva para muito além do Conselho de Segurança, com visões sobre economia, direitos humanos, qualidade de vida, direitos da mulher, entre outras questões da sociedade contemporânea – tudo do ponto de vista da negociação, priorizando o entendimento de como tudo é discutido e quem tem o poder de mudar as coisas. A negociação é o grande centro do Cori, muito mais do que a análise dos conflitos em si.

Cori é formado por estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental até a 3ª série do Ensino Médio | Crédito: Andrea Lemos/Acervo pessoal

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Esta, aliás, talvez seja a primeira lição do comitê. “A maioria dos estudantes procura o clube pela questão dos conflitos; depois descobrem que vai muito além disso. Percebem que é mais complexo”, destaca Andrea. Mas também existem os que já se interessavam pelo assunto, como Mattheo Feuerharmel, de 17 anos (no Cori há quatro). O estudante do terceiro ano sempre gostou de conversar e debater temas da atualidade, por isso não pensou duas vezes quando anunciaram em sua sala de aula a existência do comitê. “Lembro de chegar em casa e a primeira coisa que falei para minha mãe foi: ‘tem um clube de Relações Internacionais, eu quero participar, me inscrever agora que na segunda vai ser o primeiro encontro’”, conta.

No começo, o estudante tratava o Cori como um hobby, por já gostar de história, geografia e política. À medida que teve ainda mais contato com esses temas, o interesse só aumentou. “Agora vejo como parte do meu cotidiano. Analisar, compreender e ter o pensamento crítico sobre o tema em questão é algo que se tornou padrão. O clube me possibilitou aprofundar conflitos, desvendar suas origens e exercer uma crítica consciente sobre cada situação”, explica Mattheo, que hoje é secretário-geral do comitê.

O contato com a possibilidade de solucionar – ou não – conflitos que interferem na vida de tantas pessoas, ainda que de forma simulada, pode causar ansiedade nos estudantes. “No momento em que a ficha cai sobre o que são as relações internacionais, procuramos não ‘virar o fio’. Fica o sentimento de que dá para negociar, mas com os pés no chão”, explica a educadora.

Experiências para a vida

As atividades do comitê costumam romper barreiras para chegar a outros colegas, visitar instituições e até mesmo eventos globais. Este ano, uma aula aberta foi responsável por compartilhar com os demais estudantes a forma como o grupo discute os conflitos globais.

Sob o tema “Oriente Médio 2026: Conflitos, Poder e Ordem Mundial”, o Cori apresentou conceitos fundamentais de geopolítica para analisar a dinâmica de poder e dos conflitos naquela região do globo. Também foi um momento de propor reflexão aos estudantes. Deu tão certo que vários deles se inscreveram no clube após a atividade. “Eles enxergaram de uma forma mais interessante, quase como uma esperança. Entenderam que impactam o dia a dia, por mais que pareça distante. É no preço do pão que a gente vai comprar, no ônibus que pega”, exemplifica Andrea.

A coordenadora do comitê lembra de outro momento de conscientização política e cidadã muito grande: a participação na COP30, em Belém, no Pará. Ela acompanhou o secretário-geral e o vice-secretário-geral do Cori na COP Marista, evento paralelo promovido pela rede, com representantes de todo o país. 

“Foi fantástico perceber que não ficaram com vergonha na hora de falar sobre as questões ambientais, a oralidade, a criticidade, fiquei bastante orgulhosa. No final, produziram o Manifesto Marista pelo Clima”, lembra Andrea, destacando que a comissão responsável pela redação contou com a participação de um dos estudantes do colégio Assunção. “São experiências que eles levam para a vida”, completa.

O secretário-geral também gostou. “Uma experiência única e maravilhosa. Foi incrível poder ver diante dos próprios olhos a história acontecendo e perceber materializado tudo aquilo com que convivo diariamente e tem um impacto gigantesco na minha vida”, afirma. Entre as principais memórias, ele lista a visita ao pavilhão da COP30, uma incursão do grupo na floresta amazônica e a redação do Manifesto Marista pelo Clima, momento em que teve “a oportunidade de ser um dos principais redatores levando a voz, a esperança e a vontade da juventude com o futuro climático do planeta”, como define.

Atuação dos estudantes ultrapassa os muros da escola e chega a eventos como a COP30, em Belém, no Pará. Na foto, Mattheo Feuerharmel (secretário-geral do comitê da escola), Andrea Lemos (coordenadora) e Gabriela Cancino (vice-secretária-geral). | Crédito: Andrea Lemos/Acervo pessoal

O micro e o macro

Para a coordenadora, um dos pontos mais interessantes é perceber que os estudantes se interessam pela leitura do contexto internacional a partir da compreensão de seu próprio dia a dia. “Depois da aula aberta, muitos ficaram para trocar ideia. A abordagem desses conflitos globais de grande porte começa por fazer uma leitura do ambiente em que a gente vive. Começamos falando do Brasil, entendendo o aumento de preços, como funciona nossa economia e por que esses conflitos impactam aqui. Depois, eles começam a entender como a ordem mundial está posta até hoje, passando pela Guerra Fria, grandes centros de poder e até onde vai esse poder”, detalha.

Derrubar mitos também faz parte. Enquanto muita gente critica a ONU alegando que ela não funciona, o Cori mostra que as organizações “são como uma grande babá que não pode deixar ninguém tretar”, como Andrea traduz para os estudantes. “A gente começa como se fosse uma fofoca: fulaninho brigou e voltou atrás, etc. Eles começam a entender as relações a partir dessa forma mais leve de comunicação. Depois é que entramos em pontos como por que os Estados Unidos têm poderio bélico e econômico, o que está em xeque, por que o Irã é o grande rival dos EUA e tudo mais”, exemplifica.

Na prática, é como se os professores plantassem uma sementinha com essa fofoca geopolítica, despertando o interesse dos estudantes. Parece que vem dando certo, considerando a busca pelo ingresso no Cori e pela maturidade com que os assuntos são tratados dentro e fora do comitê, no contexto dos diferentes componentes curriculares. A experiência prova que é possível trabalhar com os estudantes de forma leve e construtiva, sem perder a profundidade que o assunto exige.

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