Mesmo na era digital, escrever à mão é indispensável ao aprendizado

Estudos apontam que a escrita cursiva ajuda a desenvolver habilidades fundamentais como coordenação motora fina, percepção visual, criatividade, atenção e autonomia


Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) identificou que a escrita à mão cria padrões de conectividade cerebral muito mais elaborados do que a digitação. O impacto ocorre especificamente nas regiões parietais e centrais do cérebro – que são ligadas à memória e à codificação de novas informações –, beneficiando o aprendizado.

A pesquisa utilizou eletroencefalogramas de alta densidade (EEGs) para mapear a atividade cerebral de 40 estudantes universitários, que foram convidados a redigir manualmente e também a digitar os mesmos textos em um teclado. Com base no experimento, os pesquisadores concluíram que, apesar da importância de acompanhar os avanços tecnológicos, a manutenção de atividades que desenvolvam a escrita à mão é indispensável no processo de aprendizado.

A neurocientista Elvira Souza Lima é defensora da escrita à mão nas escolas. Em seu livro “A Incrível Aventura dos Primeiros Dois Anos de Vida”, lançado em 2021, ela trata sobre a importância da manifestação simbólica do traçado para os bebês, frisando que a escrita cursiva dá sequência a um processo que contribui para a construção de memórias. 

“A partir do segundo ano de vida, o bebê começa a fazer traços que são a base do desenho. Ele começa fazendo linhas e depois surge o formato arredondado por causa da circularidade do pulso. Já a escrita cursiva tem uma outra dimensão, que é a da constituição dos processos de memória. É uma manifestação natural que evolui do desenho da criança. E isso está na herança genética da espécie, porque ninguém precisa traçar para que um bebê saia traçando, imitando. Considerando isso, a escrita é fundamental nos processos de formação de memória que vão impactar muito no desenvolvimento cognitivo”, afirma a pesquisadora, que também é musicista, antropóloga, psicóloga, doutora pela Sorbonne Université, na França, e pós-doutora pela Stanford University, nos Estados Unidos. 

Estudantes do Colégio Madre Bárbara, de Lajeado, exercitam a escrita à mão em projeto curricular | Crédito: Colégio Madre Bárbara, divulgação

Evolução histórica

A especialista pontua que as primeiras manifestações escritas surgiram há pouco mais de 5 mil anos em diversas civilizações, inicialmente de forma ideográfica e depois alfabética. Recursos modernos como a letra cursiva, a segmentação de palavras e a pontuação não existiam nas origens, sendo frutos de um longo processo de evolução das práticas de escrita. 

Elvira comenta que, historicamente, o desenvolvimento das técnicas de escrita surgiu para facilitar a apropriação do sistema e a formação de memórias. Um exemplo marcante nas línguas alfabéticas foi a criação da segmentação, já que, na antiguidade, os textos eram grafados de forma contínua, dificultando a leitura e a compreensão visual das palavras.

A pesquisadora pontua que a forma cursiva consolidou-se à medida que as práticas docentes evoluíram e o uso da escrita foi ampliado para diferentes esferas sociais e civilizações. Embora esse processo não fosse justificado cientificamente na época, sua implementação visava facilitar a aprendizagem, a memorização e a fluidez da leitura. 

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A especialista explica que, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a privilegiar o ensino através da letra de forma (também conhecida no Brasil como letra de bastão ou palito), modelo que foi importado pelo sistema educacional brasileiro, apesar da ausência de evidências científicas de sua superioridade. Ela destaca que, do ponto de vista neurológico, a escrita cursiva exige a pinça digital entre o polegar e o indicador, que são justamente os dedos com maior representação e conexões no córtex cerebral.

A pesquisadora comenta também que, diferentemente da escrita da letra de forma, em que a mão é levantada do papel a cada caractere, a escrita cursiva delimita visual e fisicamente a unidade da palavra, o que facilita a memorização do conteúdo. A especialista comenta que pesquisas recentes com estudantes universitários demonstraram que a retenção de conteúdo na memória é de 30% a 40% maior quando as anotações são feitas em letra cursiva.

O risco das telas 

A pesquisadora Elvira Souza Lima alerta que o uso excessivo de telas oferece o risco de vício, afetando tanto adultos quanto crianças, que perdem a noção do tempo ao navegar pelos dispositivos. Em contrapartida, o ato de escrever à mão em letra cursiva estimula de forma única a criatividade, a elaboração cognitiva e as conexões neuronais.

A especialista compartilha sua experiência de pós-doutorado na Universidade de Stanford, localizada próxima ao Vale do Silício, e comenta que engenheiros de grandes empresas tecnológicas, como a Google, além de figuras como Bill Gates e Steve Jobs, restringiram rigidamente o uso de computadores e smartphones para seus próprios filhos (permitindo celulares apenas por volta dos 16 anos) e os matricularam em escolas de linha pedagógica Waldorf (abordagem educacional criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, com ênfase nas artes, música, natureza e trabalhos manuais). 

Ela ressalta que os executivos de empresas de tecnologia conhecem muito bem os danos provocados pelas telas, acrescentando que pesquisas recentes apontam que o uso de computadores diminui a massa branca no cérebro de crianças de três e quatro anos. Ela compara a gravidade do vício em tecnologia na infância à dependência química e comenta que, na Europa, já existem clínicas para desintoxicar crianças de três e quatro anos viciadas em telas que manifestam os mesmos sintomas de abstinência dos bebês nascidos de mães viciadas em cocaína.

Conhecida pelo seu papel na vanguarda da introdução tecnológica no Ensino, a Suécia, um dos países mais digitalizados do planeta, tem revisto o uso de dispositivos digitais e analógicos no ensino. Além da proibição de telefones celulares nas salas de aula, o governo sueco vem implementando uma série de medidas como a volta dos livros físicos às escolas e a reintrodução da escrita manual no currículo. Isso tudo após uma série de estudos feitos por especialistas, acadêmicos e autoridades em razão do resultado negativo do Pirls (Estudo Internacional de Progresso em Leitura), exame que mede a compreensão de leitura de alunos do quarto ano do Ensino Fundamental.

Motricidade fina e concentração

A professora do Curso de Psicopedagogia da PUCRS e da rede municipal de Porto Alegre, Gabriela Castro Menezes de Freitas, sublinha que muitas crianças vêm apresentando dificuldades na motricidade fina por estarem excessivamente expostas a dispositivos eletrônicos. Ela frisa que a falta do hábito de pintar e desenhar afeta a habilidade de segurar o lápis e a capacidade de concentração. Contrapondo-se ao estímulo acelerado e dinâmico das telas, a escrita manual é um recurso essencial para desacelerar a criança, trabalhando sua atenção e foco. 

“Os estudos de neurociência já mostram que a escrita manual ativa uma parte do cérebro direcionada para a linguagem. Quando a criança escreve à mão, ela trabalha memória, motricidade fina e percepção visual. O psicólogo francês Stanislas Dehaene (que esteve aqui na Brain Week) afirma que a escrita à mão aciona um circuito neuronal que integra visão, tato e áreas motoras”, comenta.

Ela defende a coexistência de dois momentos distintos no planejamento letivo: os períodos em que os alunos podem usar o meio digital de forma lúdica para brincar com a escrita, e os momentos dedicados a atividades estruturadas de traçado manual, preenchimento de espaço e elaboração textual diretamente no papel.

A professora compartilha uma preocupação recorrente enfrentada por adolescentes ao chegarem a exames importantes, como o vestibular e o Enem. Devido à falta de hábito com a escrita à mão ao longo da vida escolar, muitos estudantes sofrem crises de ansiedade durante a prova de redação por não conseguirem produzir uma caligrafia legível. Como a avaliação dessas provas é humanizada e realizada por corretores, as escolas frequentemente se veem na obrigação de intervir tardiamente, convocando as famílias e prescrevendo exercícios de caligrafia para garantir que a letra dos estudantes seja legível e que eles consigam manter o padrão exigido pelas bancas examinadoras.

“Se trabalharmos desde o início da vida escolar com a criança, afirmando que é importante ter a própria letra e conseguir organizar as informações no papel, quando chegar lá no vestibular ela não terá uma dificuldade tão grande para fazer uma redação”, ressalta Gabriela.

Praticando a escrita

No Colégio La Salle Niterói, em Canoas, o incentivo à escrita manual começa já na Educação Infantil, quando os alunos são convidados a produzir um livro temático com textos redigidos com a caligrafia de cada um. A professora Bárbara dos Santos Alves, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, explica que a escola tem uma parceria com uma editora que recolhe o material escrito à mão pelos estudantes, junto com as imagens criadas por eles, e transforma tudo em um livro físico, digitalizando o conteúdo.

“O objetivo principal é enfatizar o desenvolvimento da letra de cada um. Com isso, os estudantes vão trabalhando a questão da concentração, da seriação (capacidade de organizar informações em uma sequência lógica) e dos sons das letras”, explica a professora.

Bárbara conta que a estrutura do projeto é mantida, mas o tema do livro muda todo ano, conforme o projeto pedagógico de cada turma. No ano passado, por exemplo, o foco foram as rimas. Neste ano, o tema escolhido foi “Do campo à mesa”, que aborda a natureza, os animais e os alimentos da fazenda. A publicação do livro ocorrerá ainda no segundo semestre.

Livro produzido por alunos do Colégio La Salle Niterói | Crédito: Colégio La Salle Niterói, divulgação

Já os alunos que ingressam no 1º ano do Ensino Fundamental trocam a produção do livro coletivo pela escrita da sua primeira obra individual. A publicação aborda o processo de criação de dispositivos ecológicos desenvolvidos pelos próprios estudantes. A professora Fernanda Ziegler, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental I, explica que, todos os anos, os alunos desta etapa são estimulados a pensar soluções para um problema relacionado ao meio ambiente. A partir disso, surgem diversos projetos, como robôs para a reutilização da água da chuva ou para a reciclagem correta do lixo. 

Na sequência, os estudantes elaboram um projeto inicial para colocar em prática suas ideias. Eles devem elaborar um passo a passo, com informações práticas como: qual situação-problema o dispositivo vai resolver; como será solucionada; como será desenvolvido o protótipo; quais materiais serão utilizados, etc. Depois, os estudantes partem para a etapa de produção, quando são criadas as “engenhocas”. Ao final, eles escrevem um livro sobre o processo. O resultado desse esforço é divulgado em novembro de cada ano, durante a durante a Noite da Alfabetização, evento em que ocorre a sessão de autógrafos.

“Esse desenvolvimento da escrita é muito importante porque, a partir dele, nós conseguimos observar todo o processo de aprendizagem do estudante”, pontua Fernanda. 

Na Noite da Alfabetização ocorre a sessão de autógrafos dos livros produzidos pelos estudantes do La Salle Niterói | Crédito: Colégio La Salle Niterói, divulgação

De letra em letra

No Colégio Madre Bárbara, de Lajeado, no Vale do Taquari, o estímulo à escrita manual ocorre por meio do projeto “De letra em letra, até chegar na letra cursiva”, desenvolvido com estudantes dos segundos anos do Ensino Fundamental. Conforme a coordenadora pedagógica dos Anos Iniciais, Simone Elisa Faleiro, a iniciativa, que teve início neste ano, tem como objetivo tornar a aprendizagem da letra cursiva uma experiência significativa, lúdica e envolvente. 

O projeto consiste em oficinas criativas e atividades práticas que estimulam as crianças a explorarem diferentes formas de aprender a escrita cursiva. Entre as propostas estão a modelagem de letras com massinha, o uso de folhas mágicas, o contorno de letras pontilhadas, a escrita com giz no pátio e produções em papel pardo com canetinhas. 

O projeto do Madre Bárbara leva alunos ao pátio da escola para praticar a escrita manual | Crédito: Colégio Madre Bárbara, divulgação

Cada atividade é planejada para desenvolver habilidades importantes, como coordenação motora fina, percepção visual, criatividade, atenção e autonomia. Acreditamos que a escrita manual desempenha um papel fundamental no desenvolvimento integral das crianças. Diferentemente da digitação, escrever à mão mobiliza diversas áreas do cérebro simultaneamente, fortalecendo conexões neurais relacionadas à memória, à atenção, à linguagem e à aprendizagem”, ressalta a coordenadora. 

A professora frisa que cada traço manual exige planejamento, ritmo e precisão, estimulando habilidades cognitivas essenciais para o processo de alfabetização e para a construção do conhecimento.

“Em um contexto em que as crianças estão cada vez mais expostas às telas, proporcionar experiências concretas e sensoriais com a escrita torna-se ainda mais importante. Ao escrever à mão, a criança desacelera, se conecta com o processo de aprendizagem e desenvolve uma relação mais significativa com a linguagem, transformando ideias e pensamentos em registros próprios e cheios de identidade”, diz Simone.

Benefícios da escrita à mão

  • Maior ativação cerebral: estimula e atinge áreas consideravelmente maiores e mais complexas do cérebro do que a digitação.

  • Consolidação de memórias: impacta diretamente na formação e fixação de memórias de longa duração de conteúdos escolares.

  • Estímulo multissensorial: promove a integração simultânea de informações visuais, táteis e sinestésicas (percepção do próprio movimento).

  • Maior retenção de aprendizado: pesquisas com estudantes mostram que fazer anotações à mão aumenta em até 30% a 40% a retenção do conteúdo ensinado.

  • Desenvolvimento cognitivo global: o treino motor da escrita exercita conexões neuronais que beneficiam o aprendizado de outros sistemas simbólicos, como matemática, física, química e música.

  • Fortalecimento da identidade: expressa a individualidade e o recurso afetivo/emocional da criança através do traço único, elevando o orgulho e a autoestima escolar.

  • Desperta a criatividade: atua como uma extensão do corpo e do desenho natural infantil, facilitando o processo de elaboração mental e criativa.

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