Mais do que resultados, uma pesquisa deve observar os caminhos

Instituto Singularidades criou um Centro de Pesquisa Aplicada voltado à formação de professores e práticas docentes. Conversamos com a coordenadora Barbara Born para saber como funciona

por: Tatiana Py Dutra | tatianapydutra@gmail.com
imagem: Jcomp, Freepik

A Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia conta com mais de 60 mil trabalhos sobre Educação defendidos no Brasil desde 1987. O dado serve como indicador da profusão das pesquisas realizadas nessa área. Contudo, há uma certa insatisfação das escolas, gestores e pensadores da Educação sobre a qualidade dos trabalhos acadêmicos. Dentre os problemas apontados, estão a pobreza teórico-metodológica na abordagem dos temas de pesquisa, com muitos estudos puramente descritivos e/ou “exploratórios”, e a preocupação com a aplicabilidade imediata dos resultados.

Foi em busca de uma pesquisa mais robusta em Educação que o Instituto Singularidades – entidade sem fins lucrativos que trabalha com a formação de professores, gestores e de especialistas em ensino – criou um Centro de Pesquisa Aplicada em Práticas de Ensino e Formação Docente.

“Quando fui convidada para montar o centro, a ideia era primeiro agregar à instituição a ideia de produção de pesquisa mas, também, pensar em um modelo que não fosse tão comum na educação brasileira. Então, criamos esse desenho de pesquisa aplicada, relacionada a práticas de ensino e em formação docente”, conta a coordenadora de Pesquisa do Singularidades e responsável pelo Centro, Barbara Born.

A escolha do recorte da pesquisa aplicada, segundo Barbara, vem justamente para suprir as lacunas que críticos apontam para a produção científica brasileira na área educacional.

“Hoje, tradicionalmente, vemos dois tipos de pesquisa. Dentro das faculdades e universidades, vemos trabalhos muito teóricos, que vão olhar para a literatura para discutir abordagens e paradigmas sobre alfabetização ou matemática, por exemplo. De outro, as  pesquisas que estão olhando para uma prática bacana, e vão descrever essa prática. Mas esse é o tipo de evidência que, no campo de pesquisa, chamamos de ‘anedótica’. É bacana registrar uma boa prática, mas se eu não consigo indicar porque ele funciona, não consigo afirmar que em outro contexto vá funcionar ou não. Não é uma metodologia rigorosa do ponto de vista da causalidade”, diz Barbara, que é mestre e doutoranda em Educação Internacional Comparada e Formação de Professores pela Universidade de Stanford (EUA).

A área da Economia da Educação, que estuda análises de impacto, pode ser igualmente deficiente quanto à aplicabilidade em escala.

“São estudos que vão olhar uma intervenção. Por exemplo: a introdução de um programa de merenda escolar resultou no crescimento do  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola? E eles fazem uma análise de entrada e saída. Entrou o programa X, saiu o resultado Y, mas não sabemos o que aconteceu no meio. Eles podem concluir que após a implantação do programa de reforço escolar, uma escola subiu dois pontos na nota da prova padronizada realizada pelo governo. De novo, não sabemos o que acontece no caminho. O que falta na pesquisa de educação é entender os mecanismos. Por que determinada intervenção deu certo? O que houve na formação do professor que o ajudou a mudar sua prática em sala de aula? Que diferentes práticas levaram a maior aprendizagem do aluno?”, exemplifica a professora.

Um trabalho em elaboração

A missão do centro é justamente produzir uma pesquisa em Educação que observe os mecanismos de aprendizado, de maneira rigorosa e controlada, fazendo comparações em diferentes contextos. Segundo ela, esse desenho rigoroso permite falar de causalidade.

“Comparando diferentes contextos, posso afirmar que aquela intervenção pedagógica deu certo e que não é o aleatório que está causando a mudança de aprendizagem. O objetivo é obter conhecimentos robustos sobre coisas que possam ser escaladas em outros contextos. Uma prática de ensino de São Paulo pode ser aplicada no Rio Grande do Sul porque eu sei quais os mecanismos foram utilizados no processo”, conta Barbara.

Conforme a diretora do centro, o trabalho de pesquisa aplicada está ainda sendo projetado, já que envolve a elaboração acadêmica de uma intervenção, além da prospecção de parceiros, escolas e redes de ensino públicas e privadas interessadas em colaborar. Mas já há quatro projetos em andamento. Em um deles, relacionado à formação inicial, onde docentes profissionais serão mentores dos futuros professores durante o estágio.

“Desenhamos um modelo de estágio supervisionado, já que a prática do ensino é um dos componentes da formação inicial. Via de regra, essa etapa acontece ‘de qualquer jeito’. O aluno vai para a escola, senta no fundo da sala e aprende a como não ser professor. Nossa proposta foi propor uma estratégia para os profissionais organizarem as atividades do estágio, criando tarefas para o estagiário cumprir dentro da escola, orientando seu olhar, com pautas de observação bem estruturadas, para que essa experiência propicie aprendizagens significativas que se reflitam, depois, em sua atividade docente”, revela Barbara.

Divulgação científica

O piloto do projeto começa no ano que vem e as etapas de aplicação da intervenção e avaliação de resultados devem demorar dois anos. Até lá, o centro exercitará seu braço de divulgação científica, aproximando professores, instituições de ensino formadoras e gestores da educação.

Este ano, o Centro de Pesquisa Aplicada em Práticas de Ensino e Formação Docente promoveu três seminários internacionais, de forma remota e presencial, em parceria com prestigiadas universidades estrangeiras 

“Tivemos um seminário focado no professor de Anos Finais e Ensino Médio, feito em parceria com a Universidade de Harvard. Foi um webinário aberto, em que um professor brasileiro e outro, americano, falaram sobre a retomada do ensino no pós-pandemia. Depois, fizemos um evento presencial com uma professora de Stanford, que é uma grande especialista em formação de professores e, recentemente, fizemos um seminário voltado para a Educação Infantil, em parceria com a Universidad Diego Portalez, do Chile”, conta Barbara.

Outras iniciativas visam fazer circular conhecimentos produzidos por diferentes acadêmicos e professores. Entre eles, um podcast que traduzirá pesquisas acadêmicas e papers publicados em revistas internacionais, aos quais a maioria dos docentes não têm acesso. A ideia é orientar o professor a como aplicar esses conhecimentos em sala de aula e a começar uma reflexão sobre esses processos.

“E um terceiro instrumento, que vamos ter ainda esse ano, são notas técnicas. Essas são mais voltadas para secretarias de educação, formadores de professores e para o pessoal que desenha políticas públicas. Vamos sintetizar achados de pesquisas que sejam úteis em suas atividades”, antecipa.

Segundo Barbara, todo esse conteúdo reflete a missão do centro de pesquisas que é de afetar o ecossistema educacional de uma forma geral, com produção e conhecimento que ajudem a todas as instituições de ensino a continuarem crescendo.

“Nossa missão de fato é a produção de pesquisa rigorosa, com estratégias que são testadas antes de serem escaladas para apoiar a prática de professores. Entender como as coisas funcionam e estender o conhecimento, para que as pessoas possam apropriar e construir em cima deles, garantindo a aprendizagem de nossas crianças e adolescentes”, finaliza.

TAGS





Assine nossa newsletter

E fique por dentro das novidades