Vencer a cultura da pressa é uma chave para cuidar da saúde mental

Entenda por que definir limites pessoais virou a competência mais valiosa para o profissional moderno

por: Mariane Hahn Corrêa

Se a tecnologia nos aproxima e, cada vez mais, facilita tarefas do dia a dia, na mesma proporção ela aumenta a velocidade da vida. Acelerar áudios, consumir conteúdos rápidos e rasos virou sintoma de uma sociedade que transformou o “estar ocupado 24/7” em sinônimo de sucesso.

A psicóloga especialista em saúde do trabalhador e professora da UniRitter Aline Soares propõe a reflexão sobre a cultura da pressa, que pode promover a intensificação e a sobrecarga no trabalho. Ela destaca que as inteligências artificiais auxiliam para que se tenha mais qualidade de vida, mas, no momento que agilizam processos, acabam exigindo de uma pessoa que ela multiplique sua carga de trabalho sem multiplicar a carga horária. “A busca por produtividade e, consequentemente, uma competitividade que leva à redução de prazos e aumento de metas, exige desse trabalhador que ele faça muito mais coisas em menos tempo”, alerta.

Aline ressalta que os indicadores de desempenho reforçam a ideia de que números viraram sinônimo de eficiência, causando consequências até mesmo em áreas nas quais o foco deveria ser qualidade – e não quantidade –, como na atenção primária em saúde. “A hiperconectividade acaba extravasando as áreas da vida das pessoas. Essa exigência de respostas imediatas, de recebimento de WhatsApp a qualquer hora e em qualquer dia, elimina os espaços de pausa, reflexão e criatividade, que são tão importantes”, aponta.

A naturalização da lógica produtivista como sinônimo de sucesso não é um movimento só do mercado de trabalho e das empresas, mas também social, de forma gradual e inconsciente. “Isso incorpora a aceleração como algo ideal na nossa cultura”, sinaliza Aline.

Nativos digitais e o poder de dizer “não

Alunos que estão cursando o Ensino Fundamental e, principalmente, o Ensino Médio já refletem sobre o que querem ser quando crescerem. Se a lógica do mercado de trabalho não mudar a médio prazo, como prepará-los?

O economista e professor da Fadergs Jorge Ussan comenta que a receita mistura educação de qualidade e desenvolvimento das habilidades cognitivas que lhes permitam se adaptar. “A gente acha que existem coisas que vão revolucionar, mas não. As crianças aprendem o que elas veem. Os imersos no mundo digital vão ter mais flexibilidade do que seus pais, do que seus avós, mas ainda serão seres humanos”, reflete.

Para Aline, a relação dos pais com o trabalho reflete na visão e no comportamento dos jovens no mercado de trabalho, que já entendem que podem dizer “não”. Porém ainda têm na sua formação a entrega das provas, dos trabalhos, da métrica e da produtividade.

As redes sociais criam uma pressão contínua que invade a vida pessoal. Não é só o trabalho, mas acabam vindo com uma sobrecarga de exigência que é de hobby, de beleza, de relacionamentos com sucesso. Até mesmo o descanso é visto como uma produção. “O descansar também é medido como uma métrica. E isso, do ponto de vista da saúde mental, é muito grave. Então, os nativos digitais têm uma vivência diferente em relação a outros que estão no mercado de trabalho e que são de outras gerações”, alerta.

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A reconquista da consciência

Lá no início da reportagem ficou uma questão para reflexão: tem mesmo que ser assim sempre? A resposta cada um terá para si, desenvolvendo consciência da realidade e como vai lidar com ela.

Apesar da identificação de que a lógica produtivista está inserida no nosso inconsciente e na sociedade, Aline também traz como um alento alguns sinais de busca de qualidade de vida. A Covid-19 trouxe uma luz para a questão da saúde mental dentro das empresas e das organizações. “Enfrentar essa lógica produtivista passa por uma mudança de cultura, mas tem coisas que talvez possamos iniciar, como reconhecer o valor do descanso como parte de uma produção saudável,” orienta.

Menos agenda, mais imaginação

Viver melhor permite orientar e dar bons exemplos para as crianças e jovens nativos digitais, que estão crescendo e sendo formados para a vida adulta e o mercado de trabalho neste contexto de aceleração. “Ensinar o valor do ócio e da pausa para as crianças é importante”, comenta Aline. 

A criança precisa de uma agenda para brincar, para não fazer nada e imaginar. Se é almejado um futuro de crianças e jovens que compreendam como é fundamental cuidar da saúde mental, cabe ao adulto ter senso crítico e perceber que é importante que também faça isso. “Pequenos exemplos do dia a dia, nos quais eu consigo trabalhar essa questão do valor da qualidade ao invés da quantidade [são importantes]”, recomenda a psicóloga. 

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